O ‘Eminem russo’ que está mais para Tupac

Gesto político de Miron, ainda que indireto, pode ter consequências no cenário do país e para ele mesmo

Gesto político de Miron, ainda que indireto, pode ter consequências no cenário do país e para ele mesmo

Vostock-Photo
Miron Fiódorov, 32, estudou em Oxford, começou a fazer rap em Londres e agora se apresenta para multidões ao redor do globo. No exterior, ele foi rotulado de ‘Eminem russo’, mas na terra natal, seu poder político teria até influenciado frequência jovem em protestos.

Miron Fiódorov, mais conhecido pelo nome artístico Oxxxymiron, raramente concede entrevistas. “Não gosto de quase nada que escrevem sobre mim”, confessa à Gazeta Russa. Sua personalidade reclusa, porém, não impede que a popularidade continue em ascensão. Pôsteres e banners anunciando os shows de Oxxxymiron estão por toda parte na Rússia – das ruas à internet.

O rapper é conhecido por sua forte presença de palco, com rimas difíceis e intelecto admirável. Não é à toa que os jovens fãs se aglomeram nos shows e recitam suas músicas de cor, enquanto pessoas de gerações mais velhas balançam a cabeça em sinal de aprovação.

Em 2016, Oxxxymiron se apresentou em shows com ingressos esgotados nas capitais - em São Petersburgo, no clube A2, o mais badalado da cidade.

Ainda em 2017, ele deverá se apresentar no Palácio de Gelo. E os ingressos já estão à venda.

Fomentador de protestos?

Miron foi recentemente objeto de um artigo curioso na revista russa de comportamento “Snob”. Escrito pelo jornalista Aleksêi Pavperov, o texto relaciona a presença de jovens nos mais recentes protestos na Rússia diretamente com o trabalho do rapper.

“Todos perguntam por que os adolescentes participaram dos protestos recentes contra a corrupção no país. É interessante lembrar que o álbum musical ‘Gorgorod', de Oxxxymiron, foi o mais popular entre 2015 e 2016, e uma poderosa manifestação política contando a história hipotética de um literato que acaba arrastado para um cabo de força contra um governador inescrupuloso e onipotente”, escreve Pavperov.

Como ele relembra, antes de Miron o rap russo já tinha suas faixas políticas, como “Solntsa ne vidno”, do rapper “Basta”, ou “Oní”, do grupo de Rostov no Don “Kasta”.

“Mas ainda não tinha aparecido um trabalho que fosse tão bem-sucedido, íntegro, perspicaz (em um bom sentido), que coincidisse irrepreensivelmente com a situação e com todo o público”, diz Pavperov.

(Fonte: YouTube/russianmuzicone)

Além disso, o jornalista relembra da queda no gosto pelo rapper mais pop do país, Tímati, depois de esse gravar um hit junto a Sasha Tchest em que repete insistentemente que seu “melhor amigo é o presidente Vladímir Pútin”.

Em um desfile de moda empreendido recentemente pelo ditador tchetcheno, Ramzan Kadírov, para promover as habilidades de sua filha, Tímati foi uma dentre as diversas estrelas nacionais e internacionais atraídas ao evento.

“O [poeta contemporâneo] Dmítri Bíkov disse que a revolução na Rússia ocorre não devido à economia, à guerra ou à falta de direitos. E imagens [de Tímati] em Miami ou em carros blindados não enganam. Nesse contexto, o Tímati parece um palhaço cujo cérebro só é suficiente para andar no bagageiro e depois no avião particular de Ramzán Kadírov, só para ganhar ‘likes’ no Instagram”, afirma Pavperov.

Formado em literatura inglesa mevieval em Oxford, Miron teria se provado um produto diferente dos demais.

As faixas de seu álbum “Gorgorod” compõem uma história completa, rapsódica, de outros tempos, mas que poderia se encaixar em qualquer tempo e espaço.

Cada uma delas tem um narrador diferente, e juntas elas narram a trajetória de um poeta completamente despolitizado que se envolve com uma oposicionista, torna-se líder da oposição, e vê a cara da morte quando capturado pelo governador – pai de sua amada. Libertado sob a condição de se manter neutro e não escrever sobre a amada, porém, o poeta acaba morto.

Na estrofe final, ouve-se: “Me responda à pergunta/ Pode um autor viver em uma torre de marfim?/ Ser admitido como artista ou estridentemente contra os grãos-senhores,/ Ou manter sua neutralidade... [estampido de tiro]”.

Pavperov relembra, porém, que o gesto político de Miron, ainda que indireto, pode ter consequências. Para os negócios, por exemplo: no futuro, ele pode não conseguir participar do júri do programa “The Voice” no primeiro canal, ou se apresentar no palácio do Kremlin com orquestra.

“Vocês não fazem ideia de quantos jovens já, há anos, ouvem com atenção o ‘Gorgorod’ e têm uma relação séria com essa obra. E a internet multiplica muito o efeito desse gesto bem-sucedido”, escreve Pavperov.

Um rapper em Oxford

Oxxxymiron tem orgulho de ter nascido em São Petersburgo: exibe o número 1703 tatuado em seu pescoço, em referência ao ano de fundação de sua cidade natal.

