O cronista russo do século 20

Autor, publicado pela primeira vez em 1961, superou o câncer e as arbitrariedades do regime soviético até ter a acusação de traidor revogada e poder voltar à Rússia/Foto: RG

Autor, publicado pela primeira vez em 1961, superou o câncer e as arbitrariedades do regime soviético até ter a acusação de traidor revogada e poder voltar à Rússia/Foto: RG

Nem as condenações ou a censura foram suficientes para impedir que o autor ganhasse o Nobel de Literatura em 1970.

Corria o ano de 1961 quando um original impresso em folha dupla chegou à redação da revista Nôvi Mir. O texto não tinha margens ou espaços entre linhas e estava intitulado “Щ-854” (Щ, que pronuncia-se “scha”, é a  27ª letra do alfabeto russo).

A redatora da seção de prosa, Anna Berzer, entregou o exemplar imediatamente ao chefe de redação, Aleksandr Tvardóvski, e ressaltou que o texto era “sobre o campo de trabalho forçado sob o ponto de vista de um camponês, uma coisa do povo”.

Tvardóvski lembra que naquela noite deitou e folheou o original. Depois de duas ou três páginas, concluiu que o manuscrito não deveria ser lido na cama. Levantou-se,  vestiu-se e, enquanto sua família dormia, devorou durante toda a noite o romance, entre goles de chá. Leu e releu aquela obra até que o dia amanheceu sem que ele tivesse dormido.

No dia seguinte, mandou que procurassem o autor e descobriu que o texto fora escrito por um professor de colégio, que ensinava física e astronomia, e que já havia dado aulas de matemática em uma escola da zona rural, perto da cidade russa de Vladímir, no oeste do país. A figura por trás do grande texto era Aleksandr Soljenítsin (1918-2008).

O autor

Soljenítsin nasceu e passou a juventude na cidade de Rostov, onde se formou em Física e Matemática e cursou, por correspondência, a Faculdade de Literatura do Instituto de História, Filosofia e Literatura de Moscou.

Quando foi à capital russa para prestar as provas da instituição, viu eclodir a Segunda Guerra Mundial. Logo se tornou soldado. Em 1942 virou tenente e comandou uma bateria da artilharia. Depois, já capitão, permaneceu à frente dos combates  até 1945, quando foi preso na Prússia Oriental, apenas algumas semanas antes do conflito acabar. O motivo da prisão foi uma carta trocada com um amigo e interceptada pela censura. Na correspondência, os jovens oficiais chamavam Stálin de “padrinho”, uma referência à máfia e à figura cruel e bruta do líder russo.

Aos 26 anos, Soljenítsin foi condenado a oito anos em campo de trabalho forçado, seguidos de exílio interno perpétuo.

Primeiros livros

Durante o tempo em que passou no campo,  Soljenítsin escreveu sobre a juventude antes da guerra, as experiências do conflito, os contos dos colegas de regimento e o cotidiano cruel das  prisões. Certa vez, ao ser perguntado sobre como se tornou  escritor, disse: “A coisa aconteceu bem no fundo do meu ser, nos campos de trabalhos forçados”.

Parte da pena ele cumpriu nas “charachka”, institutos de pesquisas patrocinados pelo governo e que usavam o trabalho de cientistas e intelectuais presos para desenvolver equipamentos de rádio e de telecomunicações. Dessa experiência saiu o romance “O Primeiro Círculo”.

Soljenitsin sentiu na pele os abusos dos gulags e se tornou a voz de um povo oprimido


 

Um ano antes de ser libertado, descobriu que tinha um tumor e foi operado no hospital do campo de trabalhos forçados. O câncer, no entanto, já tinha se espalhado. Soljenítsin conseguiu autorização para que fosse levado a uma clínica do Uzbequistão, onde chegou em estado gravíssimo, e ali recuperou-se. A proximidade da morte e a cura foram traduzidas na obra “O Pavilhão dos Cancerosos”.

No final da década de 1960, com o fim do regime de Nikita Khrushchev, o governo soviético endureceu e os exemplares de “Um dia na vida de Ivan Denísovitch”, escrito por Soljenítsin em 1962, foram retirados das bibliotecas. Em 1974, a censura passou a valer para todos os seus livros.

Àquela altura,  no entanto, os romances já haviam sido lidos por milhões de russos e traduzidos e publicados em dezenas de países europeus e asiáticos. “Cartas, centenas delas. Novos pacotes continuam chegando da Nôvi Mir  todos os dias. Uma explosão de cartas de toda a Rússia”, surpreendia-se o escritor dissidente.

