Terrorismo, bravatas e corrupção

Os líderes russos se comprometeram mais uma vez a perseguir e punir os terroristas responsáveis por um atentado. Desta vez o perpetrado no aeroporto Domodêdovo, em Moscou, no final de janeiro. Ainda assim, é difícil sentir-se seguro, pois o problema real continua ignorado.

Depois do atentado, o presidente russo Dmítri Medvedev pediu para as autoridades “trazerem os culpados à justiça e destruírem suas organizações”. Após os incidentes com bombas no metrô de Moscou no ano passado, Medvedev se comprometeu a “continuar as operações antiterroristas sem hesitar e até o final”. O presidente tenta imitar o tom severo de seu mentor, o primeiro-ministro Vladímir Pútin, que prometeu, em 1999, “limpar os terroristas de suas privadas” e afirmou ser “uma questão de honra para o serviço de segurança arrastar os terroristas do fundo dos esgotos para a luz de Deus”. As declarações provocaram repercussão.

Depois do atentado no aeroporto, a polícia de Moscou anunciou medidas adicionais de segurança. Na verdade, quase nenhuma mudança aconteceu. Pouco tempo após o ataque, com receio de perderem seus voos, os passageiros do Domodêdovo simplesmente rodeavam os dispositivos de rastreamento. Os detectores de metal localizados na entrada do aeroporto, por sua vez, não funcionam há quase 6 meses.

No fim das contas, a segurança durante o ataque foi pior do que nunca, segundo testemunhas. Os passageiros que chegavam ao aeroporto perambulavam pelos terminais. Nenhum setor da segurança tomou para si a responsabilidade pelos procedimentos pouco rigorosos no local, embora ex-funcionários tenham dito a jornalistas que o corte nos salários,  em primeiro lugar, e depois de pessoal, comprometeram a realização de um rastreamento adequado.

Classificar o ataque como um atentado terrorista “significa que alguém responsável pela segurança no Domodêdovo ou do Ministério de Serviço de Segurança Federal vai ser despedido”, escreveu Anna Nemtsova, correspondente da revista americana Newsweek. “Infelizmente parece que não aprenderam a lição. Ainda há pouca segurança nos lugares públicos”, completou.  

Incapazes ou não dispostos a encarar difíceis questões como, por exemplo, o que ocorreu e por quê, os políticos assumem uma suposta linha dura, mas os ataques continuam.

No próprio Cáucaso, que seria a base dos grupos apontados como responsáveis, eles acontecem quase diariamente, e a população muçulmana das problemáticas regiões de Daguestão, Inguchétia e Tchetchênia sabem muito bem o que significa a linha dura dos políticos russos. Corrupção e medo reinam no Cáucaso do Norte, onde o poder reside em um sistema complicado de lealdades e afilhados políticos corruptos.

Para acalmar a situação, Moscou envia navios de dinheiro que nunca vão ao encontro da população mais pobre, desaparecendo nos bolsos dos oficiais regionais. Enquanto muitos não conseguem comprar nem um carro popular, policiais de tráfego no Daguestão patrulham em Porsches Cayenne. Os verdadeiros terroristas circulam livremente, e a população é quem paga o preço. As disparidades têm causado aumento do apoio local ao terrorismo. Algumas horas depois dos ataques no aeroporto, já apareciam mensagens de apoio em sites de extremistas russos. Por todo Cáucaso, as pessoas viravam a cara para o Kremlin. Entre os caucasianos há a crença de que os representantes da segurança federal sequer tentam caçar os verdadeiros terroristas, explodindo prédios “de forma simbólica”. Afinal, se os terroristas fossem encontrados não haveria mais necessidade do envio de recursos de Moscou para financiar essas operações.

O economista e empresário Aleksandr Khlopônin talvez seja o homem mais solitário da Rússia. Indicado há quase um ano como enviado presidencial para o recém-criado Distrito Federal do Cáucaso do Norte, imediatamente após assumir a nova posição iniciou uma nova jornada na tentativa de melhorar a situação da região, estimulando o desenvolvimento econômico e proporcionando alternativas a tudo que possa ser oferecido pelo fundamentalismo islâmico.

No verão passado, Khlopônin anunciou uma série de projetos prioritários de desenvolvimento econômico para combater conflitos étnicos e religiosos. Nos planos constam a construção de uma refinaria de petróleo na Tchetchênia e o desenvolvimento dos portos de Makhatchkala e de Derbent, juntamente com a criação de infraestrutura turística na região. Porém, não é tão simples obter investimento, e em meio à retórica dos donos da guerra, oficiais do serviço de segurança, líderes militares e figuras políticas locais, a voz de Khlopônin tem passado despercebida. “A iniciativa de promover emprego e desenvolvimento econômico não parece estar funcionando”, disse Nemtsova, da Newsweek, no dia em que o ataque ocorreu. “Há muita frustração entre os habitantes.”

Depois do ocorrido, o presidente Medvedev postergou sua viagem para participar do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, onde discursaria sobre como a Rússia é um lugar seguro para investimentos – tendo em vista, particularmente, o estímulo de interesse estrangeiro no desenvolvimento de esportes de inverno no Cáucaso do Norte. A Rússia ainda sonha que as montanhas do Cáucaso possam competir como destino turístico com os Alpes Suíços. A cada ataque, entretanto, fica mais distante de seu sonho.

Olaf Koens é um jornalista holandês baseado em Moscou e freelancer para diversos veículos de comunicação.

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