Ainda criança, mudou-se com os pais para Alemanha e, aos 12 ou 13 anos, começou  a escrever seus primeiros raps.

Mais tarde, sua família se mudou novamente – dessa vez, para o Reino Unido. Foi então que Miron se formou em literatura inglesa medieval em Oxford e se readaptou em Londres.

Lá, mais precisamente no bairro oriental de Canning Town, famoso por sua cena underground, nasceu, enfim, o alter ego “Oxxxymiron”.

Enquanto fazia música como passatempo, o jovem MC também ajudava seus compatriotas em Londres a resolver problemas diversos, incluindo questões com a lei.

Em 2015, sua vida na Inglaterra foi retratada na série de televisão russa “Londongrad”. A música-tema do seriado, escrita pelo próprio Miron, resumia, de certo modo, sua evolução na cena londrina: “do underground para telas de TV”.

(Fonte: YouTube/СТС)

“Eu encontro saídas, eu resolvo problemas/ Posso não ser um romancista, mas se eu decidir roubar algo / Não será nada menos que o diamante da rainha”, diz a letra.

Rap repaginado

Miron deve sua fama, em grande parte, à participação em duelos de rap no estilo americano “Versus”, encenados em clubes de São Petersburgo.

Nesses eventos, dois MCs (artistas de rap) se revezam tentando humilhar um o outro da maneira mais ornamentada e complicada possível. O júri anuncia o vencedor após três rodadas.

Os vídeos no YouTube com as performances de Miron nas batalhas de rap geram milhões de visualizações. O mais popular deles, que mostra uma competição de 2015 contra o MC Johnyboy, já teve mais de 33 milhões de visualizações.

Atualmente, Oxxxymiron vive entre a Rússia e o Reino Unido, lançou dois álbuns e percorre toda a Europa fazendo shows. Em 2016, fez turnês pela Alemanha, França e Portugal, entre outros países.

As letras de Miron não falam sobre vida agitada nas cidades, carros luxuosos, diamantes e mulheres. Em vez disso, representam uma nova versão intelectual de rap.

Oxxxymiron escreve músicas sobre a pobreza espiritual e o vazio existencial, a indiferença das pessoas em relação à cultura e ao mundo ao seu redor, assim como outros temas familiares aos fãs de rap, como revolta contra as autoridades, críticas à corrupção e ao acúmulo de riquezas.

 “Ao dar vida à nova geração, nós alcançamos uma mudança de paradigma”, diz ele, por exemplo, em “Gorod pod podoshvoi” (do russo, “Cidade sob a sola”).

Quando os norte-americanos assistiram ao vídeo dessa música,  Oxxxymiron foi prontamente apelidado de “Eminem russo”.

(Fonte: YouTube/oxxxymironofficial)

Em outro vídeo, que viralizou na internet no ano passado, uma russinha em idade escolar lê as letras da música “Perepleteno”, de Oxxxymiron, como se essa tivesse sido composta pelo proeminente poeta russo Osip Mandelstam, e tira nota máxima por seu desempenho.

Como se observa depois, era justamente esta a tarefa da classe: comparar poesia clássica com contemporânea. Considera-se que a letra escrita por Miron, que inclui os versos “Everything is entangled, there are countless threats, but / pull by a thread and you will get to the ball of it / Our world is a spindle, nothing is coincidental” faça alusões ao poema “Tíkhi chpindel”, de Mandelstam.

Depois disso, a imprensa voltou sua atenção para o aspecto artístico das músicas de Oxxxymiron. Logo também surgiram na internet diversos testes para que as pessoas adivinhassem se certas letras haviam sido escritas pelo rapper ou por poetas russos da Era de Prata, no início do século 20.

Trabalho sem pressão

A sinceridade, característica intrínseca ao rap, parece guiar o músico ao longo de toda sua vida, tanto é que ele não se dá bem com a maioria dos proeminentes rappers russos.

Miron se recusa a se ajustar aos cânones do showbiz e fala com toda franqueza sobre a qualidade de seus versos e músicas. Seus oponentes, por sua vez, costumam rebater de forma gentil. Enquanto algumas dessas diferenças acabam resultando em trocas de farpas nas redes sociais, em outros casos, dão origem a composições.

Miron conta, porém, que, certa vez, um rapper que se descreve como patriota ficou ofendido pela letra de uma de suas músicas e exigiu um pedido de desculpas com uma arma apontada contra ele. Mas nem isso impede Oxxxymiron de seguir adiante.

Poucos amigos e muita reflexão são marca de Oxxxymiron (Foto: Vostock-Photo)Poucos amigos e muita reflexão são marca de Oxxxymiron (Foto: Vostock-Photo)

Em fevereiro de 2017, os veículos de comunicação do país divulgaram que o cantor havia se tornado o diretor da agência Booking Machine, que não só organiza shows, como também agencia talentos musicais do país. Ele também foi o primeiro músico a participar da campanha promocional da Reebok Classic na Rússia.

“Nunca me vi como um viciado em trabalho, mas o apetite vem ao comer. Não tenho uma parceira fixa e a maioria de meus amigos trabalha comigo, então, o limite entre trabalho e diversão é, de certo modo, meio turvo. Produzo quando tenho tempo, mas tento não transformar o processo criativo em rotina”, conclui.

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