A involução do “Homo soviéticus”

Obras de Alexievich nunca foram editadas no Brasil

Obras de Alexievich nunca foram editadas no Brasil

Reuters
A escritora e jornalista bielorrussa Svetlana Alexievich recebeu esta semana o Prêmio Nobel de Literatura. Confira abaixo uma entrevista de 2013 na qual a escritora fala sobre o principal objeto de suas obras: o “homem vermelho” que resistiu à queda da URSS.

Svetlana Aleksievitch nasceu na cidade ucraniana Stanislav, atual Ivano-Frankivsk, mas foi criada na Bielorrússia. Lá estudou jornalismo na Universidade de Minsk. Suas diversas obras, fundamentalmente focadas na sociedade da URSS e pós-soviética, são baseadas em entrevistas e testemunhos, sendo um misto de literatura e jornalismo.

Ao vencer o Nobel de Literatura esta semana, Aleksievitch se tornou a primeira escritora de língua russa a ganhar o prêmio literário mais importante do mundo em 28 anos. Entre os seus principais livros figuram War's Unwomanly Face (“Face não feminina da guerra”, em tradução livre), “O Homem Vermelho, A Voz da Utopia”, “Vozes de Chernobyl” e “Tempo de segunda mão”.

Em seu livro “Tempo de segunda mão”, você explora a vida do socialismo na alma humana. Como é isso?

Exploro o socialismo “doméstico”. Todo o socialismo oficial desapareceu junto com seus rituais e instrumentos, mas permanece nas profundezas do ser. Há 20 ou 25 anos, pensamos, de uma maneira corajosa e ingênua, que seria fácil se livrar dessa experiência terrível, quase desumana. Mas acontece que não é. O “homem vermelho” ainda vive em nós.

Esse “homem vermelho interno”, segundo testemunhos reunidos em seu livro, parece uma criatura complicada...

Acho que lidamos muito mal com isso no passado. Tudo foi destruído sem pensar seriamente sobre os planos para o futuro. Não faço apologia à era soviética, mas acho que é terrível não termos analisado o valor das coisas pelas quais derramou-se sangue. Pessoalmente, prefiro uma sociedade com valores sociais e democráticos.

Vivi na Suécia durante anos e pude observar os benefícios à disposição das pessoas, a administração do Estado e a igualdade social. Não seria um desenvolvimento assim mais natural do que aquele que vivemos?

Por que a experiência do “homem vermelho” cedeu de repente ao hedonismo?

Creio que não estamos totalmente desenvolvidos na esfera cultural. Todas as nossas energias são dirigidas a conseguir algum tipo de poder, a conseguir alguma coisa, mas ninguém se pergunta como organizar sua vida, sua alma.

Com o que estamos gastando as nossas energias agora? Em proteger os sentimentos dos fiéis? Mas ninguém está roubando igrejas. E o debate sobre gays? Mas ninguém impediu um adulto de decidir como viver sua vida. Talvez, deveríamos direcionar essas energias cívicas para aprendermos a viver juntos e aproveitarmos a vida.

Como você encontrou entre tantas vozes a ideia principal do seu livro, isto é, de que estamos vivendo “um tempo de segunda mão”?

Há 35 anos venho escrevendo uma série de cinco livros chamado “O Homem Vermelho, A Voz da Utopia”. “Tempo de segunda mão” é o último deles. Trata-se de uma metáfora para a nossa incapacidade perante o novo.

Não fomos capazes de viver essa nova vida, não encontramos força para fazê-lo, ou para ter ideias, desejos, experiência. Durante a perestroika, acreditávamos que era uma questão de falar e, assim, teríamos liberdade. Mas descobriu-se que a liberdade requer muito esforço.

De algum modo, sempre acreditamos que, se derramarmos nosso sangue por grandes ideais, chegaremos a algum tipo de nova vida. Esse tipo de esperança está muito presente na literatura russa. Mas “nova vida” requer um longo e enfadonho trabalho. Os “tempos de segunda mão” são tempos de preconceitos muito, muito antigos.

A Europa tem milhares de pequenos grupos e comunidades, e sempre estão debatendo como melhorar as suas cidades e casas, como educar os filhos, como ajudar as pessoas que passam fome na África. Passar o tempo dessa maneira produz uma alma mais elevada. E nós não. Por alguma razão, o ódio só cresce.

Mais uma vez, estamos fazendo a única coisa que sabemos: determinar se alguém “é o inimigo ou amigo”. É assim que pensa metade do país.

Se recebemos essa herança difícil e não somos capazes de recuperar o atraso em padrões de comportamento, como pode nascer um “homem interior” diferente?

A Rússia é enorme. É impossível controlar tudo e nivelar as experiências de liberdade. Estão aparecendo pessoas novas, com coragem cívica. A nova geração tem ideias diferentes sobre as questões. Mas para esses jovens será difícil dominar essa experiência em relação à liberdade, e os intelectuais devem iniciar um diálogo com eles. Hoje temos vozes como as de Ulítskaia e Akunin. Na Rússia, também temos figuras culturais como Olga Sedakova. Estou convencida de que há mais pessoas como essas do que se imagina...

O “Homo soviéticus” não existe mais?

Muitos dos heróis do meu livro, quando seus amigos foram presos por “samizdat” (editoração de livros proibidos), acreditavam que a coisa mais importante era abrir uma porta para a liberdade. Mas, quando essa porta se abriu, as pessoas correram na direção oposta.

Elas querem se vestir e ir para Antália [cidade turística na Turquia] de férias. Em cada uma dessas pessoas bem vestidas surgiu um monstro terrível. Não estamos prontos para essa mudança. Uma coisa é lutar contra um enorme monstro e vencê-lo, mas outra bem diferente é descobrir que ele tinha centenas de descendentes. Em alguns aspectos, é pior, e não temos as habilidades culturais para lidar com ele.

Passaram-se mais de 20 anos, e o silêncio dos intelectuais e da elite têm que acabar. É hora de falar abertamente.

Com material da Rossiyskaya Gazeta

 

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