Um novo começo para OTAN e Rússia?

No dia 20 de novembro, a Rússia e a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) colocaram um ponto final em duas décadas de conflito, desde o término da Guerra Fria, e declararam uma nova era de “parceria estratégica”.

O novo modelo de relação foi lançado sem grandes declarações conjuntas, gerando certa decepção. A declaração, feita na reunião de cúpula da OTAN em Lisboa, está voltada para a cooperação pragmática em questões de interesse comum. Tais áreas de cooperação nasceram não por “conveniência política”, mas como frutos da avaliação de ameaças realizada em conjunto no ano passado. 

Mas não se pode esquecer do contexto. A OTAN e a Rússia partilham mais preocupações em relação à segurança hoje do que em qualquer outro momento desde a Guerra Fria, em virtude da instabilidade no Afeganistão e região, da proliferação de armas de destruição em massa e das redes terroristas e do crime organizado.

No rescaldo da crise financeira global, tanto a OTAN quanto a Rússia têm menos recursos para investir em políticas de defesa e segurança, e poderiam se beneficiar significativamente da melhor relação custo-benefício de uma abordagem cooperativa a ameaças comuns. Atualmente, os países pertencentes à OTAN e a Rússia possuem o mesmo senso de vulnerabilidade em relação a variações de equilíbrio do poder global.

O crescente conflito no Afeganistão também exerce importante papel. A Rússia e a OTAN dividem preocupações em relação aos desdobramentros presentes e futuros na região, particularmente no que se refere a preparar uma saída estratégica para a Força Internacional de Assistência para Segurança (FIAS). A Rússia tem treinado e equipado tanto o exército quanto a polícia afegã.

Os céticos vão lembrar que tentativas anteriores não vingaram. Nos anos 90, a Ata de Fundação de Cooperação entre a Rússia e a OTAN foi interrompida pela guerra no Kosovo. E, após a declaração da cúpula de Roma e a criação do Conselho OTAN-Rússia, houve a guerra com a Geórgia, em 2008.

Atualmente, porém, os dois lados estão mais inclinados a buscar a aproximação. A cúpula de Lisboa lançou a cooperação russa com a OTAN no que se refere à defesa antimíssil europeia, complementando o distante diálogo com os Estados Unidos. E a Rússia tem muito mais a contribuir: possui tecnologia e recursos para desenvolver seu próprio sistema, o qual, se compatível à versão americana e à da OTAN, poderia oferecer o componente para defesa do Leste Europeu e da Ásia Central. Essa integração proporcionaria tal aumento na interdependência entre a Rússia e a OTAN que eliminaria qualquer chance de um futuro confronto entre ambos.

Entretanto, essa visão do futuro ainda parece distante. Os que estiveram presentes na conferência disseram que o presidente Barack Obama e outros líderes políticos rejeitaram diplomaticamente a proposta do presidente Dmítri Medvedev de unir o sistema russo ao escudo antimíssil que está sendo construído pelos 28 líderes do grupo internacional.

O encontro também ficou devendo em outras áreas. Não houve iniciativa de mudanças no Conselho OTAN-Rússia ou no Conselho Estratégico da OTAN com o intuito de melhorar o diálogo e firmar um compromisso explícito entre as partes.

Entretanto, um motivo para manter o otimismo é a contínua transformação da Rússia, que está mais pronta do que nunca para se aproximar da OTAN. O presidente Medvedev anunciou uma estratégia de modernização abrangente, que exige um ambiente externo favorável, bem como laços econômicos mais fortes com os países desenvolvidos do Ocidente. A Rússia embarcou numa profunda reforma de suas forças armadas, que pode torná-la ainda mais parecida com os integrantes da OTAN.

A maioria dos russos não vê mais a OTAN como uma ameaça. Enquanto a recente doutrina militar da Rússia lista o potencial crescimento da OTAN como o maior perigo para a segurança da nação, a maioria dos russos acredita que isso não ocorrerá em um futuro próximo – uma constatação comum àquela encontrada no seio da própria organização internacional.

Oksana Antonenko é integrante sênior do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos

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