A expedição que contornou o Ártico em um iate

Em novembro de 2010, depois de seis meses no mar, a tripulação do iate "Pedro 1º" regressou ao porto de origem Foto: Serguêi Aníssimov

Em novembro de 2010, depois de seis meses no mar, a tripulação do iate "Pedro 1º" regressou ao porto de origem Foto: Serguêi Aníssimov

Os integrantes da expedição que contornou o Ártico no iate "Pedro 1º” não tinham mais de 26 anos de idade. Em 2010, esses aventureiros percorreram as rotas marinhas Passagem do Nordeste e Passagem do Noroeste em uma única navegação e sem um navio quebra-gelo.

A tripulação russa do iate à vela "Pedro 1º" contornou o Ártico ao redor do globo terrestre em uma expedição que partiu de São Petersburgo em 4 de junho de 2010. No dia 20 de setembro do mesmo ano, o iate cruzou a linha de chegada simbólica –a saída para o estreito de Lancaster. Foram necessários 3 meses e 16 dias para que a equipe superasse a distância de 9.023 milhas náuticas, 3.000 delas em um severo ambiente de gelo, e atingisse o  objetivo pretendido. Ao todo, a expedição percorreu mais de 13 mil milhas náuticas em meio ano. Serioja (diminutivo de Serguêi) Murzaev participou da viagem como marinheiro.

Murzaev conheceu o capitão do iate, Daniil Gavrilov, no verão de 2009, durante uma das Regatas do Báltico. Foi então que Serioja ouviu falar pela primeira vez da expedição que estava sendo planejada. Quando, no final da temporada, ele foi convidado a se juntar à tripulação, percebeu que era simplesmente impossível recusar.

Praticamente todo o trabalho de reconstrução do iate e de sua preparação para as severas condições do Ártico foi realizado pelo próprio pessoal da equipe.

Ele contou os detalhes da preparação e da viagem.

Viagens ao redor do mundo

“Inicialmente, a partida estava marcada para 1º de junho, mas depois percebemos que isso não seria viável e resolvemos transferi-la para o dia quatro. Acabamos partindo somente às 18h do dia  4 de junho. Até o último minuto o nosso sistema de abastecimento de combustível não estava montado, o comando da direção não tinha sido ajustado, as peças estavam desmontadas. Tínhamos efetuado os trabalhos básicos para que o iate pelo menos entrasse em movimento, todo o resto terminamos de fazer no caminho. Saímos às 18h e imediatamente surgiram condições meteorológicas desagradáveis. Os tanques de combustível não estavam fixos, ou melhor, as suas tampas, o diesel começou a derramar e a água salgada penetrou nos tanques. Além disso, veio o enjoo. A equipe que deu a volta completa era de seis pessoas. Em algumas etapas alguém se reunia ao grupo e outro ia embora.”

O encontro com o gelo

"O Oceano Ártico começou para nós quando saímos de Murmansk e tomamos o curso para a Terra Nova [arquipélago no Oceano Ártico localizado entre o Mar de Barents e o Mar de Kara]. Ao longo de toda a expedição, a temperatura variou de 0 a 5 graus. Enquanto navegávamos pela Rota do Mar do Norte da Rússia, tínhamos o dia polar: o sol estava se pondo no horizonte, mas havia claridade durante as 24 horas. Fazia muito frio no nevoeiro; se você está seguindo e vê neblina à sua frente, o mais provável é que há gelo lá. À noite, as coisas congelavam. Encontramos o primeiro iceberg na Terra Nova. Toda a tripulação estava dormindo, era justamente o momento da troca de turno. Um bloco de gelo se aproximou muito de nós. Decidimos não acordar ninguém, simplesmente pegamos varas de bambu e começamos a empurrá-lo. Descobrimos que o bloco de gelo era enorme, mas conseguimos afastá-lo. Era difícil entre o gelo: você ficava 12 horas em guarda no convés e se esforçava, se esforçava, tentando encontrar um lugar mais livre, onde houvesse pouco gelo.”

“Por várias vezes, nós atracamos no bloco de gelo:  você se aproxima, salta sobre ele, finca as âncoras e aguarda o momento da mudança do vento, da correnteza e observa o gelo, como ele se move junto a você. Passamos duas semanas em meio ao gelo. Um dia, antes de sair do local cheio de blocos, o iate colidiu com um deles. Durante a colisão, o leme foi entortado. Com uma embarcação que praticamente não podia ser dirigida, o pessoal conseguiu sair para a água livre do gelo e chegar a um porto onde os moradores locais e os marinheiros do rebocador ‘Neotrazimii’ ajudaram nos reparos.”

Sobre as tempestades e a natureza do Ártico

"Muitas tempestades ficaram na memória. A primeira aconteceu quando estávamos saindo de São Petersburgo. Depois, no Mar do Norte, na saída de Murmansk, havia ondas longas e suaves e levávamos muito tempo para subir até a crista da onda e muito tempo para descer. Nesse momento, o meu organismo me traiu. Fiquei seis horas sem poder me levantar naquela ocasião. Em seguida veio o Alasca: lá, pelo contrário, as ondas eram curtas e altas. A altura era de cerca de 10 metros. Olhando de fora, tinha-se a impressão de que elas cobriam o mastro inteiro, mas não era assim. O mastro tinha 22 metros. É difícil de avaliar olhando de baixo. As ondas não nos cobriam, simplesmente passeávamos para cima e para baixo sobre elas.”                                    

“Quando estávamos voltando, antes de chegarmos à Noruega, o Atlântico também nos trouxe uma surpresa. Ali, começou a soprar um vento de 35 metros por segundo. Durante a noite caiu granizo. O único ponto positivo foi que o vento era favorável, soprava às nossas costas e nós seguíamos a favor das ondas. A primeira vela foi arrancada, ficamos tentando baixar a segunda e conseguimos descê-la quase até o fim. Sem as velas, seguíamos entre 12 e 13 nós. Falando do que havia de mais bonito nessa viagem, sem dúvida era a natureza selvagem intocada pelo homem. Os icebergs, as geleiras de uma beleza deslumbrante. O Norte fascina. A maioria das pessoas que visitaram o Norte quer voltar lá.”

“Encontramos com uma ursa polar e seus filhotes. Vimos focas, elas são um pouco medrosas. As morsas são curiosas, elas vinham nos visitar e nadavam ao redor do iate. As Pusas (gênero de focas ao qual pertencem as focas-do-cáspio, as focas-aneladas e as focas-do-baikal) são animais amáveis. No Canadá, nos encontramos com golfinhos. “

A volta para casa

"Eu voltei com ideias completamente diferentes sobre o que eu quero na vida e o que deve ser feito. Durante a viagem, percebi que tudo na vida é real e possível, apenas é preciso ter vontade. Será difícil, mas tudo na vida é difícil. Existe uma parcela que depende do acaso, da sorte, mas de qualquer forma, se você não sentir medo e seguir em busca de seu objetivo, então, o sucesso certamente estará do seu lado."

Em novembro de 2010, depois de seis meses no mar, a tripulação do iate "Pedro 1º" regressou ao porto de origem.

 

Publicado originalmente pela revista Rússki Reportior

 

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