Uma noite com Evguêni Kíssin

Para o virtuoso russo, é possível ser eclético e manter a qualidade que o levou ao estrelato. Foto: divulgação

Para o virtuoso russo, é possível ser eclético e manter a qualidade que o levou ao estrelato. Foto: divulgação

Tecnicamente perfeito e com grande poder de interpretação, durante quase duas horas, sem falar uma única palavra, apenas ele e um piano foram suficientes para dizer tudo que precisava ser dito naquela noite.

As últimas semanas foram bastante intensas para os amantes das artes russas no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Após as apresentações dos talentosos Solistas de São Petesburgo, e de clássicos do balé como Giselle e Spartacus encenados por um Bolshoi em busca da recuperação de seu outrora inquestionável prestígio, foi a vez do grande pianista Evguêni Kíssin se apresentar para o público carioca.

Desde criança tido como um virtuose, Kíssin já tocou com as maiores orquestras do mundo ao lado de maestros como Karajan, Abbado, Ashkenazy, Dohnanyi, Giulini, Levine, Maazel, Muti e Ozawa. Em sua última passagem pelo país, há cerca de 20 anos, já era um nome consagrado no meio da música clássica contemporânea, apesar da pouca idade.

O que se viu desta vez, além de toda sua capacidade técnica, foi um pianista maduro para criar interpretações únicas. Completando o cenário, o público que quase lotou o teatro também parecia saber perfeitamente o que iria contemplar através do eclético repertório proposto por Kíssin para aquela noite.

Tão logo o aclamado intérprete tocou a primeira nota da Sonata k330 de Mozart, uma obra prima que o compositor escreveu com apenas 27 anos, já estava ali tudo que seria necessário para uma grande apresentação. Um pianista genial, um ótimo piano no centro do palco, uma audiência preparada e músicas que tocam a alma humana.

Apesar de sua aparente simplicidade, a sonata dividida em 3 partes (um Allegro Moderato, seguido do Andante Cantábile e por último o Allegreto) é uma peça que desafia pianistas do mundo todo pelo intricado fraseado, mas Kíssin, com técnica impecável, tratou tudo de um jeito onde o difícil parecia fácil.

Kíssin encontra Beethoven

Ainda talvez querendo conquistar a plateia para poder ficar mais à vontade com a segunda parte de sua apresentação - que iria trazer um repertório menos óbvio, claramente baseado no gosto pessoal do pianista -, Kíssin partiu para a infalível e genial Sonata Appasionata de Beethoven, outra obra prima bastante conhecida.

Essa é uma peça que requer, além de tudo, vigor físico para ser executada na intensidade que merece. À medida que ia avançando pela música, a sonata crescia nas mãos do pianista russo. Se o tempestuoso Allegro Assai foi tocado com perfeição e o Andante com Moto foi profundo como deve ser, foi na sua última parte, o Allegro ma non Tropo, que o gênio de Kíssin e de Beethoven se encontraram, levando a peça a um vibrante e arrebatador Presto, o grand finale.

Evguêny Kíssin é um herdeiro da tradição dos grandes pianistas como como Horowitz, Rubinstein, Arrau e etc. Foto: AP

Na segunda parte da apresentação, foi a vez do lado romântico do pianista aparecer em Três Intermezzi op 117, de um Brahms na sua fase de maior maturidade musical. Todas as três peças pareciam ser parte do repertório pessoal do pianista que, à  vontade para interpretá-las mudou a atmosfera do Municipal mais uma vez aquela noite, trazendo muita melancolia e elegância.

Para fechar sua apresentação, Kíssin levou o público a um passeio pela Espanha por meio da Suíte espanhola de Albeniz, que também iria tornar-se bastante popular no século 20 na sua versão para violão. No roteiro, Granada – Cádiz – Córdoba – Astúrias. Nada comuns em apresentações dos grandes pianistas pelo mundo, essas peças comprovaram que para o virtuoso Kíssin é possível ser eclético e manter a qualidade que o levou ao estrelato.

No final, ainda no clima Ibérico, Kissin executou uma joia praticamente desconhecida, a tecnicamente desafiadora Viva Navarra! de Joaquin Larregla. Uma peça curta e de grande energia que supostamente iria encerrar aquela grande noite.

Com a certeza da missão cumprida e uma audiência satisfeita com o que tinha visto, Kíssin voltou ao palco ainda para tocar três músicas que não estavam no programa. Entre elas, uma linda e primorosa interpretação da conhecidíssima Polonaise em La maior, op 53, de Chopin (música obrigatória para todos os pianistas do mundo que levam seu ofício a sério). Àquela altura, parecia que ele estava em sua casa tocando para amigos íntimos ou até mesmo para si mesmo, sozinho.

Evguêny Kíssin é, sem dúvida, um herdeiro da tradição dos grandes pianistas como como Horowitz, Rubinstein, Arrau e etc. Sóbrio, tradicional, clássico. Sem nenhuma extravagância ou maneirismo. Tecnicamente perfeito e com grande poder de interpretação. Durante quase duas horas, sem falar uma única palavra, apenas ele e um piano foram suficientes para dizer tudo que precisava ser dito naquela noite em uma performance que vai ficar na memória de todos que ali estavam presentes. Que o ex e eterno garoto prodígio não demore mais 20 anos para voltar aos palcos brasileiros!

 

Diego Albuquerque é redator de TV, bacharel em filosofia e pianista amador


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