Tradições, calendários e feliz ano novo

Cristãos ortodoxos celebram Natal no dia 7 de janeiro e “velho Ano Novo”, no dia 13/Foto: RIA Novosti

Cristãos ortodoxos celebram Natal no dia 7 de janeiro e “velho Ano Novo”, no dia 13/Foto: RIA Novosti

O Natal em nossa família norte-americano-russa é uma maratona.

“Isso é uma árvore de Natal ou uma árvore de Ano Novo?”, pergunta Velvet, minha filha de 5 anos, enquanto luto contra um emaranhado de luzinhas. “Os dois”, respondeu BRM, meu “Belo Marido Russo”, que estava contorcido no chão, tentando erguer a árvore pela base. “Nastia diz”, nos informa Velvet, se referindo a sua infalível amiga, “que o Papai Noel, na verdade, se chama Ded Moroz e vem só na noite de Ano Novo”.

“Diga a Nastia”, respondo com os dentes cerrados, “que em sua afortunada família o Papai Noel vem no dia 24 de dezembro e, DEPOIS, chega Ded Moroz, na véspera de Ano Novo”.

O Natal em nossa família norte-americano-russa é uma maratona. Desde que Velvet nasceu, BRM e eu trabalhamos duro para mesclar tradições russas e ocidentais em nossas celebrações familiares. O resultado é um mês de trabalho árduo, a partir de 15 de dezembro, quando meu amigo Gail nos faz comprar bilhetes para a rendição do “Messias”, de Handel, no Oratório de Moscou, até 13 de janeiro, ou “Velho Ano Novo” na Rússia, data em que estou pronta para trancar Prince Albert, Charles Dickens e Piotr Ilich Tchaikovsky numa sala sem janelas e jogar a chave fora.

Os cristãos russos são adeptos do calendário ortodoxo oriental (leia ao lado), que tem 13 dias de atraso em relação ao calendário moderno. Essa discrepância foi corrigida em 1918 pelo então jovem regime bolchevique,  mas o Natal nunca voltou a acontecer no dia 25 de dezembro, já que os bolcheviques começaram uma campanha sistemática para eliminar os feriados religiosos tradicionais e substituí-los pelos soviéticos. O Natal foi, assim, transferido para a véspera de Ano Novo.

No início, foram necessárias medidas restritivas para que não restassem resquícios dos velhos tempos: árvores de Natal, introduzidas na Rússia do século 17 pelo tsar Pedro, O Grande, foram proibidas, em 1916, por constituírem referência demasiadamente alemã. Os bolcheviques mantiveram o banimento. Stalin ainda declarou Ded Moroz, o Papai Noel russo, “um aliado dos sacerdotes e dos kulak [camada mais rica do campesinato]”, eliminando-o do país.

Mas não foi possível manter Ded Moroz longe por muito tempo. Em 1935, Pavel Postishev, o arquiteto do programa de coletivização do período stalinista, publicou uma carta no jornal Pravda pedindo que “árvores de Ano Novo” fossem erguidas em Palácios pioneiros e que Ded Moroz tivesse permissão de voltar à União Soviética na véspera de Ano Novo. Ded Moroz e as árvores foram restabelecidos em 1937. Embora o Natal e outros feriados ortodoxos tenham sido reinseridos no calendário russo em 1992, a véspera de Ano Novo continua firme na posição de feriado principal.

Ainda que o Natal em si tenha sido banido, os russos reciclaram tanto tradições pagãs quanto natalinas para a comemoração de Ano Novo. Na Rússia antiga, quando a primeira estrela aparecia no céu, imagem simbólica da estrela de Belém, as famílias se reuniam para quebrar o jejum de 40 dias com uma “Ceia Sagrada” que incluía a kutia, um mingau de cereais adoçado com mel e frutas secas. Do período pagão, o prato é encontrado em muitas mesas russas de hoje durante a celebração de Ano Novo. Na era soviética, o feriado sempre foi época de chegada de frutas tropicais raras ao país, como a tangerina, o que para BRM traz memórias das comemorações de Ano Novo de sua infância. Após a ceia, os fiéis voltavam à igreja para fazer vigília durante toda a noite.

Nos dias de hoje, os russos, reunidos em volta de mesas em frente à televisão, esperam para saudar não o redentor da humanidade, mas o presidente Dmitri Medvedev, que irá oferecer um brinde e desejar a todos saúde e felicidade para o novo ano que está chegando. Então fogos de artifício irão tomar conta do céu de todo o país enquanto as pessoas trocarão três beijos e boas vibrações: “Novo ano, nova felicidade, nova sorte!”

Por que comemorar o Natal 13 dias depois?

Datas e feriados são geralmente confusos na Rússia devido à divisão histórica entre a Igreja Ortodoxa Oriental e a Católica Romana depois das reformas feitas no calendário juliano pelo papa Gregório XII em 1582. A maior parte do mundo passou a adotar o “calendário gregoriano”, que, por meio dos anos bissextos, introduziu um cálculo mais preciso da duração do ano, não como 365,25 dias, mas com 365,2425 dias. A cada ano, uma diferença de 11 minutos. Os países ortodoxos ocidentais, contudo, acreditavam que o calendário juliano definia de modo mais preciso a entrada da primavera e a Páscoa, e se recusaram a aderir às reformas gregorianas.  Se você pensa que 11 minutos não fazem muita diferença, pense novamente: por três séculos, como os cristãos ortodoxos ficaram obstinadamente presos ao velho e menos preciso calendário introduzido por Júlio César, um atraso no tempo foi se desenvolvendo em relação àqueles que haviam adotado o novo modelo. Em 1918, quando Lenin decretou que a Rússia deveria seguir o resto do mundo, a diferença chegava a um período de 13 dias, o jet lag mais grave da história da humanidade. Mesmo hoje, a Igreja Ortodoxa Oriental ainda segue o calendário juliano, embora tenha indicado que está pronta para fazer a mudança em 2100. O Natal ortodoxo acontece 13 dias após o católico. Para os russos, quando se trata de feriados, “quanto mais, melhor”. Por isso, eles também celebram o “Velho Ano Novo” no dia 13 de janeiro, bem como o “Ano Novo” comum, e o Natal ortodoxo no dia 7 de janeiro. Para assegurar que a temporada seja animada, há dez dias de feriado nacional, do primeiro ao décimo dia do ano.

 

 

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