Mercado de cinema vira herói da crise

Projetores 3D mais modernos, usados em filmes como “Avatar”, chegaram no ano passado/Foto: Ury Martianov_Kommersant

Projetores 3D mais modernos, usados em filmes como “Avatar”, chegaram no ano passado/Foto: Ury Martianov_Kommersant

Rússia vive momento de grande recuperação da arrecadação do setor cinematográfico, após forte queda entre 2008 e 2009.

O mercado russo, com seus 142 milhões de consumidores, atrai cada vez mais empresas estrangeiras. E a indústria cinematográfica, é claro, não ficou de fora. Empreendedores se apressam em construir modernas salas por todo o país, a arrecadação de 2010 já faz da Rússia a quinta maior bilheteria do mundo e as distribuidoras de filmes faturaram US$ 1 bilhão no último ano, um crescimento de 40% em relação ao ano anterior, aponta a revista especializada Kinobusiness. Os resultados revelam uma forte recuperação das perdas ocorridas em 2009, auge da crise econômica, quando o faturamento caiu de US$ 831 milhões para US$ 736 milhões em um ano.

“À medida que as pessoas ficam mais ricas, podem, obviamente, gastar mais em entretenimento, cinema ou teatro”, ressalta Kingsmill Bond,  chefe-estrategista do banco de investimentos russo Troika Dialog.

O peso do público russo também ficou mais evidente com o sucesso que “O Turista” e “As Viagens de Gulliver”, duas produções norte-americanas, fizeram nas telas do país no começo deste ano. Os filmes atraíram mais público na Rússia que em qualquer outro lugar do mundo, com exceção dos Estados Unidos. “O Turista”, principalmente, foi um fiasco de bilheteria nos consolidados mercados europeus, mesmo com estrelas como Angelina Jolie e Johnny Depp no elenco e tendo Paris e Veneza como cenário. Na Rússia, por outro lado, a estreia arrecadou US$ 10,3 milhões já no primeiro fim de semana de janeiro e o faturamento com ingressos só perdeu para a  Itália, que é palco da maior parte do enredo do filme.

Já “As Viagens de Gulliver”, com o irreverente ator Jack Black, gerou US$ 9,5 milhões no fim de semana de estreia, o melhor desempenho em todo o mundo.  

Hollywood já se deu conta dos lucros que a Rússia e seus produtores podem gerar. Os investidores estrangeiros, no entanto, ainda precisam encontrar meios de penetrar neste exponente setor, hoje dominado pelas distribuidoras russas. Segundo a Kinobusiness, as empresas locais detém 97% do mercado.

Atualmente, filmes importados enfrentam uma competição acirrada com a crescente produção local – até o final de 2010, 338 filmes haviam sido lançados na Comunidade dos Estados Independentes (CEI).

As distribuidoras de filmes hollywoodianos ficaram com um quarto do faturamento, ou seja, US$ 250 milhões. O resto foi abocanhado por empresas russas. Vale ressaltar que os maiores sucesso do ano foram os norte-americanos “Avatar”, que rendeu US$ 100 milhões para a 20th Century Fox, e “Shrek para sempre”, que obteve cerca de R$ 50 milhões, segundo a revista Kinobusiness.

Em 2010, o título russo “Iôlki”, do diretor Timur Bekmambetov, está se provando o grande favorito das bilheterias. Bekmambetov é dos integrantes da geração que está reinserindo o país na indústria global. Além da versão dublada do popular filme de vampiros “Guardiões da Noite”, ele também dirigiu o blockbuster “O Procurado” (2008), estrelado por Angelina Jolie.

Pagando por qualidade

A forte atuação russa no mercado cinematográfico é surpreendente. Hoje, existem menos de 11 mil salas de cinema em todo o país, das quais um terço pode ser considerada defasada. Os modernos projetores 3D necessários para a exibição de filmes como “Shrek para sempre” e “Avatar” foram introduzidos somente no ano passado.

Segundo o chefe-executivo da rede Kinoplex, Simon Dunlop, um país do tamanho da Rússia deveria contar com pelo menos quatro vezes mais salas. “Uma rede de cinema de porte médio nos Estados Unidos possui mais salas de cinema do que todas as salas em funcionamento hoje na Rússia”, diz.

O público russo também tem se mostrado disposto a pagar mais por qualidade. De acordo com dados da consultoria PricewaterhouseCoopers, se por um lado a receitas das bilheterias cresceu 40% em 2010, a frequência do público subiu apenas 14,9% no mesmo período. Com isso, a expectativa da consultoria é de que o mercado de entretenimento e mídia na Rússia cresça em média 9,3% ou mais ao ano, podendo superar dois terços de toda a receita da CEI até 2014.

O número de complexos de cinema vinha crescendo 30% ao ano em relação ao número total de salas modernas. Porém, a crise econômica mundial acabou desacelerando a expansão do setor, que caiu pela primeira vez em 2010. Os piores efeitos, entretanto, não são esperados antes da metade deste ano. 

Ainda assim, a crise é vista como revés temporário e empreendedores já tentam emplacar novos projetos no país, cujo rendimento médio continua a crescer 4% mesmo durante o período de recessão.

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