Projetos buscam atrair mais turistas à Sibéria

Os moradores costumam queixar-se: temos muita lama, pouco conforto e nada de locais de interesse Foto: Iúri Kózirev_Noor

Os moradores costumam queixar-se: temos muita lama, pouco conforto e nada de locais de interesse Foto: Iúri Kózirev_Noor

Jornalistas investigarão pequenas aldeias, reservas e monumentos esquecidos que estão sob o risco de caírem no esquecimento para sempre tanto para futuras gerações de viajantes como para os próprios siberianos.

A Sibéria é um cosmos no meio das neves, no qual milhares de rios correm das montanhas para a Via Láctea do rio Ienissei, constelações dos lagos se dissolvem no infinito e escuro abismo de taiga, cheia de galáxias inexploradas e buracos negros, tapados da luz do dia com tempestades de neve e pesados ramos de abetos.

O lago Baikal, como estrela mais luminosa no céu enegrecido, derrama sua luz nas crateras do meteorito de Tunguska e nebulosas da tundra ártica, iluminam para os viajantes o caminho para as cidades satélites, enregeladas para além do tempo e do espaço. Quem volta da Sibéria não consegue esquecer galhos “felpudos” de abetos e continua fixando o olhar interior no infinito cosmos verde, ouvindo só o vento.

A Sibéria é um estado de ânimo. É terra de minas, de trabalhos forçados e verdadeiros heróis. São ursos, taiga, inverno sem fim e espaços sem horizonte cheios de lendas e grandes façanhas. É o principal símbolo da Rússia e, ao mesmo tempo, o maior enigma, mesmo para os russos.

“Quem não é natural daqui, é pouco provável que queira um dia vir à Sibéria. Poucos lhe dariam primazia em vez das praias sulistas ou megalópoles modernas. Não passa de uma mancha de neve com população escassa, destino de caras passagens e muitas horas de voo sem nada para contemplar. É o que se ouve muitas vezes. Que engano tão triste. Não conhecer a Sibéria é o mesmo que não conhecer a Rússia. É que o nosso país não acaba, mas apenas começa nos Urais”, diz o jovem viajante Pavel Belogolovtsev.

Foto: Iúri Kózirev_Noor

“Para muitos, a Sibéria é local de exílio, trabalhos forçados e ursos. Não desminto que há casos de animais trôpegos entrando nas cidades; é verdade que os invernos duram meio ano, mas já há muito que a Sibéria vive uma vida nova e interessante. A nossa principal missão é provar que a Sibéria é mesmo propícia a rotas turísticas”, frisa Anna Gruzdeva, co-autora do projeto “Sibéria, Ponto Final”.

Este ano, Anna e Diana, jornalistas de Krassnoiarsk, receberam dois subsídios no valor total de 60 mil rublos (cerca de US$ 1.800) para criar um roteiro sobre a Sibéria, que no futuro deve servir de base para um mapa interativo. Mais do que metrópoles siberianas, as jornalistas investigam pequenas aldeias, reservas e monumentos esquecidos que estão sob o risco de cair no esquecimento para sempre tanto para futuras gerações de viajantes como para os próprios siberianos.

Málaia Síia, Enisseisk, Lisstvianka, Ergaki: a cada um desses locais é dedicado um capítulo especial em que se relata, em pormenores, a vida dos habitantes locais, suas tradições únicas, cultura e pontos de referência que valem a pena visitar, com observações sobre melhores itinerários e lugares para ficar. Mesmo que uma aldeia não tenha hotéis nem hostels, os moradores estão dispostos a receber forasteiros, dando seus contatos às jornalistas.

“Não esperamos um grande fluxo de turistas a curto prazo. Mas temos a certeza de que estas terras unem aqueles que diariamente caçam na taiga com os que frequentam acolhedores cafés citadinos, conseguindo mudar para melhor a visão habitual do mundo”, contaram as entusiastas ao jornal moscovita “The Village”.

Enquanto o projeto “Sibéria, Ponto Final” tem como alvo os russos, o blog askural.com, criado por Liubov Susliakova, é destinado a estrangeiros. Contém informações de como, para que locais e com que expectativas vale a pena visitar os Urais. Com o passar do tempo, o site ganhou tanta popularidade que Liubov se viu obrigada a deixar sua profissão de apresentadora da rádio de Ekaterimburgo, se concentrando no trabalho de guia.

Ekaterimburgo, a capital dos Urais, é visitada tanto por turistas em grupo como por quem viaja por conta própria. Os segundos habitualmente escolhem vir pela ferrovia, já que Ekaterimburgo possui uma das estações centrais da Transiberiana. Liubov mostra aos visitantes alguns dos locais raros de se encontrar nos roteiros russos: as fábricas de Nijni Taguil, Uralmach, o “cemitério da máfia” junto de Chirókaia Rechka, o parque natural “Olén’i Rutch’i”(Arroios de Veados), bem como pequenas povoações do Distrito de Neviansk, onde quem quiser pode aprender o ofício de oleiro.

“Os moradores costumam queixar-se: temos muita lama, pouco conforto e nada de locais de interesse. Os turistas me fizeram abrir os olhos, me convencendo de que, hoje em dia, é mesmo bom viver na Rússia”, salienta Liubov.

Atualmente, sites semelhantes destinados a estrangeiros e criados por habitantes locais existem em Iakútia, Novossibirsk, na zona do Baikal, no Altai e em Moscou. No Cáucaso, na onda de requalificação urbana, nova para a Rússia, alguns estudantes e designers de clube artístico Expromt, em parceria com Kerim Akizov, fundaram o primeiro art-cluster (uma nova forma de negócio na área das artes) chamado Perímetro, na cidade de Nalchik. Agora, é local de cinema ao ar livre,  exposições e galerias, concertos e churrascos, que atraem a população. Segundo Kerim Akizov, dirigente do projeto, a ideia principal do Perímetro é iniciar “mudanças na imagem do Cáucaso”.     

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