Conheça a casa de verão de Stálin em Sôtchi

Ditador foi primeiro governante que reconheceu o potencial turístico do litoral do Mar Negro da região de Cáucaso Foto: RIA Nóvosti

Ditador foi primeiro governante que reconheceu o potencial turístico do litoral do Mar Negro da região de Cáucaso Foto: RIA Nóvosti

A partir da década de 1920, a cidade de Sôtchi se tornou o local preferido ditador para passar as férias e fazer seus tratamentos de saúde anuais.

A história da cidade de Sôtchi possui uma ligação direta com o nome do ditador soviético Joseph Stálin, o primeiro governante que reconheceu o potencial turístico do litoral do Mar Negro da região de Cáucaso e ordenou a transformação da pequena cidade de Sôtchi em spa soviético, um paraíso para os trabalhadores do país.

Tudo começou na década de 1920, quando o líder tomou o seu primeiro banho nas águas do rio Macesta e sentiu um grande alívio dos sintomas de reumatismo que o incomodavam ao longo de muitos anos. A partir de então, a cidade de Sôtchi se tornou o seu local preferido para passar as férias e fazer seus tratamentos anuais.

Sôtchi à beira do Mar Negro


Foto: Mikhail Mordassov

Em 1934, Stálin ordenou o investimento de 1 bilhão de rublos (cerca de US$ 31 mil), um valor enorme para a época, no desenvolvimento da infraestrutura da cidade. Em consequência, Sôtchi ganhou uma avenida denominada de Prospekt Ímeni Stálina, hoje em dia conhecida pelo nome de Kurortnii Prospekt, um sistema de fornecimento centralizado de água potável, assim como parques, spas e uma nova infraestrutura e equipamentos para a estação das águas Macesta, cujas propriedades curativas agradavam o ditador.

Residência do líder soviético

Inicialmente, Stálin e a sua família se hospedavam na propriedade Mikhailovskoe, localizada na serra entre a garganta de Macesta e as cachoeiras Agurskie. Posteriormente, foi construída no seu território uma casa de verão denominada de Zelenaia Roscha, localizada 50 metros acima no nível do mar. A casa foi preservada e hoje em dia funciona como um museu e um pequeno hotel, fazendo parte do complexo de spas Zelenaia Roscha.

A residência do líder do partido comunista foi projetada pelo jovem arquiteto soviético Miron Merjanov, que conseguiu prever os possíveis desejos do futuro proprietário, como a localização aberta para os ventos vindos do mar e das montanhas. O líder soviético gostava de silêncio e não suportava ser incomodado, ouvir ruídos de talheres e sentir cheiro de comida, portanto, os seus aposentos foram instalados em um bloco separado. No edifício ao lado encontrava-se a cozinha com as janelas viradas para o lado contrário dos quartos do ditador e os ambientes dos empregados. Os degraus para o segundo andar da casa apresentavam certo desconforto para a maioria das pessoas, porém serviam bem para Stálin, que não conseguia dar passos largos devido ao seu reumatismo. Os corrimãos das sacadas foram feitos propositadamente baixos para que o dono da casa, que media 1,65 metros, segundo várias fontes disponíveis, pudesse observar os acontecimentos na rua ao lado.

O arquiteto até projetou as fechaduras especiais para proteger a confidencialidade de tudo que acontecia no interior dos aposentos do ditador.

A fachada da casa preservada até os dias de hoje foi pintada de cor verde esmeralda, que a escondeu em meio às folhas verdes das árvores ao seu redor, protegendo o seu proprietário dos possíveis atentados vindos da serra. Vale ressaltar que a estadia do líder soviético na cidade de Sôtchi exigia a tomada de várias medidas de segurança, tais como o uso de trem particular em alta velocidade acompanhado por outros comboios com o mesmo número 1 que transportavam os seguranças do líder da nação. A própria casa de verão foi cercada por três cordões de isolamento e até os móveis estofados foram preenchidos com as crinas para que eles pudessem reter as balas.

