Guênieva, ainda na fita

"Se a entrevista não desse certo, não tinha emprego e também não tinha mais Rússia. E, claro, Murphy bem que tentou." Foto: Marina Darmaros/Gazeta Russa

"Se a entrevista não desse certo, não tinha emprego e também não tinha mais Rússia. E, claro, Murphy bem que tentou." Foto: Marina Darmaros/Gazeta Russa

Em crônica, subeditora relembra sua primeira entrevistada para a Gazeta Russa. Ekaterina Guênieva era diretora da Biblioteca Estatal Russa de Literatura Estrangeira e morreu na última quinta-feira (9), após longa luta contra um câncer.

O ano era 2010, e eu acabava de retornar de uma excitante - e quase alucinógena - viagem a Iásnaia Poliana, a sul de Moscou, para cobrir a 7ª Conferência Acadêmica Internacional Liev Tolstói e a Literatura Mundial para a Folha de S.Paulo.

Também havia concluído o mestrado na Universidade da Amizade dos Povos havia pouco, e era a primeira semana do meu período de experiência na Gazeta Russa, quando o editor-chefe me incumbiu de escrever um material para todas as edições - que já saíam no Daily Telegraph, no Washington Post, no La Nacion e no Le Figaro, entre outros. Era uma matéria com Ekaterina Guênieva, a organizadora do Primeiro Congresso Internacional de Tradutores em Moscou e uma das principais reformadoras culturais do país.

Ele me deu o telefone de Guênieva, o que certamente tornou as coisas mais fáceis - no The Moscow Times, nos idos de 2008, arranhando um russo parco de apenas um ano, tive que me virar desde o início em um país que quase não falava línguas estrangeiras, inclusive "cavando" contatos (quando nem na universidade eu os tinha).

Mas, se não desse certo, era o ponto final. Não tinha emprego e também não tinha mais Rússia - não havia recursos ou motivo para ficar por lá. E, claro, Murphy bem que tentou.

Não era minha primeira visita à Biblioteca Estatal Russa de Literatura Estrangeira, onde, algum tempo antes, a embaixada brasileira em Moscou havia inaugurado um pequeno busto de Machado.

Já sabia que, fora do mapa, a distância entre o metrô Tagânskaia e a instituição era muito maior, e peguei um ônibus elétrico. Mas, claro, minha precaução não foi suficiente. Depois de quase duas horas de conversa com Guênieva sem anotar uma linha, apenas com o gravador ligado, voltei para casa apenas para descobrir que, à entrada da segunda década do século 21, não se devia mais confiar nas velhas fitinhas que garantiram minhas primeiras pautas ainda nos corredores da Faculdade Cásper Líbero.

Mas, ah, Moscou! Ah, a alma russa! Foi naquele dia que descobri duas coisas importantes sobre o país, territórios ainda não explorados mesmo com o decorrer dos anos que havia lá passado.

A primeira foi que a música "Moscow never sleeps", hit das lanchonetes universitárias então, não mente - e você nunca sabe quando precisará de uma loja de eletrônicos 24 horas. Às duas da manhã, entrei em uma filial da M-Video com um objetivo claro: comprar um gravador digital de última geração (hã-hã), do qual dependeria minha cabeça no jornal.

A segunda foi que os russos, ah, os russos, aquelas pessoinhas mal humoradas que tratam com desprezo o transeunte pedindo uma informação, que gritam desaforos na orelha do estrangeiro - e do nacional - desavisado pelo simples fato de ele pedir ao balconista que lhe passe um produto que quer comprar, e que, vira e mexe, mandam o gringo voltar para o país de origem e não se meter ali... Essas figurinhas, os russos, estão ali, firmes e fortes, prontos para ajudar quando alguém realmente precisa, apesar de não sorrirem na padaria - que, aliás, não há -, de furarem a fila na sua cara sem dar explicações, de te empurrarem no metrô, de passarem com o carrinho do mercado no seu calcanhar e ainda gritarem: "Mas por que é que estava andando devagar?".

E foi assim que Guênieva me recebeu em sua casa para uma segunda entrevista, uma segunda vez repetindo tudo o que já havia sido dito, agora em meio a ícones religiosos, antiguidades, móveis de época e um insistente tic-tac em um edifício de arquitetura clássica bem atrás da Casa dos Literatos de Moscou.

Parece que passei no teste da chefia com a matéria. Entrevistei outros para a Gazeta Russa. Alguns já se foram. Outros continuam aí. E, quem sabe, outros ainda não tenham nascido.

Guênieva, que anos depois me contatou oferecendo um espaço da biblioteca para um centro cultural brasileiro - ideia que, infelizmente, ainda não foi comprada por ninguém mais abastado -, Guênieva não voltará. Mas sua memória fica. E, para mim, ficam também uma MP3 e uma fita com a inscrição "continuação" que já não roda mais. 

 

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