Contos completos prometem popularizar Tolstói

1908, Leo Tolstoy in front of his country house

1908, Leo Tolstoy in front of his country house

Sergey Prokudin-Gorsky
Último lançamento de obra do conde coroa produção da Cosac Naify, que anunciou fechamento na segunda-feira (30).

Três volumes, 2.080 páginas e mais de 300 histórias, cerca de 200 delas, inéditas. A caixa de contos completos de Lev Tolstói (1828-1910), lançada no final de setembro pela Cosac Naify, veio para coroar as traduções diretas da obra do conde publicadas pela editora.

Vertidos diretamente do russo por Rubens Figueiredo, 59, que já se tornou uma espécie de marca registrada das traduções de Tolstói no Brasil, a nova coleção tem o esmero formal característico da casa. Mas seu conteúdo é que traz a maior inovação para os amantes dos imortais do século de ouro da literatura russa.

"Desde suas primeiras iniciativas de escritor até os últimos anos, Tolstói sempre produziu contos. Pode-se dizer que esse era o instrumento narrativo que ele tinha pronto e à mão para atender a sua premência de intervir e questionar. O conto foi também a dimensão em que realizou as mais numerosas experimentações literárias", escreve Figueiredo na apresentação dos tomos.

Foto: Prokúdin-GórskiMeninas oferecem pratos para captação pelas lentes de Prokúdin-Górski, pioneiro da fotografia colorisa na Rússia. Foto: Prokúdin-Górski

Ele relembra que o conto remetia às velhas narrativas orais e às tradições de populações que, por vezes, desconheciam a escrita. É o caso da obra de um contemporâneo que o conde tinha em alta estima, Nikolai Leskov (1831-1895), que também convivia diretamente com os camponeses e retratava sua vida e costumes, sobretudo, em histórias curtas, mas também em peças teatrais e em numerosos artigos na imprensa.

No caso de Tolstói, porém, nobre e herdeiro de senhores de terra, sua obra, ao mesmo tempo em que sublinha os abismos da sociedade russa e retrata as parcelas excluídas, funciona como uma espécie de expurgo por suas próprias raízes elitizadas.

Mas, em meio aos clássicos de escrita tão elaborada que a marcam, como "Anna Kariênina" e "Guerra e Paz", a obra do conde de Iásnaia Poliana oferece nos contos abundantes relatos sobre as massas em linguagem simplificada.

Foto: Prokúdin-GórskiEm projeto patrocinado pelo tsar, fot[ografo percorreu rincões do país para registrar sua população. Foto: Prokúdin-Górski

"Tolstói fez incidir sobre a literatura um questionamento sem tréguas e dos mais impressionantes de que se tem notícia. O fundo de tal questionamento era, no geral, a pretensa superioridade da cultura europeia e, em particular, da literatura europeia em relação às formas narrativas ligadas à tradição agrária, tidas como arcaicas e atrasadas", escreve Figueiredo.

Assim, absorvendo a cultura das massas, com as quais esteve em contato direto inclusive nas iniciativas que organizava para a educação camponesa, os contos perdem o rebuscamento da escrita tradicional do conde.

"Em lugar de frases longas, inversões, paralelismos retóricos e fluxos de consciência tão marcantes em     'Anna Kariênina', o conto 'O prisioneiro do Cáucaso' é escrito sistematicamente com base em verbos de ação, substantivos concretos, frases curtas e ordem direta", exemplifica Figueiredo.

Em outros textos, o escritor chega a misturar ao relato ficcional técnicas de reportagem, relatos de viagem, memórias e descrições etnográficas, além da narrativa em segunda pessoa, rara em sua obra.  

O terceiro volume da caixa, por exemplo, é composto de textos que chegam a ocupar apenas meia página, em escrita simples e direta. Um prato cheio para quem sempre se assustou pela literatura superior de Tolstói.

Outros sentidos

A experiência provida pelos tomos é complementada pela escolha das ilustrações, imagens produzidas por um dos pioneiros da fotografia colorida na Rússia, Serguêi Mikháilovitch Prokúdin-Górski (1863-1944).

Enquanto algumas dessas são marcadas pela época, com moças trajando os tradicionais vestidos "sarafan" russos e oferecendo pratos de boas-vindas à captação da lente do forasteiro, e camponeses trabalhando na construção de uma barreira qualquer supervisionados por um guarda imperial, outras cenas, coloridas, ou preto e branco, parecem não ter mudado na Rússia atual.

Foto: Prokúdin-GórskiRegistros de Prokúdin-Górski coincidem com personagens da produção de Tolstói. Foto: Prokúdin-Górski

São imagens de florestas, estradas de ferro cobertas de neve, homens e mulheres trabalhando no campo, rios, rapazes vestindo trajes típicos daguestaneses. Gente de todas as esferas do mundo russo, como nas próprias histórias que a coleção traz pela pena de Tolstói.

E, em meio a essa seleção, claro, não faltou registrar o conde e sua propriedade.

Também proveniente de uma família de nobres, Prokúdin-Górski foi o único a produzir uma foto a cores de Tolstói - o cientista desenvolveu equipamentos e um método que gerava fotografias coloridas por meio da superposição de três chapas de vidro coloridas.

Depois disso, sob o patrocínio do tsar Nikolai 2°, percorreu a Rússia registrando cerca de 10 mil imagens do povo russo nos rincões do país.

Algumas dessas recheiam os três tomos e, além da experiência visual, conferem ainda outra sensação ao leitor: a do olfato, com o forte odor de tinta que a impressão primorosa exala. 

 

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