Cartilhas russas, da Idade Média à URSS (passando por Tolstói)

Cartilha de Aleksandra Voskresenskaia era um dos livros mais populares nas escolas rurais da era soviética.

Cartilha de Aleksandra Voskresenskaia era um dos livros mais populares nas escolas rurais da era soviética.

Editora "UTchPedgIz"
Livros superaram influências religiosas e ideológicas e raridades incluem título escrito pelo conde mais amado da literatura mundial

A “Azbuka” (cartilha) de Ivan Fiôdorov / Foto: Rarus's GalleryA “Azbuka” (cartilha) de Ivan Fiôdorov / Foto: Rarus's Gallery

A primeira cartilha eslava de todos os tempos apareceu no século 16, escrita pelo “Gutenberg russo” Ivan Fiôdorov. Seu principal objetivo era publicar livros religiosos, como a Bíblia, o Evangelho e os Salmos, mas ele também publicou um livro sobre o alfabeto em 1574 e até uma edição revisada posteriormente. 

A cartilha de Vassíli Burtsov, 2° edição,1637. / Foto: www.edu.ruA cartilha de Vassíli Burtsov, 2° edição,1637. / Foto: www.edu.ru

No século 17, houve várias tentativas de inventar novas cartilhas usando um método para leitura de letras, apesar de se usar, desde o século 19, outro método, mais contemporâneo, de fonêmica progressista. Pelo último, lê-se os sons pelas letras.

Seguindo as tradições de Ivan Fiôdorov, Vassíli Burtsov foi um dos primeiros a acrescentar ilustrações em uma cartilha.  

“Palavra nativa”, de Konstantín Ushínski. / Foto: Arquivo“Palavra nativa”, de Konstantín Ushínski. / Foto: Arquivo

Em 1864, Konstantín Ushínski foi responsável por uma revolução no ensino do alfabeto e lançou o primeiro livro didático de grande tiragem para crianças usando ambos os métodos: o fonêmico e um dicionário explicativo.

Pioneiro em pedagogia, ele também acrescentou um guia para professores sobre como usar o livro. Sua cartilha, que foi reeditada diversas vezes, foi utilizada até 1917. É possível encontrá-la digitalizada sem dificuldades na internet. A cartilha de Lev Tolstói. / Foto: ArquivoA cartilha de Lev Tolstói. / Foto: Arquivo

O conde Lev Tolstói foi um aprendiz incansável e tentava aprender algo novo todos os dias. Além de escritor, ele foi famoso como educador, e acreditava que educar as crianças era fundamental.

Tolstói escreveu sua própria cartilha, que ensinava a ler, escrever, contar e tinha notas para os professores sobre como utilizá-la. A primeira edição do livro foi alvo da crítica, por isso Tolstói a reescreveu e a nova versão foi recomendada pelo governo para todas as escolas.

Na propriedade de Tolstói em Iásnaia Poliana, ele criou uma escola para os filhos dos camponeses, onde ele e seus filhos mais velhos ensinavam as crianças usando a cartilha escrita pelo conde. 

A cartilha soviética de Maiakóvski./ Foto: ArquivoA cartilha soviética de Maiakóvski./ Foto: Arquivo

Com a Revolução Russa de 1917, um novo regime chegou ao poder, e o alfabeto também mudou, com algumas letras a menos. O poeta revolucionário Vladímir Maiakóvski escreveu uma das primeiras cartilhas lançadas sob as novas normas, em 1919.

Um alfabeto satírico em versos (com “B” de “bolchevique”, por exemplo), ela continha caricaturas de cada letra. Seu público-alvo eram os trabalhadores e os soldados do Exército Vermelho. 

 “Abaixo o analfabetismo”, de Dora Iôlkina. / Foto: Arquivo “Abaixo o analfabetismo”, de Dora Iôlkina. / Foto: Arquivo

Até a Revolução Russa de 1917 a educação não era obrigatória. Obviamente, muita gente mais aberta e da classe média fazia seus filhos estudarem, fosse em escolas ou com tutores particulares, e havia também escolas para crianças camponesas.

Mas uma campanha massiva para erradicar o analfabetismo em adultos e crianças foi lançada apenas durante a era soviética. A cartilha “Abaixo o analfabetismo”, de Dora Iôlkina, publicada em 1919, explicava as letras por meio da ideologia soviética: “Não somos escravos” ou “liberdade a todas as nações”. O livro era ilustrado com cenas do dia a dia proletário.

A cartilha de Serguêi Redozubov. / Foto: ArquivoA cartilha de Serguêi Redozubov. / Foto: Arquivo

Uma das cartilhas mais disseminadas  no período foi a escrita por Serguêi Redozubov para escolas urbanas (as rurais normalmente usavam outros livros). Era um livro mais complicado, com poemas e interpretações fáceis de contos russos.

Lançada em 1945, após o final da Segunda Guerra, ela continha cenas de uma vida pacífica e empurrava menos propaganda pela goela infantil do que os livros do despertar soviético. Redozubov também criou uma cartilha no sistema de escrita Braille para crianças cegas. 

A cartilha de Aleksandra Voskresenskaia./ Foto: Editora "UTchPedgIz"A cartilha de Aleksandra Voskresenskaia./ Foto: Editora "UTchPedgIz"

Um dos livros mais populares nas escolas rurais era a cartilha de Aleksandra Voskresenskaia. Ele explicava a vida rural às crianças, assim como os tipos de animais e vegetais. 

A cartilha de Vseslav Gorétski./ Foto: Editora Prosveshchênie A cartilha de Vseslav Gorétski./ Foto: Editora Prosveshchênie

Um dos livros mais populares no final da era soviética era a cartilha de Vseslav Gorétsky, cuja primeira edição saiu em 1971. Seus livros didáticos ainda são amplamente difundidos e impressos na Rússia. A cartilha tem desenhos engraçados, poemas de grandes autores, como Púchkin, Tchukóvski e Maiakóvski, e é ilustrada com os personagens favoritos de desenhos animados russos.  

A cartilha de Nadêjda Júkova. / Foto: Editora EksmoA cartilha de Nadêjda Júkova. / Foto: Editora Eksmo

Atualmente, a cartilha best-seller russa é a de Nadêjda Júkova, lançada em 1999. A autora é uma especialista em “terapia da fala” com  mais de 30 anos de experiência. O livro ensina, de maneira engraçada, as crianças a ler e a evitar erros gramaticais.

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