Prato cheio para a literatura

Tolstoi em almoço entre amigos; escritor não comia carne por questão moral

Tolstoi em almoço entre amigos; escritor não comia carne por questão moral

Getty Images
Com base em obras e relatos, tradutor e jornalista inglês George Butchard sugere o que Dostoiévski, Tolstói e Púchkin punham sobre a mesa.

Os escritores clássicos russos produziram as suas obras antes da globalização e, por isso, não tinham a sua disposição a variedade de alimentos que temos hoje. Pode parecer interessante imaginar Dostoiévski se lançando a um prato de sushi, mas, infelizmente, isso é mais que improvável considerando as dificuldades que enfrentou em vida.

Dostoiévski foi enviado para um campo de trabalho forçado na Sibéria entre 1849 e 1854, e não é difícil presumir que, estando lá, certamente não teve acesso a alta gastronomia. O personagem Raskolnikov, de “Crime e Castigo”, a quem dão para comer uma “sopa rala de repolho com besouros flutuantes”, dá uma dica sobre as condições naquele contexto.

Apesar disso, a experiência gastronômica de Dostoiévski não teria começado assim tão mal. Por vir de uma família de classe média, durante os primeiros tempos de vida ele teria tido uma dieta representativa dessa classe social: sopas com carne, vegetais e cereais (como as famosas borsch e solianka), trigo sarraceno, panquecas e bolinhos recheados com carne ou legumes.

Mais tarde, nas garras do vício do jogo e tendo perdido todo o seu dinheiro na roleta, Dostoiévski se viu em uma situação difícil em Wiesbaden, na Alemanha.


Dostoiévski à amada: "Estou vivendo apenas de chá"  Foto: Ullsteinbild / Vostock-photo  

Chegou a tal ponto que, segundo escreveu à sua amante, Polina Suslova, “as pessoas aqui no hotel me disseram que receberam instruções para não me servir jantar, nem chá ou café. E, assim, desde ontem que não como, estou vivendo apenas de chá”.

Foi nesse ambiente que ele, “ardendo em uma espécie de febre interior”, escreveu o seu grande romance “Crime e Castigo”. Por isso a comida – ou a falta dela – teve um fator determinante na criação de um dos romances mais famosos da literatura russa.

Dieta moral

Tolstói é o escritor russo mais famoso por sua dieta especial – era vegetariano. Deixou de comer carne em 1885, como parte do seu contínuo processo de desenvolvimento ético e espiritual.

“Se as aspirações de um homem em ter uma vida justa são sérias, se ele procura sentida e sinceramente uma vida de retidão, o seu primeiro ato de abstinência será relacionado a comida de origem animal”, escreveu.

“Sem mencionar a excitação das paixões produzidas por tal alimento, ela é claramente imoral, uma vez que requer um ato contrário ao sentimento moral, ou seja, leva a que se mate – e é suscitado apenas pela ganância.”

Dali em diante passou a viver com uma dieta muito frugal, composta por nozes, frutas, legumes e mingau, completamente fora daquilo que seria esperado dele em sua qualidade de nobre.

Púchkin até hoje

O poeta Aleksandr Púchkin, contudo, não se esquivou da nobreza e provavelmente comeu os mais requintados pratos da nobreza de São Petersburgo na época. Entre as iguarias, estariam pratos alemães, italianos e franceses, como o pato defumado e os escalopes ao estilo francês.

Em visita à chamada capital cultural da Rússia, pode-se, inclusive, visitar o café onde Púchkin comeu a sua última refeição antes de ir para o duelo fatal: o Café Literário, que está localizado na esquina da Nevski Prospekt com a Moika, não mais do que cinco minutos a pé do museu Hermitage.

George Butchard é tradutor e jornalista com uma longa paixão por literatura russa. Nascido no Reino Unido, fez mestrado em Língua Inglesa e Literatura Mundial na Universidade de Warwick. Sua tese foi baseada na obra “O Mestre e Margarida”, de Mikhail Bulgakov.

 

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