Exilados mais bem pagos do mundo

Estrangeiros se encontram em happy hour no John Donn Pub, em Moscou, conhecido por reunir os “expats” da cidade/Foto: Anna Artemeva

Estrangeiros se encontram em happy hour no John Donn Pub, em Moscou, conhecido por reunir os “expats” da cidade/Foto: Anna Artemeva

Profissionais de alto nível são bem remunerados porque atraem investimentos estrangeiros e trazem inovações para o país.

Houve um tempo em que jovens inteligentes que chegassem a Moscou falando um russo razoável podiam escolher o emprego que quisessem. Há 15 anos, a economia local crescia mais rápido que as dos países ocidentais e estrangeiros que poderiam estar servindo café ou tirando xerox em uma firma de seu país de origem eram colocados, de uma hora para outra, para administrar grandes empresas.

Atualmente, a coisa mudou. As empresas na Rússia, locais ou estrangeiras, contratam cada vez mais gerentes russos para administrarem seus negócios e só recrutam expatriados quando eles são profissionais altamente especializados. E, nesses casos, paga-se muito bem para garantir a vinda - e a contribuição - do forasteiro. 

Um levantamento recente divulgado pelo banco HSBC revelou que os estrangeiros que vivem na Rússia são os mais ricos do mundo, sendo que 36% deles ganham mais de US$ 250 mil ao ano (cerca de R$ 36 mil por mês). 

Exemplo brasileiro 

O fisioterapeuta brasileiro Túlio Menezes, do time de futebol CSKA, é um deles.

Ele conta que começou atendendo o jogador de futebol Daniel Carvalho, no Sport Club Internacional, em janeiro de 2007. Na época, Carvalho jogava pelo time russo e veio se tratar no Brasil. Quando retornou a Moscou, decidiu levar o fisioterapeuta junto. “O clube então me pediu para trabalhar com o goleiro Igor Akinfeev, que tinha feito uma cirurgia de cruzado também”, lembra Menezes. 

Depois disso, ele montou um projeto de melhorias para o departamento médico do clube, logo aprovado, e foi contratado como funcionário da casa. “Hoje, em Moscou, o único clube que tem uma estrutura médica boa além do CSKA é o Spartak, que também tem um fisioterapeuta brasileiro”, afirma.

No entanto, qualquer oportunidade de gerenciamento júnior ou intermediário em empresas russas foi eliminada. Segundo executivos moscovitas, agora os estrangeiros só são contratados se souberem como viver na Rússia, falar a língua e se não apresentarem grandes custos de transferência.

“Não acredito na contratação de expatriados na Rússia. Antes a gente dependia de estrangeiros para entender melhor os detalhes de uma área, quer no setor de corretagem ou no de restaurantes, hoje não”, afirma o empreendedor Bernard Sucher, um dos fundadores da cadeia de restaurantes Starlight Diners e do banco de investimentos Troika Dialog.

À medida que os consumidores russos se tornaram mais sofisticados, os caçadores de talentos passaram a buscar pessoal qualificado dentro do país. Começou a aparecer um número cada vez maior de gerentes russos que já haviam trabalhado no exterior ou que serviram companhias estrangeiras operando na Rússia.

O diretor da empresa de recrutamento Acuris, Igor Klimov, explica que é muito mais fácil para um russo adquirir a confiança de empregados e empresas estrangeiras.

“Ainda são necessários estrangeiros no setor de investimentos, mas na economia real a gente quase não recebe pedidos para selecionar gerentes de outras nacionalidades”, diz. Sucher afirma ainda que a procura por russos que tenham vivido no exterior é grande porque eles, além de entenderem as exigências do mercado internacional, são bons para negociar segundo a cultura de negócios do país.

Por outro lado, é preciso pagar um alto preço para atrair esses russos de volta e, mesmo assim, eles não são suficientes para atender à demanda. Com isso, abre-se espaço para estrangeiros em áreas-chaves do mercado.

Mercado atrativo

Além disso, as firmas russas que buscam ser respeitadas nos mercados internacionais têm nas contratações de estrangeiros um motivo especial: assegurar aos investidores que a empresa não está manchada pela corrupção que assola o país.

Até 2008, companhias que quisessem levantar dinheiro com um pacote de novas ações ou com um acordo acionário precisavam de advogados treinados em inglês para falarem com banqueiros nos Estados Unidos e no Reino Unido, diz Nikita Prokofiev, sócio da empresa de recrutamento Odgers Berndtson. 

Hoje, os advogados bilíngues fazem diferença, mas a demanda mesmo é por profissionais russos com experiência internacional, observa.

Mas conforme os mercados de capital forem retomando forças, a necessidade de advogados treinados no estrangeiro tende a crescer de novo. Então, Moscou pode ser mais uma vez um local atrativo. O percurso para o topo da carreira profissional é muito mais curto na capital russa que em outros países.

“Conheço vários advogados que me disseram: em meu país eu seria só mais um dentre cem candidatos, mas aqui eu sou um astro”, diz Prokofiev.

Outra área em que profissionais estrangeiros podem exigir bons salários e obter vantagens atraentes é a de gerenciamento de projetos no setor de softwares.

A Rússia tem uma abundância de programadores de software altamente treinados, mas faltam gerentes de projetos e negócios com mais de dez anos de experiência.

“Um russo nessa área pode escolher à vontade onde quer trabalhar”, afirma a presidente da EDventure Holdings Esther Dyson. 

Mas para que os estrangeiros tenham realmente espaço na Rússia, afirma Igor Klimov, da Acuris, é preciso que as companhias do país invistam e se expandam no exterior.

Até agora Moscou não deu espaço para profissionais que estejam dispostos a arriscar e deixar de lado os atrativos oferecidos por Londres, Nova York e até mesmo São Paulo.

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