Assim, Soljenítsin tornou-se o cronista e o confidente da tragédia popular russa. “E que contemplação elevada das vidas dos presos tenho. Uma perspectiva nunca antes alcançada. Biografias, casos, eventos, tudo isso as pessoas enviam para mim”, revelou.

A grande obra

Não foi uma tarefa fácil trabalhar sobre esse material extenso, espontâneo e desorganizado. O escritor nunca guardou as cartas recebidas em um único lugar.

As principais partes da obra- prima “Arquipélago Gulag” também precisaram ser escritas em um local secreto, que só foi revelado 25 anos depois. Soljenítsin trabalhou por dois invernos seguidos, entre 1965 e 1967, naquele que se tornaria o mais influente livro sobre os campos de trabalho forçado (os gulags) da era Stálin.

Nos primeiros anos de 1970, o escritor franco-russo Sasha Andreie, acompanhado de uma delegação da Unesco, articulou um esquema para tirar o livro da Rússia. Foram dias de tensão. Se a obra fosse descoberta na fronteira seria o fim para o livro, para o autor e para o portador.

O manuscrito chegou ao exterior com sucesso e Soljenítsin comemorou: “Liberdade! Leveza! Todo o mundo pode ser abarcado! Eu estou enclausurado? Eu sou um escritor intimidado? Não! Meus caminhos são livres e por todos os lugares!”

Nobel

Em 1970, Soljenítsin recebeu o Prêmio Nobel de Literatura “pela força moral com a qual deu continuidade à secular tradição da literatura russa”. “O prêmio caiu como um feliz balde d’água sobre a cabeça!”, festejava. Era algo  contraditório. Comemorar o quê, se há cinco anos seu nome estava proibido de ser mencionado, seu arquivo pessoal fora confiscado, suas obras não podiam ser publicadas na União Soviética e outros textos estavam fadados a um intransponível enclausuramento? Somente o samizdat – a prática de cópias e transcrições caseiras clandestinas de livros proibidos – absorvia a obra de Soljenítsin.

O escritor temia ser barrado na volta da viagem a Estocolmo, na Suécia, para a cerimônia de premiação. As autoridades até desejavam desesperadamente livrar-se dele, mas não tiveram a coragem de destruir o autor aos olhos de um mundo que lia o Arquipélago.

Em 1974, no entanto, Soljenítsin foi acusado de “traição à pátria” e preso, além de ter a cidadania revogada e ser extraditado.

Novos tempos

Passados 16 anos, muito mudou. “Arquipélago Gulag” foi  publicado na Rússia, a acusação de traição foi revogada e Soljenítsin retornou ao país. Muitos documentos secretos do regime soviético foram abertos ao público, revelando a verdade do período, e a obra continua atual.

Elizabeth Applebaum, autora de um livro sobre a história dos gulags e ganhadora do Prêmio Pulitzer, ressalta: “Passados 15 anos desde a queda da URSS é impressionante constatar, quando relemos ‘Arquipélago Gulag’, quão poucas inconsistências tem o livro. Isso tudo considerando que o autor não tinha acesso aos arquivos nem aos documentos oficiais. É graças à veracidade que a obra  não perdeu sua atualidade e a sua importância”.


Arquipélago Gulag para para principiantes

Entrevista a Tatiana Shebáieva e Maria Agranovitch

 

Aleksandr Issáevitch Soljenítsin (1918–2008) foi um dos maiores escritores e ativistas da Rússia no século 20. Sua obra-prima, “Arquipélago Gulag”, foi escrita sob constante ameaça de prisão, viajando pela então União Soviética e conversando com sobreviventes dos campos de trabalho forçado. No Brasil, uma versão resumida da obra foi publicada nos anos 1970 por duas editoras diferentes – a Difel e o Círculo do Livro. Depois disso, poucos livros do autor saíram no país. Na Rússia, a obra completa, em três volumes, teve sua publicação tardia apenas na década de 1990. Para torná-lo mais acessível, a viúva do escritor, Natália Soljenítsina, compilou uma versão resumida da obra, publicada em outubro e incluída na lista de literatura russa do século 20, obrigatória nas escolas secundárias do país.

Você reduziu  o livro a quase um quinto do tamanho original. O que ficou de fora?


