Décadas de investigação e nenhuma certeza

Membros da família imperial, como o tsar Nikolai II, foram canonizados pela Igreja Ortodoxa Russa

Membros da família imperial, como o tsar Nikolai II, foram canonizados pela Igreja Ortodoxa Russa

AP
Possíveis sobreviventes em massacre dos Romanov ainda atormentam investigadores e alimentam lendas sobre o que realmente aconteceu com a família real em 1918.

Na versão oficial a família do tsar Nikolai II foi assassinada, mas a noite de 16 para 17 de julho de 1918 continua cercada das mais diversas lendas. A dúvida sobre a possível fuga de um dos presentes permanece enquanto a investigação se estende por décadas.

Como foram descobertos os restos mortais?

Os restos mortais dos cinco membros da família do tsar e seus criados foram encontrados nos arredores de Iekaterinburgo, nos Urais, apenas em 1991. Entre eles, porém, não foram identificados os do príncipe Alexei nem da grã-princesa Maria.

Na época, os especialistas se dividiram quanto às descobertas: uns defendiam que as ossadas eram da família do tsar, mas outros negavam veemente. A Procuradoria-Geral da Rússia conduziu uma investigação que levou à identificação dos restos mortais, posteriormente depositados na Catedral de São Pedro e São Paulo, em São Petersburgo.

Por que continuar investigando?

As ossadas dos dois membros que faltavam, Aleksêi e Maria, foram encontradas em 2007. Desde então, estão preservadas no Arquivo Nacional da Rússia, embora haja o desejo de uni-las ao restante família imperial, na Catedral de São Pedro e São Paulo.

Tsar Nicholas II (1868-1918), the last emperor of Russia, in 1914, with his wife Alexandra and his children Olga, Tatiana, Maria, Anastasia, and Alexei. The Romanovs became victims of the 1917 Russian revolution. Inbreeding was common among royal families. Foto: Getty Images
Tsar Nikolai II (centro), último imperador da Rússia, em 1914, com sua esposa Aleksandra e seus filhos Olga, Tatiana, Maria, Anastassia e Aleksêi Foto: Getty Images

Em novembro passado, o processo foi transferido para a competência do Departamento de Assuntos Especiais. Uma análise genética foi realizada após a exumação dos restos mortais do tsar Aleksandr III, pai de Nikolai II.

E as investigações no passado?

Duas outras investigações foram realizadas. A primeira, liderada por três investigadores do Exército Branco – Nametkin, Sergueev e Sokolov –, reuniu uma grande quantidade de material, que veio a ter um papel fundamental nas investigações posteriores.

A segunda foi iniciada em 1993, quando o então procurador-geral da Rússia abriu um processo criminal relacionado com o trágico acontecimento. Na legislação russa não existe prescrição de homicídios em primeiro grau.

Qual é a importância das investigações para a Igreja Ortodoxa Russa?

No ano 2000, a Igreja Ortodoxa Russa canonizou os membros da família imperial. Portanto, é essencial que não haja qualquer deslize quanto à autenticidade dos restos mortais que depositados na Catedral de São Pedro e São Paulo.

A Igreja, porém, apoia a posição do historiador Veniamin Alekseev, da Academia Russa das Ciências, que duvida que os restos mortais de Iekaterinburgo pertençam à família do tsar.

Há motivo para desconfiança?

Segundo Sokolov, do Exército Branco, uma criada teria declarado que levou almoço às filhas de Nikolai II depois da suposta data do fuzilamento.

As apurações também mostram que as autoridades soviéticas mantinham conversações com diplomatas alemães sobre a “preservação da vida da família imperial”.

Ganina Yama (Ganya’s Pit). Investigator Nikolai Sokolov at the site of a bonfire. Foto: Archive photoDescobertas do investigador Nikolai Sokolov foram usadas em investigações posteriores Foto: Arquivo

Apoiando-se nas palavras de colegas estrangeiros, o acadêmico afirma que a princesa Olga recebeu do chanceler alemão Guilherme II, seu padrinho, uma pensão até 1941.

Outro fato a se pensar: junto aos restos mortais de Aleksêi e Maria foram também encontradas moedas de 1930.

E se tudo isso não passar de um engano?

Por enquanto, para cada um dos argumentos há um contra-argumento: por exemplo, a criada poderia ter deliberadamente se “confundido”, já que os bolcheviques queriam manter em segredo o assassinato da família imperial, e até por isso prolongaram as conversações com os alemães. Já as moedas, podem ter penetrado na terra depois do enterro dos restos mortais.

Algum membro da família imperial teria então sobrevivido?

É uma das versões. Há quem considere que as ossadas foram falsificadas pelo poder soviético para afastar qualquer possibilidade de salvação de familiares do tsar.

Uma norte-americana chamada Anna Anderson se fez passar pela grã-princesa Anastassia, enganando o próprio grã-príncipe Andrêi, primo de Nikolai II. Os demais membros da casa imperial divulgaram uma “Declaração dos Romanov”, na qual negaram qualquer grau de parentesco com Anna.

Houve outros impostores?

Pelo menos, 230. Sabe-se, pelo menos, de 34 Anastassias, 53 Marias, 33 Tatianas e 28 Olgas. Quem teve mais “clones”, foi Aleksêi – 81. Duas mulheres, chamadas Aleksandra e Irina, se fizeram passar por filhas de Nikolai II, mesmo considerando que o tsar jamais teve descendentes com tais nomes.

Acredita-se que a família imperial tenha deixado dinheiro em bancos europeus, motivo pelo qual muitos impostores foram atraídos pela história. Anderson, a farsante dos EUA, chegou a entrar com processos contra vários bancos durante quase 40 anos, mas não obteve sucesso.

 

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