Riviera e Gágri

Ao longo da sua carreira política no cargo de líder do Estado, Stálin sofreu dois  atentados frustrados na cidade de Sôtchi. O primeiro aconteceu na madrugada de 26 de agosto de 1931, durante a passagem de um carro de modelo Buick que transportava o próprio Stálin e seu aliado Kliment Vorochilov pela ponte Rivierski. O veículo se chocou com um caminhão, e os seguranças dos políticos dispararam contra os supostos terroristas. No entanto, o motorista conseguiu escapar, mas logo foi descoberto em estado de embriaguez e sem intenção alguma de prejudicar a integridade física do ditador. O segundo caso aconteceu um mês depois durante um passeio de lancha. O barco foi atacado a tiros vindos do litoral próximo à cidade de Gagri, localizada ao lado de Sôtchi. O segurança protegeu o ditador das balas, porém elas não conseguiram acertar a lancha e ninguém se feriu. 

Na década de 1930, a cidade de Sôtchi já não era apenas o principal destino das férias para a população soviética, mas considerada um local de tomada de decisões importantes para a vida de milhões de cidadãos. Segundo afirmações do serviço de inteligência inglesa reveladas pelos históricos do país, em 22 de junho de 1941, data de violação da fronteira soviética pelo exército nazista, Stálin não se encontrava na sua residência moscovita, como apontam os dados oficiais, mas na cidade de Sôtchi. No entanto, há uma probabilidade dessas informações serem enganosas devido à existência de quatro sósias do líder soviético, um dos quais poderia ter sido visto no litoral do mar Negro.

Durante a Segunda Guerra Mundial, a casa de verão Zelionaia Roscha serviu como residência permanente da família do ditador, enquanto o próprio regressou para lá apenas em 1945, após a vitória sobre a Alemanha nazista. Na época, ele já sofria de graves problemas de saúde que exigiam o seu constante acompanhamento por três médicos ao mesmo tempo. 

Paraíso comunista


Foto: Mikhail Mordassov

As constantes epidemias de malária na região preocupavam Stálin. Para resolver o problema, o líder soviético ordenou a plantação de uma grande quantidade de eucaliptos, criação de novos parques, jardins e canteiros de flores. Os spas locais, tais como Vorochilov, Ordjonikidze, Frunze, Pravda e Metallurg, transformados em hospitais durante a guerra, voltaram a exercer a sua função inicial. A construção de todos esses edifícios monumentais com colunas na entrada e tetos pintados que pareciam verdadeiros palácios, também foi uma ordem pessoal de Stálin. Segundo ele, qualquer trabalhador soviético merecia passar suas férias em locais "paradisíacos" para recuperar as forças e retomar as suas atividades profissionais para o bem da pátria.

Com o passar do tempo, Stálin dava cada vez mais preferência à sua casa de verão em Sôtchi, onde residiu de agosto a setembro, mas continuou a ministrar as reuniões administravas com os dirigentes soviéticos vindos de Moscou com este intuito. Em 1948, Sôtchi virou um distrito autônomo e subordinado direto do governo da república. A limpeza da avenida principal da cidade, Prospekt Stalina, era efetuada três vezes ao dia e a circulação de veículos com rodas sujas nas suas vias foi expressamente proibida. Além disso, os cidadãos corriam risco de serem expulsos da cidade se fossem pegos andando pela principal rua da cidade vestidos em trajes inadequados.

Os locais que o líder soviético gostava de frequentar são desconhecidos devido à sua discrição durante todos os deslocamentos pela cidade. Os historiadores  conhecem apenas um caso de aparecimento público do secretário geral do partido comunista no spa Kavkazskaia Riviera, localizado no centro de Sôtchi, à beira do mar. No dia 18 de setembro, os hóspedes do local presenciaram a aproximação da limusine ZIS-110 ao bloco principal do estabelecimento. Para a sua surpresa, o próprio Joseph Stálin saiu do carro e seguiu em direção ao café, onde ouviu a opinião dos clientes em relação ao atendimento no spa e à qualidade das refeições. As crianças locais que cercaram o líder ganharam bombons de chocolate.

Estação das águas Macesta


Foto: PhotoXpress

No território da estação das águas Macesta foi construída a residência particular de Stálin, projetada pelo jovem arquiteto soviético Miron Merjanov, onde o dirigente da União Soviética usufruía das propriedades curativas dos banhos de hidrogênio sulfurado. O visual e a finalidade do local foram preservados e, hoje em dia, ele é frequentado por líderes russos, principais políticos e celebridades mundiais.

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