Acho que mantive todas as linhas narrativas, apesar de sacrificar grande quantidade de detalhes. Eliminei partes que descrevem o curso das repressões da década de 1930 e foi necessário sacrificar muitos episódios, mas tentei escolher histórias de vida que permitem ver um panorama. Acho que consegui manter a linha narrativa e não enxugar demais o romance.

Qual a lição mais importante para os estudantes que irão ler o livro?


Arquipélago Gulag não é um romance didático, não é um sermão. Mas tenho a impressão de que, após sua leitura, todos podem entender quão horríveis são as décadas de atraso com que as injustiças e maldades em nosso país são descobertas e discutidas.

É verdade que Soljenítsin lia capítulos de Arquipélago para os filhos dormirem?


Claro que não! Isso é mais uma das lendas sobre a vida de Aleksandr Issáevitch. Nunca lemos Arquipélago para nossos filhos, nem de dia, nem de noite. Quando cresceram, cada qual leu os livros do pai a seu modo. Ignat, por exemplo, conheceu o Arquipélago bem cedo, aos 11 anos. Sei que já releu o livro diversas vezes.

Fazendo a nova versão, você se sentiu mais como autora ou editora literária?


O trabalho não foi uma edição, mas uma alteração do texto. Um trabalho feliz e amargo ao mesmo tempo, pois dava pena cortar todas as linhas. Imagine um quadro à óleo que você tem de reproduzir com meios mais econômicos. Senti-me como uma aprendiz de pintor que carregasse a tarefa de reproduzir um grande quadro à óleo usando somente um pedaço de carvão.

Por que a versão resumida demorou tanto a ser publicada na Rússia, apesar de já haver edições semelhantes nos EUA?


Há 25 anos, Aleksandr Issáevitch aceitou, relutantemente, editar uma versão resumida de Arquipélago para estudantes norte-americanos. Naquela época, talvez com certa arrogância, imaginávamos que os americanos teriam dificuldade de aguentar os três volumes da obra. Tínhamos certeza de que um resumo não seria necessário na Rússia quando o país fosse livre e o livro fosse publicado. Passaram-se 20 anos e Gulag foi publicado. Mas a vida mudou tanto que as pessoas não têm tempo. Ficou claro aqui, do mesmo jeito, que não só crianças, mas muitos adultos também, não conseguem ler todo o Arquipélago.

Se uma versão resumida foi  feita pelo próprio Soljenítsin, por que não a usaram?


Esperava poder fazê-lo, mas, quando comecei a trabalhar, já no primeiro capítulo, tive certeza de que essa abordagem não seria possível. O cenário é outro. Algumas partes foram suprimidas da versão norte-americana por não precisarem de comentários extensos, desnecessários para nossas crianças, onde uma memória coletiva permite entender certas passagens. Ao contrário, algo que seria especialmente interessante para os estrangeiros podia ser suprimido sem muitos problemas em uma versão para os russos. Assim, tive de refazer todo o trabalho.

A nova edição apresenta uma fotografia inédita do autor, na qual Soljenítsin, vestindo uma telogreika (o uniforme de inverno do Exército Vermelho) com numeração de preso, é revistado em um posto de controle. Qual é a história da foto?

Ela foi tirada nos primeiros dias do exílio interno, já depois de ter cumprido pena no campo de trabalhos forçados. Os números são verdadeiros, temos até hoje e guardamos como tesouro. Aleksandr Issáevitch os trouxe do campo de trabalhos forçados, costurados dentro do uniforme. Seus companheiros de prisão fizeram o mesmo. Chegando ao destino, ainda nos primeiros dias, eles costuraram aqueles números nas roupas novamente, do jeito que andavam quando presos, e tiraram fotografias um do outro. O dono da câmera era Nikolai Ivánovitch Zubov. Ele e sua esposa, também exilados internos, viraram grandes amigos de Aleksandr Issáevitch, apesar de ele ser bem mais novo. O casal Zubov é descrito com muito amor no Arquipélago, também retratado sob o nome Kádmin na novela O Pavilhão dos Cancerosos.

O material final recebeu muitos comentários?


Todos sentiam falta de algo que foi suprimido e cada qual tentou me convencer a reavaliar alguma parte específica. Eu ouvia com muita atenção todos os comentários e, quando possível, incluía algo de volta ao texto – cortando outras partes, para não aumentar o volume geral. Terminei por  elaborar um pequeno dicionário dos nomes mais importantes, o que não existia no Arquipélago original.

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