Marechal Paulus, um nazista pago pela URSS

O marechal de campo Friedrich Paulus no quartel-general do Exército Vermelho para interrogatório. Rússia, 1 de março de 1943.

O marechal de campo Friedrich Paulus no quartel-general do Exército Vermelho para interrogatório. Rússia, 1 de março de 1943.

AP
Friedrich Paulus (1890-1957), comandante do 6° Exército Alemão na Segunda Guerra Mundial, perdeu a Batalha de Stalingrado e foi capturado em 1943. Sua história a partir daí, porém, é pouco conhecida: o governo soviético o convenceu a deixar Hitler e trabalhar como propagandista em Moscou.

Em janeiro de 1943, a derrota do exército nazista na Batalha de Stalingrado era óbvia. Esse embate monumental que mudou o curso da Segunda Guerra Mundial durou seis meses e meio.

A URSS perdeu mais de um milhão de soldados, enquanto as baixas alemãs ficaram em 950 mil. O Sexto Exército sob o comando do tentente general Friedrich Paulus foi cercado e destruído.

Foi nesse cenário que o Führer Adolf Hitler promoveu Paulus ao segundo mais alto posto militar, o de marechal de campo. E em sua última mensagem àquele, Hitler deixou uma ordem clara: “Nenhum marechal de campo alemão na história foi feito prisioneiro”. Somente por essas linhas, é possível inferir que Hitler esperava que Paulus se suicidasse, mas o marechal de campo escolheu a vida e se rendeu em 31 de janeiro de 1943.

Fonte: YouTube/sovetarhiv

Para Moscou, a rendição de Paulus foi importante não apenas em termos de prestígio. Depois da invasão nazista, o governo soviético, junto aos comunistas alemães que buscaram refúgio na URSS nos anos 1930, quando os nazistas tomaram o poder, tentaram criar uma organização antifascista de prisioneiros de guerra.

Depois da derrota em Stalingrado, que minou a crença alemã na vitória, quase 91 mil soldados da Wehrmacht foram feitos prisioneiros.

Em julho de 1943, a URSS formou o Comitê Nacional para uma Alemanha Livre e, depois, a União de Oficiais Alemães, sob a supervisão do general capturado Walther Kurt von Seydlitz-Kurzbach.

Para uma propaganda antinazista de êxito, porém, Kurzbach não era o suficiente. O governo precisava de um alemão que gozasse de muita fama, alguém como Paulus.

Paulus em Kriegsgefangenschaft. / Foto: WikipediaPaulus em Kriegsgefangenschaft. / Foto: Wikipedia

O destino de um marechal de campo

Aqueles que conviveram com Paulus os caracterizavam como um soldado responsável e cuidadoso. Mas, como escreveu o historiador alemão Joachim Wieder em “Catástrofe no Volga”, ele não era um comandante de destaque e se sentia mais confortável realizando tarefas de apoio do que no comando de um exército em guerra.

Paulos era um oficial de apoio notável, e participou, por exemplo, no desenrolar da famigerada Operação Barbarossa, ou seja, a invasão da URSS.

Durante a guerra, Paulus serviu, até Stalingrado, como chefe de apoio, praticamente fazendo o trabalho burocrático de documentos no fronte. “A ordem de nomear Paulus como comandante do Sexto Exército em 1942 foi um erro fatal. Antes disso, ele não havia comandado sequer um regimento”, escreve Wieder.

Outro ponto fraco de Paulus, segundo Wieder, era sua crença cega em Hitler. Sua recusa em cometer suicídio foi o primeiro caso em que um oficial se recusou a seguir a ordem do Führer.

Mesmo assim, quando feito prisioneiro, o marechal de campo disse que continuava a ser um nacional-socialista.

Quando descobriu sobre a criação da União Antifascista dos Soldados Alemães, Paulus, incialmente, “condenou veementemente a união e renunciou, por escrito, a todas as associações de prisioneiros de guerra que em que havia se inscrito”, diz o historiados Mikhail Burtsev.

Em 8 de agosto de 1944, um ano e meio depois de ser feito prisioneiro, Paulus disse aos soldados da Wehrmacht na Rádio Alemanha Livre: “Para a Alemanha, a guerra está perdida. Esta é a condição a que o país chegou sob o comando de Adolf Hitler. A Alemanha deve renunciar a Hitler”. Foto: ArquivoEm 8 de agosto de 1944, um ano e meio depois de ser feito prisioneiro, Paulus disse aos soldados da Wehrmacht na Rádio Alemanha Livre: “Para a Alemanha, a guerra está perdida. Esta é a condição a que o país chegou sob o comando de Adolf Hitler. A Alemanha deve renunciar a Hitler”. Foto: Arquivo

Reviravolta

Paulus logo mudou de ponto de vista. Para isso, porém, foi manipulado psicologicamente.  Na datcha Dubrovo, próximo a Moscou, ele era constantemente chamado a se aliar à URSS.

Entção, os Aliados abriram uma segunda frente e o Terceiro Reich sofreu grandes perdas na África, assim como em Kursk.

A execução na Alemanha de um amigo de Paulus, general marechal de campo Erwin von Wirzleben, devido a sua participação, em julho de 1944, em uma conspiração contra Hitler, também o influenciou.

Em 8 de agosto de 1944, um ano e meio depois de feito prisioneiro, Paulus fallou à Rádio Alemanha Livre e se dirigiu aos soldados da Wehrmacht: “Para a Alemanha, a guerra está perdida. Esta é a condição a que o país chegou sob o comando de Adolf Hitler. A Alemanha deve renunciar a Hitler”.

Propaganda soviética

Este foi o primeiro de muitos discursos de Paulus contra Hitler. Ele se uniu às fileiras da União dos Oficiais Alemães e falou ao povo alemão muitas vezes. Como explica o historiador Vladímir Markovin, Paulus chegou até a pedir um encontro pessoal com Stálin, mas o pedido foi recusado.

Um dos discursos mais poderosos de marechais de campo antinazistas foi o de Paulus durante os Julgamentos de Nuremberg, em fevereiro de 1946. / Foto: WikipediaUm dos discursos mais poderosos de marechais de campo antinazistas foi o de Paulus durante os Julgamentos de Nuremberg, em fevereiro de 1946. / Foto: Wikipedia

Um dos discursos mais poderosos de marechais de campo antinazistas foi o de Paulus durante os Julgamentos de Nuremberg, em fevereiro de 1946.

Como participante da Operação Barbarossa, ele foi testemunha importante no caso contra os generais Wilhelm Keitel e Alfred Jodi - ambos executados.

Depois de Nuremberg, Paulus voltou à URSS, onde viveu em uma datcha próxima a Moscou sem direito de deixar o país. Até a morte de Stálin, em 1953, seus diversos pedidos para retornar à Alemanha foram negados, o que levou à continuidade de seu trabalho para o governo soviético.

Paulus chegou a ser o consultor principal do filme de Vladímir Petrov “A batalha de Stalingrado” (1949). Depois da morte de Stálin, Paulus pode deixar a URSS e se mudou para Dresden, na Alemanha Oriental, onde morreu doente em 1957.

Fonte: YouTube/RobertHJacksonCenter

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