Em busca da biblioteca de Ivan, o Terrível

Alguns acreditam que coleção do temido tsar estaria em Moscou.

Alguns acreditam que coleção do temido tsar estaria em Moscou.

Varvara Grankova
Coleção teria livros antigos lendários e intriga arqueólogos há séculos. Não há, porém, sequer prova de que ela existiu.

A história de uma suposta biblioteca perdida de Ivan, o Terrível remonta a muitos séculos atrás. Ela começa com a conquista de Constantinopla pelos turcos, no século 15, e a derrubada do Império Bizantino.

Quando desses eventos, muitos gregos ortodoxos fugiram, entre eles Thomas Paleólogo, irmão do último imperador bizantino, Constantino XI (1404-1453).  Thomas se refugiou em Roma, mas, segundo reza a lenda, não antes de juntar os livros que haviam pertencido a cada imperador bizantino e levá-los consigo.

Esta biblioteca continha quase 800 livros, entre eles obras-primas da literatura grega e romana, e foi herdada pela filha de Thomas, Sofia Paleóloga, que mais tarde trocou Roma pela Rússia e casou-se com Ivan III, Grão Príncipe de Moscou e avô de seu homônimo “terrível”.

Ela teria sido a responsável por levar ao país boa parte da biblioteca do último.

O tesouro do terrível

O neto de Sofia não apenas teria herdado essa coleção, mas expandido a mesma com manuscritos colhidos por seus homens por toda a Europa.

Após sua morte, em 1584, a biblioteca desapareceu sem deixar rastros. É o que relatam pesquisadores como o historiador do século 19 de Derpt (hoje, Tartu, na Estônia), Christopher von Dabelov. Ele afirmava ter tido acesso a uma lista de manuscritos da coleção perdida.

O rol incluiria 142 volumes de “História de Roma”, de Tito Lívio, cujo conteúdo é conhecido apenas parcialmente pelos historiadores, que estão familiarizados com 35 desses. Além disso, consta da lista uma versão completa de “De re publica”, de Cícero, que tem apenas fragmentos nas bibliotecas ocidentais, e um poema desconhecido de Virgílio, entre outros.

Boato sem fundamento?

Alguns especialistas são, porém, céticos quanto à existência desse tesouro. O professor de história da Universidade estatal de São Petersburgo, Aleksandr Filiuchkin, é um deles.

“Em primeiro lugar, é muito improvável que a família de Thomas Paleólogo, ao fugir para Roma, não tenha vendido pelo menos uma parte da biblioteca para juntar dinheiro. Além disso, nenhuma das fontes que cita a biblioteca é totalmente confiável. Von Dabelov, por exemplo, que se gabava de ter encontrado a lista, não a mostrou a ninguém”, disse Filiuchkin ao jornal russo Komsomolskaia Pravda.

Algumas crônicas europeias dos séculos 16 a 18 mencionavam, porém a lendária biblioteca. Mas, mesmo que ela tenha existido, há pesquisadores que acreditam que ela teria sido destruída.

Moscou passou por enormes incêndios  durante os séculos 16 e 17 (em 1547, 1571 e 1656), que poderiam ter transformado os livros em cinzas.

Outra hipótese ainda mais maluca é a de que os poloneses que invadiram a Rússia no início do século 17 foram cercados no Kremlin de Moscou e ficaram sem comida, por isso eles molharam as capas de couro dos manuscritos e as comeram, destruindo o que restou. 

Além de acreditar que o Kremlin de Moscou ainda esconde a biblioteca, outros caçadores de tesouros supõem que ela poderia estar em Vologda, cidade preferida de Ivan, 465 quilômetros a norte da atual capital, ou no Kremlin de Aleksandrov (121 quilômetros a nordeste de Moscou), onde ele viveu de 1565 a 1584.

Mas, apesar de analisarem diversos locais em busca da coleção, arqueólogos e entusiastas ainda não encontraram sequer pista de sua locação ou de sua real existência.

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