As raízes russas do Chanel nº5

Veriguin e seu mestre, Beaux, tiveram a missão de criar perfume adaptado à velocidade da época

Veriguin e seu mestre, Beaux, tiveram a missão de criar perfume adaptado à velocidade da época

Andrêi Korliakov
Pouca gente sabe, mas em 1921 o químico russo Konstantin Veríguin ajudou a criar um composto de perfume que serviu de base para o lendário francês Chanel nº5.

O químico russo Konstantin Veríguin sempre teve um olfato particularmente aguçado. Em sua mente, todo lugar, pessoa ou evento tinha um cheiro único e irrepetível.

Tudo começou durante sua infância, transcorrida entre a terra natal, Petersburgo, e as propriedades de seus pais nas regiões de Ufá e Simbirsk – razão pela qual adorava a sensação de ar frio e a frescura da geada. O cheiro vindo da lareira queimando madeira de pinheiro e o café fresco também marcaram.

Certo dia, o jovem Konstantin, observando a penteadeira de sua tia, foi surpreendido pela diversidades de frascos estrangeiros e diferentes odores. Recebeu de presente algumas garrafinhas e, tão logo, começou os experimentos.

Exílio

Fonte: Divulgação
Cheiros de infância serviram de inspiração posterior para Veríguin Foto: Divulgação

Durante a Guerra Civil Russa, Konstantin entrou para o Exército Branco e lutou contra os bolcheviques na Crimeia, em 1919. O fracasso, porém, o levou ao exílio na França.

Naquela época, Veríguin já sabia que sua vida estaria ligada a perfumes. Um dia foi apresentado a Ernest Beaux, uma autoridade no campo da perfumaria na França, que se surpreendeu com o talento do jovem químico russo e lhe propôs uma colaboração.

Com o tempo, Beaux se tornou não apenas uma autoridade e professor para Veríguin, mas também um amigo. Inclusive, referia-se a ele da maneira russa – Ernest Eduardovitch –, e com razão para isso.

Beaux nasceu em 1882, em Moscou, porém em uma família francesa. Falava russo perfeitamente, adorava Púchkin, Turguêniev e Dostoiévski e o Ballet Imperial.

Ainda na Rússia, tinha começado a se envolver em perfumaria e chegou a criar o “Bouquet de Katherine”, em homenagem a imperatriz, assim como outros perfumes populares. Em 1920, Beaux foi obrigado a retornar para a França.

5 da sorte

A Primeira Guerra Mundial acabou com a Belle Époque, e com ela começou um período de velocidade: a vida corria ao ritmo do foxtrote, em meio à fumaça de cigarro e ao barulho de carros e trens. A moda se adaptou a este novo ritmo, assim como o estilo de vida. Era preciso, então, criar um perfume ajustado à época.

A famosa estilista Coco Chanel pediu a Beaux que criasse um perfume para ela. Ele então lhe mostrou uma série de aromas e Coco escolheu o frasco de número 5.

"L'emigration russe en photos 1917-1947 Vers le succès" d'Andreï KorliakovExilado na França, químico foi aprendiz de guru da perfumaria na época Foto: Andrêi Korliakov

Mais tarde, quando perguntada sobre o nome do perfume, Coco se limitou a dizer que apresentaria a sua “coleção de roupas no quinto dia do quinto mês do ano, isto é, maio. Portanto, deixamos o perfume com o mesmo número. Este 5 vai trazer sorte.”

Veríguin ficou responsável pela compra de uma essência qualidade, pela escolha dos ingredientes e pelo controle de qualidade. Não é à toa que a nota, ou matéria-prima, principal do Chanel No. 5 é a frescura dos rios do norte.

Nesses rios, segundo descreveu Veríguin, sente-se o perfume da primavera após o degelo, com “poder e clareza, sonoridade e ligeira valentia da juventude”. Para o criador, esses cheiros eram a memória da primavera russa. O efeito desejado foi obtido acrescentando florais aldeídos à base clássica.

Beaux estava entusiasmado com o resultado do trabalho de seu assistente russo. Em 5 de maio de 1921, o novo perfume foi apresentado ao público, como o primeiro a refletir as tendências da moda e o cheiro da nova década.

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