O homem que escreveu a história

Foto: AFP_EastNews

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Alguns líderes foram responsáveis por movimentos de renovação em seus países. Entre eles pode-se citar nomes como Adolfo Suárez, Margaret Tatcher, Helmut Kohl, Ronald Reagan, Vatslav Gavel. Outros, entretanto, mudaram o mundo.

Nessa categoria, o primeiro seria Vladimir Lênin, fundador do sistema comunista - um desafio para o Ocidente. O segundo foi Mikhail Gorbatchov, que derrubou esse mesmo sistema, num movimento que fechou para sempre as portas do século 20.

Os feitos de Gorbatchov entre 1985 e 1990 compõem uma longa lista. Ele reconheceu todo o absurdo da corrida armamentista e da guerra atômica e anunciou seu ideal de mundo desnuclearizado ainda em 1986, bem antes de Obama. Gorbatchov viabilizou a realização do diálogo entre a URSS e os EUA sobre temas como o desarmamento atômico. As negociações culminaram na assinatura, em 1987, do tratado de eliminação de mísseis de médio e curto alcance. As partes conflitantes decidiram pela destruição de todo tipo de armamentos nucleares, cuja simples existência já era motivo para desencadeamento de uma guerra nuclear. Depois, seguiram-se as negociações sobre a redução de armamentos estratégicos, de armamentos em geral, proibição de armas químicas, bacteriológicas e biológicas.

O diálogo de Gorbatchov e Reagan não era uma simples consequência do reconhecimento, por parte de Moscou, da impossibilidade de concorrer com Estados Unidos na corrida nuclear. Se outro líder soviético estivesse no poder, o perigoso jogo com os norte-americanos poderia ter continuado por muito tempo, mas Gorbatchov tomou a iniciativa pessoal de romper com o paradigma da sobrevivência às custas da ameaça nuclear.

Outra ruptura de Gorbatchov com a tradição foi a garantia de que cada povo tem o direito à livre escolha. Gorbatchov decidiu libertar o Leste Europeu do abraço soviético. Quando as chamadas “revoluções de veludo” irromperam na Alemanha Oriental, na Tchecoslováquia, Hungria e Polônia, os dirigentes daqueles países telefonavam para o Kremlin clamando por apoio. Gorbatchov disse um firme “não!” para eles.

As forças armadas soviéticas ainda estavam presentes naquelas regiões, mas Gorbatchev não queria repetir a Primavera de Praga. Não queria o derramamento de sangue. A reunificação do território alemão e o retorno dos países-satélites da URSS para a Europa foi, em grande parte, possibilitada por esse estadista russo. 

Gorbatchov enterrou o sistema comunista internacional. Foi assim que terminou a Guerra Fria e a confrontação de dois sistemas opostos que concorriam pela liderança global.

Recusando o monopólio do Partido Comunista e possibilitando a manifestação de opiniões mais diversas, Gorbatchov acelerou o processo de desmantelamento da União Soviética. Na verdade ele tinha esperanças de manter a união, criando uma comunidade de países aliados. No entanto, o processo de distanciamento das repúblicas de Moscou foi tão brusco que a desintegração já não podia ser freada. Gorbatchov perdeu o Estado e, provavelmente sem esperar, se transformou em um grande reformador. Seu nome, entretanto, ainda provoca sentimentos bastante contraditórios na Rússia. Alguns o admiram (uma minoria, entretanto, até então), outros criticam. A sociedade russa tenta, com muito sofrimento, encontrar-se para uma nova vida. Muitos continuam a culpar Gorbatchov por ter destruído o antigo sistema.

Gorbatchov é uma personalidade dramática. Ele começou uma grande reforma, que não conseguiu levar a cabo. Infelizmente nenhum reformador político na história conseguiu desempenhar o papel de destruidor e de edificador do sistema ao mesmo tempo. Os reformadores sacrificam a própria popularidade quando começam promover uma grande mudança. Além disso, poucas sociedades reconheceram seus reformadores em vida. O reconhecimento desses grandes políticos chega quando eles se vão para a eternidade.

A dramaticidade de Gorbatchov consiste no fato de a onda por ele causada tê-lo tirado da cena política russa. Ele teve de suportar a solidão e o isolamento. Muitos daqueles que foram lançados na crista da onda provocada por Gorbatchov não o perdoaram pelas dimensões de seu pensamento sobre a liberdade, inclusive a liberdade de desprendimento do poder. Durante muitos anos, políticos que subiram ao poder graças a ele faziam de tudo para atingi-lo do modo mais mesquinho.  

Além disso, Gorbatchov sofreu um drama pessoal ao perder sua esposa e amiga Raissa. Essa tragédia tão humana serviu, no entanto, como impulso para a reaproximação de Gorbatchov da Rússia. Através da compreensão do sofrimento do homem Gorbatchov, os russos começaram a entender o significado do Gorbatchov político.

Gorbatchov foi o primeiro governante na história da Rússia a deixar o Kremlin sem se agarrar ao poder. Mas a iniciativa de saída voluntária do Kremlin não foi uma moda que pegou. Iéltsin retomou a prática de permanecer até o fim, ou, ao menos, deixar um sucessor. 

Agora, Gorbatchov está passando por uma nova prova. Tão vivo e encantador, tornou-se um monumento vivo. Gorbatchov se tornou história. Como dizia Thomas Carlyle, a história é a biografia de grandes homens. Ao garantir para si um lugar na eternidade, Gorbatchov continua sendo um ser humano fantástico. Ser homem e representante da história ao mesmo tempo e, ainda, manter a simplicidade e o sentimento de ironia para consigo próprio - e como Gorbachev brinca! Como canta! – não é fácil. Somente uma pessoa de personalidade extraordinária consegue isso.

Perfil

GORBATCHOV, Mikhail Serguêievitch

Ex-secretário-geral e primeiro e último presidente da União Soviética

Mikhail Gorbatchov nasceu no dia 2 de março de 1931 no vilarejo de Privólnoie, no território de Stavropol. Introduziu as reformas Glasnost e Perestroika em meados dos anos 80, bem como acompanhou a melhora significativa nas relações entre a Rússia e os Estados Unidos. Gorbachev foi o sétimo e último secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética (PCUS)

Primeiros anos de carreira

Foi indicado secretário da agricultura do Comitê Central em 1978 e se tornou membro do Politburo em 1980, no qual permaneceria até 1991. A sua ascensão se deve, em parte, ao apoio do influente ideólogo Mikhail Suslov.

Como Secretário Geral do Comitê Central do PCUS de 1982 a 1984, Gorbatchov foi um membro proeminente do Politburo, ajudando a trazer uma nova geração de políticos ao patamar mais alto do governo. De 1984 a 1985, atuou como presidente do Comitê de Assuntos Estrangeiros da União Soviética.

Em marco de 1985, Gorbatchov se tornou secretário geral, o primeiro líder da União Soviética nascido após a Revolução de Outubro. Em 15 de março de 1990 tornou-se  presidente da União Soviética. Ele ocuparia esse cargo até o dia 24 de agosto de 1991. Introduziu diversas reformas (perestroika), que mudariam radicalmente o tecido socioeconômico da União Soviética.

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