Iéltsin acreditou no povo russo

O ano de 2011 marca o vigésimo aniversário do fim da União Soviética e do Estado leninista. É importante, contudo, começar nossas memórias evidenciando o que seria o 80º aniversário de Boris Nikoláievitch Iéltsin, o personagem principal daquele momento em 1991, e que  morreu em 2007.

Felizmente o colapso da União Soviética foi presidido por dois homens de inteligência e ponderação. Apesar de todas as críticas severas que receberam no próprio país, Boris Iéltsin e Mikhail Gorbatchov serão lembrados no longo curso da história como líderes positivos, porém limitados.

Gorbatchov reconheceu a inutilidade da Guerra Fria e deu um fim a ela com o objetivo de revigorar o sistema soviético – iniciativa que acabou falhando. Iéltsin reconheceu o fracasso do sistema soviético e tentou ajudar a exterminá-lo para que as nações do Ocidente aceitassem a Rússia como uma delas – o que também não saiu como esperado. Embora forças maiores tenham determinado os resultados da Guerra Fria e da União Soviética, grandes talentos políticos locais foram necessários para que fosse mantida uma transição de regime pacífica.

Devido a sua experiência como chefe do partido comunista em Sverdlovsk, Iéltsin entendeu o sistema soviético por dentro como poucos. No entanto, como muitos de seus colegas, somente depois de descobrir o mundo real, no exterior, ele percebeu o fracasso que seu país tinha se tornado. Com seu carisma, impetuosidade e sorte, ele triunfou, primeiro em Moscou e depois como líder da Federação Russa. Iéltsin foi extremamente feliz na escolha do momento e dos personagens que frustraram o golpe de agosto de 1991.

Ele sempre tomou as crises como fontes de inspiração, mas faltava-lhe acompanhamento e vigor para materializar as reformas necessárias. Mesmo após ter seu mandato renovado no referendo de abril de 1993, Iéltsin não conseguiu promover uma reforma institucional. Em setembro do mesmo ano, recorreu a métodos ilegais para dissolver o legislativo, gerando um conflito que o levou a uma vitória violenta, mas também acarretou prejuízos irreparáveis, no dia 4 de outubro daquele ano. O episódio representou um terrível retrocesso para o estado de direito em um país que necessitava de segurança jurídica. Aquele Iéltsin tinha perdido a noção das necessidades econômicas, e o medo da população russa ficou explícito nas eleições de dezembro de 1993, quando seu partido foi derrotado. Embora tenha aceitado o resultado eleitoral, nunca aprendeu a trabalhar com um parlamento indisciplinado.

Todo grande líder erra, mas Iéltsin cometeu duas falhas graves que comprometeriam seu registro na história.

Em 1994, a Rússia enfrentava um verdadeiro problema de ordem pública no Cáucaso do Norte, porém declarar guerra contra o povo tchetcheno foi um grave erro de julgamento e falta de humanidade, que cheirava a resquícios de governo soviético.  A guerra na Tchetchênia se tornou o instrumento perfeito para difundir a russofobia na Europa e na América – era de fabricação russa.

Seu segundo erro se deu quando concorreu ao segundo mandato presidencial. Infelizmente, Iéltsin foi facilmente convencido, por meio de uma mensagem comunicada com urgência diretamente de Washington, de que somente ele poderia impedir que os comunistas retornassem ao poder. Havia diversas opções de governantes além de Iéltsin. Nenhum deles era ideal e a maioria era pouco conhecida no Ocidente, mas qualquer um deles poderia ter vencido e feito um trabalho melhor que o dele. Os anos seguintes no seu gabinete se alternaram entre o fracasso e a farsa.

Considerando sua trajetória confusa, por que alguém deveria olhar para trás com respeito para o governo de Boris Iéltsin? Acima de tudo, porque ele representou a antítese de um Slobodan Milosevic – o sanguinário presidente da ex-Ioguslávia. Nós todos fomos beneficiados pela atuação de Iéltsin durante os meses críticos de 1991-92. Além disso, devemos lembrar Iéltsin pela visão que tinha mas nunca conseguiu praticar. Até certo ponto, ele foi um líder russo que não teve medo da população. Acreditava que se o povo russo tivesse mais poder político e econômico, tudo correria bem. Só não fazia ideia de como alcançar isso.

Ele não queria mobilizar, doutrinar, disciplinar ou controlar a população, mas capacitá-la. Fracassou. Iéltsin não pôde realizar essa visão em parte porque a tarefa era imensa e em parte porque poucos indivíduos das supostas forças democráticas russas compartilhavam dela.

É absolutamente verdadeiro que toda carreira política acaba em fracasso. A de Iéltsin foi assim. Mas quanto tempo será necessário para que a Rússia gere novamente um líder nacional que acredite que a seu povo deve ser dado poder no lugar de doutrinas?

Wayne Merry foi redator de política da Embaixada dos Estados Unidos em Moscou entre 1991 e  1994.

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