Nóbeis (finalmente) visitados pelo Brasil

Ivan Búnin (1970-1853) era contrário à intervenção em seu país, apesar de desprezar bolcheviques, mas fez ode à liberdade sueca em seu discurso à Academia.

Ivan Búnin (1970-1853) era contrário à intervenção em seu país, apesar de desprezar bolcheviques, mas fez ode à liberdade sueca em seu discurso à Academia.

País ganha tradução direta de Ivan Búnin por Boris Schnaiderman. Em tempos de crise migratória, primeiro exilado premiado pela Academia Sueca tem lição a ensinar.

A editora 34 lança, neste mês de março, seu primeiro título de Ivan Búnin (1870-1953), "O Amor de Mítia", ajudando a corrigir a enorme falha do mercado editorial brasileiro para com prêmios Nóbeis - a bielorrussa Svetlana Aleksiêvitch, contemplada no ano passado, espera até hoje a publicação de seus títulos no Brasil, encomendados a toque de caixa, enquanto prepara as malas para a próxima Festa Literária Internacional de Paraty.

Vertida ao português por Boris Schnaiderman, maior pioneiro da tradução direta no Brasil, "O Amor de Mítia" é uma novela curta publicada em 1925 que penetra na consciência de Mítia, rapaz que descobre a força e a dor do sentimento amoroso.

Foi escrita em 1924, quando Búnin já estava exilado em Paris, e publicada inicialmente em fascículos de um jornal literário de russos emigrados.

A ação da novela se inicia em São Petersburgo e em curto espaço de tempo se desloca para Oriol, ao sul de Moscou, cidade onde o autor iniciou sua vida de jornalista, aos 19 anos, na redação do jornal "O Mensageiro de Oriol".

É neste ponto que a natureza do país, descrita com precisão lírica estonteante, totalmente oposta ao modo de Gógol, é elevada a suas maiores alturas e anuncia as terríveis ambiguidades que definirão o destino do protagonista.

Lirismo exilado

Foi justamente o "dom poético" de Búnin que o secretário permanente da Academia Sueca, Per Halstroem, fez questão de ressaltar, ainda em 1933, no discurso em que se concedeu o Nobel ao russo.

Defendendo a não intervenção estrangeira em seu país, por mais que menosprezasse o movimento bolchevique, Búnin respondeu fazendo uma ode à liberdade em seu discurso à academia:

"Pela primeira vez desde a fundação do Prêmio Nobel, vocês premiaram um exilado. Quem sou na verdade? Um exilado gozando da hospitalidade da França, a quem devo um eterno saldo de gratidão. Mas, senhores da Academia, deixem-me dizer que, indiferente de minha pessoa e meu trabalho, sua escolha é, em si própria, um gesto de grande beleza. É necessário que haja centros de absoluta independência no mundo. Sem dúvida, todas as diferenças de opinião, de crenças filosóficas e religiosas estão representadas ao redor desta mesa. Mas estamos unidos por uma única verdade, a liberdade de pensamento e consciência. A essa liberdade, devemos a civilização. Para nós, escritores, especialmente, a liberdade é um dogma e um axioma. Nossa escolha, senhores da Academia, provou uma vez mais que na Suécia o amor pela liberdade é realmente um culto nacional", disse.

Sem escalas

Primeiro russo a ser agraciado com um Nobel de Literatura, em 1933, Búnin tem menos de meia dúzia de tomos publicados no país até hoje.

Se em 2014 a editora Amarilys lançou seus "Contos Escolhidos", selecionados e traduzidos por Márcia Pileggi Vinha, mestre na obra do escritor pelo programa de Cultura e Literatura Russa da USP, o país só teve acesso a sua obra no século 21 em conto selecionado para a Nova Antologia do Conto Russo (2011, também da editora 34) e na coletânea, traduzida do inglês, de Insolação (2003, editora Objetiva) - sob a mão pesada de seu admirador Graham Hettlinger, que admite ter feito ajustes formais no texto.

No século passado, os textos de Búnin saíram em dobradinha de "O Amor de Mítia" e "Processo do Tenente Ieláguin", pelas editoras Delta e Ópera Mundi, nas décadas de 1960 e 1970, e, em 1964, com tradução direta do russo pelo jornalista Osvaldo Peralva, ex-esquerdista desiludido após temporada trabalhando na URSS com os informativos do Cominform.

Assim, a tradução de Schnaiderman para a 34 vem em boa hora para o país se redimir com os Nóbeis mundiais. E o ucraniano, radicado no Brasil desde meados da década de 1920 - mesmo período em que Búnin deixou a pátria -, mostra que, beirando os cem anos de idade, continua sendo uma ponte forte entre os fãs de literatura russa e suas fontes originais.  

Fonte: DivulgaçãoVencedor do Nobel de Literatura de1933 ganha versão direta vertida por pioneiro da tradução russa. Foto: Divulgação

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