Protestar ficou mais fácil em Moscou

Um dos líderes da oposição, Nemtsov autografa seu livro/Foto: AP

Um dos líderes da oposição, Nemtsov autografa seu livro/Foto: AP

Governo abranda postura frente a demandas da sociedade civil e a cidade de São Petersburgo terá parada gay legal pela primeira vez.

Nos últimos dois anos, a Rússia tem visto uma crescente maré de grupos de protesto lutando por interesses específicos. Mas o processo tem se intensificado ainda mais desde o final de outubro, quando o prefeito de Moscou, Iúri Lujkov, foi afastado.

O Kremlin abrandou sua postura em relação aos protestos públicos e os ativistas políticos da Rússia esperam tirar proveito da nova liberdade. Os manifestantes variam de motoristas insatisfeitos a ambientalistas, preservacionistas e liberais desencantados.

“Não quero mais esperar por minha liberdade e direitos civis como homossexual”, afirma Nikolai Alekseiev, um dos líderes e organizadores da parada gay na Rússia.

Alekseiev, que já foi preso 11 vezes, fez a declaração logo após a audiência que sucedeu sua última detenção – devida à organização e participação de uma mobilização ilegal no centro de Moscou.   

Nova postura


O afastamento de Lujkov promoveu, contudo, uma mudança radical, e as medidas do Kremlin foram imediatamente sentidas. Apenas dois dias depois da demissão do prefeito de Moscou, a corte municipal de São Petersburgo reverteu o banimento à parada gay, que havia sido planejada para julho.“É a primeira vez na história que homossexuais podem se manifestar legalmente na Rússia”,  disse Alekseiev.

Uma semana depois, o movimento Estratégia 31, uma manifestação bimestral pelo direito de reunião – garantido pelo artigo 31 da Constituição –, recebeu permissão para realizar legalmente sua primeira demonstração oficial em Moscou.

Os líderes políticos russos parecem estar em busca de um equilíbrio entre o estímulo à sociedade civil e o receio de encorajar a oposição. Há poucos anos, um corte nos passes de ônibus para aposentados culminou em forte protesto popular. Os bilhetes e a ordem foram rapidamente restabelecidos, mas outros protestos podem não ser tão passíveis de reconciliação.

Revolução na rede


A internet russa já está tomada por discussões fervorosas. O Kremlin, que se viu obrigado a responder a algumas das campanhas veiculadas, tomou a iniciativa de iniciar ele próprio a discussão na rede em algumas ocasiões. Numa delas, inaugurou o debate sobre alterações na legislação policial.

Outrora vice-líder do governo de Boris Iéltsin e reformista durante a década de 90, o opositor Boris Nemtsov é um cético quanto ao uso da internet para protestar. Ele publicou e distribuiu de maneira independente 100 mil cópias de seu livro “O que dez anos de Putin trouxeram”. Nemtsov classifica a própria obra como “o maior projeto da oposição em dez anos”.

“Isto é um samizdat moderno”, afirma, referindo-se às públicações clandestinas da era soviética. O relatório contém críticas à corrupção e à queda demográfica no país.

Já Alekseiev afirma que a rede será uma grande força transformadora na Rússia. Apesar das opiniões divergentes sobre a internet, ambos concordam que é o Estado quem provê Moscou de um sentimento de estabilidade. Além disso, a renda média na capital é muito mais elevada do que no restante do país, e a chance de que os moscovitas se rebelem é mínima.

O aumento do número de protestos públicos, entretanto, é notável. Com a elevação do padrão de vida dos russos, faltaram reformas para melhorar os serviços públicos. Como resultado, a população, principalmente a crescente classe média, agora espera mais, e as dificuldades para sobreviver durante os anos 90 deram lugar a outras preocupações, tais como carreira, educação, moradia e aposentadoria.

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