Visão humanista da vida soviética chega a São Paulo

A velhinha Foto: Vladímir Lagrange

A velhinha Foto: Vladímir Lagrange

Ícone da fotografia soviética, Vladímir Lagrange comanda visita guiada em abertura de sua primeira individual em São Paulo, após passagens por Rio de Janeiro e Belo Horizonte.

"Pela primeira vez na vida, atravessarei a Linha do Equador e o Oceano. Talvez eu veja o Cruzeiro do Sul." Foi assim, com poesia, que o premiado fotógrafo russo Vladímir Lagrange previu a primeira visita para mostrar sua obra no Brasil, no início de 2014.

Agora, São Paulo é quem recebe as obras do fotógrafo pela primeira vez. Entre 25 de julho e 20 de setembro, a Caixa Cultural da capital paulista abriga a exposição "Assim Vivíamos". São 65 imagens em preto e branco escolhidas a dedo, que mostram cenas do cotidiano da antiga União Soviética.

Marcando a abertura, Lagrange fará uma visita guiada com o curador da mostra, Luiz Gustavo Carvalho, no primeiro dia de visitação, às 11h, para falar sobre sua obra e o papel da fotografia russa na segunda metade do século 20. 

“A mostra é uma ótima oportunidade para o público conhecer mais profundamente o cotidiano da antiga União Soviética por meio de uma testemunha sensível e direta. Na obra de Lagrange, encontram-se drama e humor, além de uma perene compaixão pelo ‘homem simples’, retratado pelo fotógrafo por meio de uma linguagem visual profunda e singular”, dizCarvalho.

Carvalho, que é pianista, conheceu a obra de Lagrange em 2007, durante os quatro anos em que viveu em Moscou. "Lagrange é um fotógrafo russo de extrema importância para o entendimento da sociedade soviética após a morte de [Iosif] Stalin [em 1953]".

Senso de humor humanista

O desejo de Carvalho de trazer a obra de Vladímir Lagrange para o Brasil surgiu após outra exposição curada por ele nos últimos anos, a do fotógrafo lituano Antanas Sutkus.

"A ideia de mostrar a arte de Lagrange veio quase como um complemento a essa exposição, no sentido de que Sutkus oferece uma visão da União Soviética desde um país dominado, enquanto Lagrange traz a visão de dentro da Rússia".

Ambos seguem a tradição humanista. Lagrange mostra, sempre com muito respeito, o cidadão comum da União Soviética com um toque de humor de maneira sutil.

Na análise de Carvalho, esse aspecto constitui outro ponto forte. "O senso de humor é algo delicado porque, na fotografia, pode cair muito facilmente na paródia, na anedota, na caricatura. E de uma maneira perspicaz, sempre guardando o humanismo, as obras dele não caem nestes domínios."

É aí que entra a sensibilidade deste fotógrafo, tão notável quanto sua técnica.

"O dinamismo com o qual ele compõe as imagens é muito interessante. Elas são extremamente elaboradas, inclusive no que diz respeito à geometria das formas. O jeito como ele brinca com os contrastes e as perspectivas também é muito particular", explica Carvalho.

A vida em preto e branco

Nascido em 1939, Lagrange iniciou a carreira aos 20 anos, em uma época em que não havia bons filmes fotográficos em cores à disposição na URSS.

"Isso determinou minha escolha [pelo preto e branco]; todos meus colegas usaram a fotografia em preto e branco. Até hoje, tenho uma certa nostalgia em relação a esse tipo de fotografia", explica Lagrange.

"[O fotógrafo americano do início do século passado] Ansel Adams dizia que a fotografia em cores é literal demais, que não deixa espaço para interpretação pessoal", completa.

Vladímir Lagrange fez carreira trabalhando para veículos de imprensa soviéticos, o que deixa margem para a dúvida: seu trabalho, então, é jornalismo ou arte?

"Quando tiro fotografias, não penso nessa distinção. Esse é o trabalho dos críticos e historiadores. Mas, na minha opinião, a fotografia em si é arte, não importa a tendência seguida pelo autor. Se for realismo, vanguarda, pós-modernismo etc., o importante é não deixar o espectador indiferente", explica.

"É preciso dar algum impacto, trazer algo novo na visão do espectador, que gere reflexão.”

Quanto à censura, questão que também costuma rondar sua obra, ele diz que a autocensura, proveniente "da educação e princípios morais", era mais forte que a exercida pelos editores.

"A censura era mais para escritores, artistas, cineastas. Na revista, não éramos muito perturbados com isso. Hoje em dia, tem algo errado com a imprensa no meu país, mas isso é já outra história."

Política e ideologia à parte, para esse fotógrafo russo, o trabalho é um "remédio contra todas as doenças e a velhice", sempre lhe trazendo novidades.

 

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