O papel russo na Guerra Civil dos EUA

Marinheiros russos que faziam parte de expedição naval enviada aos EUA em 1863, após retorno à Rússia

Marinheiros russos que faziam parte de expedição naval enviada aos EUA em 1863, após retorno à Rússia

Getty Images
As relações russo-americanas nem sempre foram tão amargas e tensas quanto hoje. Durante a Guerra Civil Americana, a Rússia apoiou a União sobretudo porque seu principal inimigo geopolítico na época era a Grã-Bretanha, que simpatizava com a Confederação. Além disso, os EUA e a Rússia gozaram de boas relações na primeira metade do século 19, apesar de possuírem sistemas políticos muito diferentes.

Embora a Guerra Civil dos Estados Unidos tenha terminado há mais de 150 anos, o conflito ainda gera polêmica. Os acontecimentos recentes em Charlottesville, no estado da Virgínia, onde os desentendimentos sobre a retirada de um monumento de um soldado confederado provocaram tumulto e até morte, são apenas um exemplo.

A Guerra Civil foi, sem dúvida, um divisor de águas na história americana, e os líderes da Rússia, embora longe das batalhas, as acompanhavam de perto e, eventualmente, exerceram um papel pequeno, porém vital, para a vitória do norte.

Império Russo do lado da União

Desde o início da guerra, a Rússia expressou total apoio ao governo de Abraham Lincoln, alegando se tratar da única autoridade legítima em solo americano.

“A Rússia deseja, acima de tudo, a manutenção da União Americana como uma nação indivisível”, escreveu o ministro dos Negócios Estrangeiros Aleksandr Gortchakov, em 1862, para Bayard Taylor, secretário da embaixada dos EUA em São Petersburgo.

Entre outros países europeus, apenas a Suíça apoiou a União com tanto vigor. Paralelamente, os líderes das duas principais potenciais europeias na época – Grã-Bretanha e França – discutiam a possibilidade de intervenção do lado da Confederação, mas depois abandonaram a ideia e resolveram permanecer neutros.

Em sua carta para Taylor, Gortchakov dá a entender que seu país havia recebido a proposta para se juntar à coalizão que apoiaria a Confederação, mas a rejeitara.

Navios russos em NY e São Francisco

Navios de guerra russos em Nova York retratados pela ‘Harpers Weekly’, em 1863 (Foto: Arquivo)Navios de guerra russos em Nova York retratados pela ‘Harpers Weekly’, em 1863 (Foto: Arquivo)

O papel da Rússia na Guerra Civil dos EUA foi mais palpável do que um mero apoio diplomático. Em setembro de 1863, uma frota russa com seis navios de guerra dirigiu-se para a costa leste da América do Norte, e outra para a costa oeste. Baseadas em Nova York e em São Francisco, as embarcações patrulhavam as áreas circundantes e a ajudavam prevenir ataques repentinos em cidades portuárias cruciais para a União.

Tanto os cidadãos como o governo da União recepcionaram calorosamente a Marinha russa; segundo testemunhas da época, os norte-americanos estavam ansiosos para ver os marinheiros e oficiais russos e também convidá-los para banquetes e celebrações.

“A Rússia enviou suas frotas para as águas americanas como uma expressão de sua simpatia pela causa da União”, escreveu, em 1908, o historiador americano James Callahan. Mais tarde, porém, descobriu-se que a verdade era ainda mais complicada.

Por que o tsar simpatizava com Washington?

A Rússia não estava muito preocupada com o conflito interno nos Estados Unidos, embora o próprio Aleksandr 2º tivesse ficado famoso por abolir a servidão em 1861, apenas dois anos antes de Lincoln abolir a escravidão.  Segundo o historiador Nikolai Bolkhovitinov, a Rússia tinha, entretanto, razões pragmáticas para apoiar o Norte.

A segunda metade do século 19 foi um momento difícil para as relações internacionais da Rússia. Depois de perder a Guerra da Crimeia (entre 1853 e 1856) para a aliança da Grã-Bretanha, da França e do Império Otomano, a Rússia enfrentou outro grande desafio alguns anos depois. Em 1863, houve um levante nas regiões da antiga República das Duas Nações então sob a dominação russa.

Inspirados pela recente derrota militar da Rússia, os poloneses tentavam recuperar sua independência, e a Grã-Bretanha e a França estavam, inclusive, considerando a possibilidade de intervenção para ajudá-los.

Para Bolkhovitinov, a transferência de parte da Marinha russa para a América teria sido positiva para o país em caso de guerra contra as potencias europeias. Por estarem baseados em portos neutros, os navios de guerra russos poderiam atacar mais facilmente navios britânicos e franceses no Atlântico e no Pacífico. Mas isso não foi necessário porque a Grã-Bretanha e a França não apoiaram o levante polonês, e esses foram esmagados pelas tropas russas.

Diferentes objetivos, interesse comum

Tripulação da fragata russa Osliaba durante a Guerra Civil Americana em Alexandria, no estado da Virgínia, em 1863 (Foto: Getty Images)Tripulação da fragata russa Osliaba durante a Guerra Civil Americana em Alexandria, no estado da Virgínia, em 1863 (Foto: Getty Images)

A pesquisa em arquivos do governo russo comprova que Bolkhovitinov está certo – embora a cooperação entre os países tenha sido crucial para a causa da União, a Rússia apoiou os EUA apenas de forma pragmática, e não por lealdade a suas ideias.

Com a ajuda russa, porém, a União podia ficar mais tranquila, já que suas águas costeiras estavam seguras: sem a Marinha russa, os dois portos estratégicos de Nova York e São Francisco poderiam ter sido atacados e gravemente danificados, o que, por sua vez, seria um grande golpe para os esforços e a moral da União durante a guerra.

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