Mudanças na política externa

Diplomatas em busca de prioridades

Fedor Lukianov, Gazeta Russa

 

É indiscutível que a Rússia necessita urgentemente acelerar uma política exterior pragmática e se modernizar, depois de ter exaurido seus recursos em tecnologia, infraestrutura e educação da era soviética. Mas ainda não ficou claro o que existe por trás das alianças de modernização apregoadas pelo presidente russo Dmitry Medvedev. 

Em encontro com diplomatas, no mês passado, Medvedev deixou claro que a política externa russa deve servir a propósitos domésticos. No entanto, garantir alianças de modernização não significa, necessariamente, mudar a política exterior do país. 

Os esforços hoje em dia são para recompor as relações com os Estados Unidos e para expandir a cooperação com a União Europeia, com o objetivo de atrair tecnologia pioneira e investimentos. E, para atrair capital estrangeiro, o ambiente de investimento e o domínio da lei são muito mais importantes do que as questões de política exterior. Nesses áreas, os diplomatas não têm influência. 

As relações internacionais do país deveriam focar em criar condições favoráveis ao desenvolvimento nacional, garantir relações normais com países vizinhos e outros parceiros e evitar conflitos desnecessários. No entanto, a paz e a segurança dominam qualquer agenda e, para os diplomatas russos, isso é mais importante que a modernização que Medvedev está constantemente promovendo.

As tentativas do governo de conduzir políticas econômica e militar sensatas frequentemente encontraram resistência (ou a passividade) dos países vizinhos. E as declarações dos líderes russos ajudam pouco na hora de decidir qual é a prioridade maior: integração global e ingresso na Organização Mundial do Comércio ou cooperação regional, com a promoção da União Aduaneira. Ambos cenários têm seus pontos fortes, mas são incompatíveis, portanto a Rússia terá de fazer uma escolha. 

Para a maioria dos analistas, o discurso do presidente revela uma inclinação para o Ocidente - no entanto, dentro de uma cooperação seletiva, nas áreas em que Moscou está interessada, e não de integração total. A Rússia é uma grande potência, o que faz com que seus interesses, inevitavelmente, entrem em choque com os de parceiros globais. 

O desenvolvimento doméstico pode ser vinculado à política exterior, mas existe o perigo de que a parceria econômica com países ocidentais substitua a democratização do Estado e da sociedade, enquanto o desejo de fortalecer a “aliança de modernização” venha a restringir as oportunidades da política exterior.

Segundo Medvedev, hoje a tendência óbvia é a harmonização das relações, o diálogo e a redução das tendência para o conflito. Mas, diante de instituições globais que se degradam, do colapso da ordem mundial e de políticas nacionais imprevisíveis, é preciso ser um otimista exacerbado para acreditar em relações harmoniosas num pano de fundo de conflito reduzido. O pragmatismo é uma ideia em voga, mas às vezes parece que este é apenas um eufemismo para a incapacidade de Moscou de definir o papel global do país.

Fedor Lukianov é editor-chefe da revista Russia in Global Affairs

 


Olhos voltados para o ocidente

Jeffrey Mankoff, Universidade de Yale

Em um polêmico pronunciamento aos embaixadores russos no mês passado, o presidente Dmitry Medvedev deu suas últimas e mais explícitas sugestões sobre como deseja mudar o curso da política exterior da Rússia e colocou três pontos em destaque: promoção da modernização econômica, melhoria das relações ("alianças de modernização") com os Estados Unidos e os principais países europeus e, implicitamente, prioridade às relações com o Ocidente – e a Ásia Oriental – em detrimento das relações com os vizinhos pós-soviéticos.

Desde que assumiu o poder, em meados de 2008, Medvedev bate na tecla da modernização tanto no plano doméstico quanto em relação ao exterior. A visão de modernização do presidente é impelida principalmente por um desejo de fortalecer a posição internacional da Rússia e garantir que ela acompanhe outros importantes países em desenvolvimento, como a China e a Índia, que continuaram a crescer rapidamente no cenário pós-crise, enquanto a Rússia ainda vem lutando para se recuperar.

A modernização da economia não só trará aos russos um melhor padrão de vida, como também reforçará o país como uma grande potência num mundo em que as cifras do Produto Interno Bruto significam mais do que o número de ogivas nucleares, em termos de influência internacional.

A Rússia precisa manter melhores relações com o Ocidente, principalmente porque ela quer que a tecnologia e os investimentos ocidentais impulsionem sua campanha de modernização. O objetivo da parceria econômica é ganhar acesso ao capital, à tecnologia e ao know-how estrangeiros.

Vale ressaltar, no entanto, que pouco na nova política exterior de Medvedev é especialmente revolucionário. O presidente não está abandonando a política externa tradicional de grande potência da Rússia, mas sim adaptando-a para lidar com as realidades pós-guerra da Geórgia e pós-crise. 

Mesmo quando o olhar de Moscou se volta para a reforma da economia, ele não abandona suas ambições de grande potência e, embora a modernização precise de melhores relações com os países ocidentais, a Rússia não busca a integração com instituições ocidentais como a Otan ou a União Europeia.

E priorizar as relações com o Ocidente, em detrimento de seus vizinhos pós-soviéticos, é mais um reconhecimento de que a Rússia agora tem quase tudo o que quer do que uma decisão de abandonar sua reivindicação de “interesses privilegiados” na região.

O novo curso apresenta uma oportunidade para que os Estados Unidos e seus aliados desenvolvam uma relação mais cooperativa com a Rússia. Alianças de modernização são uma ferramenta útil para promover a reconciliação mutuamente benéficas, já que a Rússia é um mercado potencialmente imenso para as empresas de tecnologia ocidentais.  

O Ocidente deveria atender o apelo de Medvedev para alianças de modernização. De braços abertos – e olhos abertos.

Jeffrey Mankoff é diretor associado de Estudos de Segurança Internacional na Universidade de Yale.

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