O talismã russo

"Pois se a riqueza, toda riqueza, existe para ser compartilhada, a história parece ter ensinado aos russos, como aos latino-americanos vem tentando ensinar, que nem sempre e nem todos sabem ou aceitam dividi-la."

"Pois se a riqueza, toda riqueza, existe para ser compartilhada, a história parece ter ensinado aos russos, como aos latino-americanos vem tentando ensinar, que nem sempre e nem todos sabem ou aceitam dividi-la."

Arquivo pessoal
Prestes a lançar nova tradução de "Noites Brancas" em português, Rubens Figueiredo escreve sobre sua primeira visita à Rússia, aos 60 anos de idade, e seu pensamento flana pelo enigma do que é "vivido, mas não é dito" pela alma russa.

Entre o fim de maio e o início de junho de 2016, estive na Rússia pela primeira vez, aos sessenta anos de idade. E, de lá para cá, essa experiência se tornou uma espécie de mundo paralelo que me acompanha: as imagens e até as sensações reaparecem de repente, sempre impressionantes, enquanto caminho por Copacabana, onde moro, carregando a mochila com as compras do mercado.

Estudei russo na faculdade, quando jovem e, nos últimos dezesseis anos, tive a sorte extraordinária de poder traduzir vários livros clássicos da literatura russa. No entanto, por razões particulares – dinheiro, pouca disposição para aviões e aeroportos –, eu nunca tinha ido à Rússia.

Acompanhei de longe as difíceis e ricas transformações históricas do país, que, por efeito das décadas que iam passando somadas com a distância física, tornou-se para mim, sem que eu notasse, uma espécie de miragem – da qual eu tentava, pelo menos, extirpar os preconceitos, tão persistentes, quando se fala em Rússia.

Também por isso, uma das coisas que mais me deixaram admirado na viagem foi o esforço consciente, que percebi, em muitos locais e em tantas situações, para encurtar as distâncias que as mudanças históricas tendem a aumentar. Quero dizer, o empenho para que a experiência das várias gerações e das mais diversas parcelas do povo permanecesse a mais viva possível e não se tornasse, de fato, uma miragem.

Foi o que registrei muito claramente, por exemplo, no incrível Museu Russo, de São Petersburgo, e na Galeria Tretiakov, em Moscou. Mas também nas estações de metrô, com suas obras de arte tão integradas ao vaivém cotidiano das pessoas.

Lá, mosaicos típicos da Igreja Bizantina podem representar imagens de Lênin, operários, mulheres, com bandeiras coloridas. Em lugar de se excluírem, as tradições e as etapas históricas se incorporam num patrimônio coletivo. Já ao primeiro olhar, dá para sentir, no conjunto, o apreço pelo esforço e pelo trabalho comum de séculos.

E isso tem tudo a ver com as obras da literatura russa que venho traduzindo. Pois a noção da primazia dos gênios individuais, que se tornou quase inseparável do entendimento da arte a partir da consolidação da ordem burguesa, se vê obrigada a executar torções e piruetas de circo, na tentativa de dar conta da tradição que a literatura russa pôs em circulação em nosso mundo.

Essa mesma espécie de influxo coletivo que perpassa os livros se faz sentir, de muitas maneiras, nas ruas, nas praças, nas pessoas simples – as únicas com que tive contato.

E foi numa estação de metrô, em Moscou – aliás, um sistema de transporte de massa de eficiência notável –, que eu e minha esposa nos admiramos ao deparar com dezenas de estátuas de metal de cachorros, em tamanho um pouco maior do que o natural, e distribuídas de forma a criar um efeito quase de intimidade com as pessoas em trânsito.

De repente, notamos que um dos cães tinha o focinho bem claro, a cor dourada do bronze transparecia na tinta preta gasta. A mão de uma mulher, de passagem, andando ligeiro para embarcar, envolveu o focinho entre os dedos, com delicadeza, e deslizou por toda sua extensão, como se o puxasse de leve na direção em que ela caminhava.

Dali a pouco, mais alguém – um rapaz de mochila – repetiu o gesto, agora mais afoito, no mesmo focinho, entre tantos e tantos cães, tão lindamente esculpidos em diversas posições.

Um dos maiores tradutores do russo na atualidade, Figueiredo posa para foto em frente à casa do avô de Maksim Górki, em Níjni Novgorod, descrita em sua obra "Infância"/ Arquivo pessoalUm dos maiores tradutores do russo na atualidade, Figueiredo posa para foto em frente à casa do avô de Maksim Górki, em Níjni Novgorod, descrita em sua obra "Infância"/ Arquivo pessoal

Ao contrário dos passageiros, que na Rússia, aliás, primam por andar depressa, eu e minha esposa ficamos parados. E novamente se repetiu, três, quatro vezes, o afago corrido no focinho do cachorro imóvel.

Um talismã, sem dúvida – concluímos. E, de fato, dias depois, na cidade de Níjni Nóvgorod, a estátua de um bode, em tamanho natural, numa rua larga de pedestres, tinha um dos chifres também dourado, por trás da tinha gasta.

Logo um senhor, sem mudar o ritmo dos passos, correu a mão pelo chifre e seguiu na direção de um grande teatro de marionetes. Em Níjni, como em Moscou, nesse contato físico rotineiro, mas afetuoso, havia uma integração a fundo com uma obra de arte – uma troca justa, leal: a aspiração simples a um cotidiano feliz.

No entanto, talvez se trate de uma espécie de segredo para as pessoas que andam naquela estação de metrô, de Moscou. Pois, no dia seguinte, interroguei sobre o assunto uma mulher, em outro lugar, que olhou bem para mim, com ar de curiosidade, fez um leve beicinho, um sorriso só com o canto da boca, esperou mais um instante e respondeu que não sabia de nada, pois não era naquela estação que pegava o metrô.

Ou talvez, quem sabe – permitam a fantasia –, se trate de algo precioso e que não se deve contar para desconhecidos ou estranhos. Aliás, uma impressão que tenho também, às vezes, em certas passagens dos livros russos que traduzo – a sensação de algo presente, vivido, mas que não é dito. Pois se a riqueza, toda riqueza, existe para ser compartilhada, a história parece ter ensinado aos russos, como aos latino-americanos vem tentando ensinar, que nem sempre e nem todos sabem ou aceitam dividi-la.

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