Iéltsin, o ex-comunista que trouxe liberdade

Os principais protagonistas do cenário político dos anos 90 celebram o aniversário do primeiro presidente da Federação Russa e discutem seu legado.

Se as mudanças trazidas pela dissolução da União Soviética certamente não satisfizeram a todos, o estabelecimento de uma nova Constituição, de uma economia de mercado, da liberdade de ir e vir, de expressão e de imprensa são reconhecidos por muitos. Responsável, em grande parte, por essas transformações, o primeiro presidente da Federação Russa, Boris Iéltsin, completaria 80 anos neste mês. Falecido em 2007, o estadista agora ganhou uma série de homenagens pelo país.

“Iéltsin, antes de qualquer outro político soviético, valorizou a importância do amparo popular, mudando o sistema tradicional de relações entre o poder e a sociedade”, disse o autor de sua nova biografia, Rudolf Pikhoia.

Depois de construir a carreira política populista nos Urais, Iéltsin é indicado para a prefeitura de Moscou pelo então presidente Mikhail Gorbatchov e pelo segundo- secretário Iegor Ligatchov.  Mas em 1987, quando começa a criticar publicamente o presidente e o Politburo, acaba demitido. “Iéltsin não tinha medo, por isso não precisava de instrumentos para espalhar o temor”, disse à Gazeta Russa o chefe da revista alemã Der Spiegel em Moscou, Matthias Schepp.

A campanha oposicionista dos comunistas contra Iéltsin e subsequentes denúncias de alcoolismo não o impediram de ser eleito presidente em 1991, com 57% dos votos. Ele inicia então uma série de reformas que culminariam numa abertura à liberdade de expressão e de mercado.

“Iéltsin criou, sobretudo em seu primeiro ano de presidência, toda uma série de decretos chamados ‘acerca da liberdade de imprensa’, ‘acerca da defesa da liberdade de imprensa’ etc.”, explica o atual conselheiro presidencial para assuntos de direitos humanos, Mikhail Fedotov. A Constituição por ele promulgada em 1993 também garantia amplas liberdades individuais, como o Artigo 31, que garante que o “direito de se reunir de maneira pacífica, sem armas, conduzir comícios e demonstrações, desfiles e piquetes”.

Mas para a ativista dos direitos humanos Liudmila Aleksêieva, a falta de tradição democrática teria atrapalhado. “A economia planificada e o mercado liberal se mostraram incapazes, então para muitos a memória de liberdade ficou atrelada à lembrança de dificuldades e privações”, explica.

Outras reminiscências de seu governo remetem ao uso de força militar contra as massas que protestavam por melhores condições de vida em frente ao Parlamento em 1993, que resultou num total de 500 mortos (números não-oficiais), e a Primeira Guerra da Tchetchênia. “Acredito que nem tenha passado pela cabeça dele pensar sobre as liberdades como instituições. Na cabeça das pessoas, sobrou apenas o tiroteio no Parlamento – e isso está impresso mais forte que a Constituição”, diz analista político Gleb Pavlóvski.

IÉLTSIN, Boris Nikoláievitch

Primeiro presidente eleito da Federação Russa

Boris Nikoláievitch Iéltsin nasceu em 01 de fevereiro de 1931 no povoado de Butka.

Iniciou sua  carreira partidária no comitê regional do Partido Comunista em Sverdlovsk, do qual se tornou Primeiro Secretário em 1976. Em 1981 foi admitido para o Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética.

A partir de 1985 passa a trabalhar em Moscou, no aparato do Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética, ocupando o cargo de diretor do departamento de construção. Em 1985 e 1986 é secretário do Comitê Central. Entre 1986 e 1988 foi candidato à membro do Politburo do Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética. A partir de 1985 dirigiu por dois anos o comitê do Partido Comunista de Moscou.

Após pronunciamento crítico numa plenária do Comitê Central, em outubro de 1987, foi afastado da alta direção do partido e nomeado vice-presidente do Comitê Estatal das Construções da URSS.

Em março de 1989, Boris Iéltsin foi eleito deputado popular da URSS.

Em março de 1990 foi eleito deputado popular da República Socialista Federativa da Rússia.

Em 29 de maio foi eleito Presidente do Soviet Supremo da Rússia.

Em 12 de julho de 1990, no XXVIII congresso do Partido Comunista da União Soviética, anunciou a saída do partido.

Em 12 de junho de 1991, Boris Iéltsin foi eleito primeiro presidente da Rússia.

Entre 1991 e 1992, acumulou a função de chefe do governo da Rússia. A partir de maio de 1992, tornou-se Comandante-em-chefe das Forças Armadas da Federação da Rússia. A partir de junho de 1992, tornou-se presidente do Conselho de Segurança da Federação Russa.

Em junho de 1996, Boris Iéltsin foi reeleito presidente da Federação Russa.

Em 31 de dezembro de 1999, Boris Iéltsin anunciou sobre a saída do cargo de presidente da Federação Russa e, por decreto, nomeou Vladimir Putin presidente de transição.

Boris Nikoláievitch Iéltsin faleceu em 23 de abril de 2007 e foi enterrado no cemitério Novodévichiy, em Moscou.

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