Geógrafos dos Urais renovam debate sobre fronteira Europa-Ásia

O ponto escolhido já tinha sido designado como uma fronteira natural, em 1829, pelo geógrafo alemão Humboldt e pelo mineralogista Gustav Rose Foto: Lori / Legion Media

O ponto escolhido já tinha sido designado como uma fronteira natural, em 1829, pelo geógrafo alemão Humboldt e pelo mineralogista Gustav Rose Foto: Lori / Legion Media

A questão sobre a fronteira entre a Europa e a Ásia é uma das mais controversas em geografia. Agora, o debate ganha força com novos estudos de pesquisadores de Iekaterinburgo, na Rússia central, para definir onde se localiza a fronteira exata entre os dois continentes - cujos resultados destoam da versão oficial atual.

Pesquisadores russos estão fomentando a polêmica acerca da fronteira entre Europa e Ásia. Para eles, o limite não deveria ser demarcado por uma linha, mas por uma faixa de terras nos arredores das cidades de Iekaterimburgo, Revda e Pervouralsk, cerca de 1.600 km a leste de Moscou.

Realizado por pesquisadores da Sociedade de Naturalistas dos Urais em colaboração com a Sociedade Geográfica Russa, o estudo contou com equipamentos GPS ultramodernos, por meio dos quais as equipes de geógrafos realizam mais de 100.000 medições no terreno. Os resultados revelaram uma verdadeira faixa de fronteira que não coincide com a versão oficial atual, proposta pela administração de Iekaterinburgo.

“Ter, ao mesmo tempo, as duas pernas em dois continentes distintos só é possível no topo do monte Ural. A linha de 17 quilômetros em que se localiza a estela é realmente um marco divisório. Não entre os rios Chusovaya e Iset, mas entre dois afluentes do Iset que, pelos dados atuais, pertecem à parte asiática. A zona fronteiriça é muito mais complicada do que parece, possui um formato senoidal ao longo da margem direita do Chusovaia e termina 10 quilômetros mais ao Oeste do que se sabe”, disse à Gazeta Russa o presidente da Sociedade de Naturalistas dos Urais, Guennádi Porozov.

A base do estudo foi o “Princípio Tatischévski da divisão de águas”, sobre os limites fronteiriços nos Urais entre a Europa e Ásia ao longo da bacia hidrográfica dos rios Chusovaya e Iset. A teoria foi proposta na primeira metade do século 18 por um dos fundadores da cidade de Iekaterinburgo, o geógrafo russo Vassíli Tatischev.

“Não estamos reivindicando a transferência dos pontos turísticos, mas apenas a determinação correta dos limites geográficos”, disse à Gazeta Russa o geógrafo Evguêni Artiukh, membro da Sociedade Geográfica Russa.

No futuro, os pesquisadores planejam preparar um modelo tridimensional do terreno, mergulhá-lo em uma bacia de água e, por meio de um mecanismo de elevação do solo, comprovar os limites das bacias hidrográficas.

Ao final do estudo, os geógrafos da Sociedade de Naturalistas dos Urais e da Sociedade Geográfica Russa propuseram um mapa baseado em quatro mapas de referência: topográfico, hidrogeológico, cadastral e fisiográfico.

No mapa final não há uma marcação precisa da fronteira entre os dois continenentes. A proposta é que se considere a fronteira europeia o rio Iset e a asiática o rio Chusovaia, formando uma faixa de fronteira no espaço de córregos e afluentes entre eles.

Há uma fronteira?

As fronteiras oficiais entre Europa e Ásia mudaram ao longo da história. Desde tempos remotos, pesquisadores tentaram traçar marcos limítrofes: o rio Don, a Sibéria ou o Extremo Oriente. Até hoje não há consenso entre os geógrafos sobre a delineação das fronteira.

Acredita-se, no entanto, que a fronteira entre os dois continentes passa pela Rússia com uma extensão de 5.524 km, dos quais cerca de 2.000 km estariam localizados nos Montes Urais.

As principais cidades que formam o contorno desta linha são as russas Orenburgo, Orsk, Magnitogorsk e Zlatoust, além da capital turca, Anacara. Além disso, a faixa inclui outras cidades, como Pervouralsk, Iekaterinburgo, Reva e Degtiarsk.

Desde o século 16, os Montes Urais são considerados o limite entre essas duas partes do mundo. O primeiro monumento ali foi erguido em 1846, no Monte Berezovoi, depois da visita do então herdeiro do trono russo, o futuro imperador Aleksandr 2°.

O ponto escolhido já tinha sido designado como uma fronteira natural, em 1829, pelo geógrafo alemão Humboldt e pelo mineralogista Gustav Rose.

Muitos povos indígenas dos Urais não se importam com a celeuma sobre as fronteiras da Ásia e Europa, e creem  que as terras ao longo do Ural sempre foram de cultura russa e não uma síntese euroasiática. Partindo desse ponto de vista, a divisão do território entre Europa e Ásia seria irrelevante.  

Um passo da Europa à Ásia

Os guias turísticos modernos anunciam Iekaterinburgo como uma metrópole localizada no cruzamento de dois continentes, uma verdadeira síntese de várias culturas.

Uma das principais atrações da cidade é um monumento em formato de estrela que simboliza a fronteira entre Europa e Ásia. Foi construído em 2004, no quilômetro 17 da estrada Novomoskóvski, em um bosque da metrópole.

É ali que os turistas podem passar da Europa à Ásia com apenas um passo. Na base do obelisco há duas rochas. A que simboliza a extremidade europeia chama-se Cabo da Roca e a asiática, Cabo Dejnev.

Entre outras atrações, pode-se comprar suvenires, andar a cavalo, aventurar-se em trenós puxados por cães e fazer piqueniques.

Alguns ourives dos Urais confeccionam moedas comemorativas com símbolos de Iekaterinburgo ou a inscrição “Cruzador da Fronteira entre Europa e Ásia”.

Todos os anos a cidade é sede da competição de esqui “Europa-Ásia”, que tem uma extensão de 53 km, e inicia-se na Europa, na cidade de Pervouralsk, e termina na Ásia, em Iekaterinburgo.

 

 

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