Mistério sobre ataque alemão permanece

Stálin entendia que, para conduzir a guerra contra a Inglaterra, Hitler precisava do pão e do petróleo que Alemanha recebia da União Soviética Foto: RIA Nóvosti

Stálin entendia que, para conduzir a guerra contra a Inglaterra, Hitler precisava do pão e do petróleo que Alemanha recebia da União Soviética Foto: RIA Nóvosti

Alertas sobre investida eram muitos, mas Stálin não reagiu. Entre indícios, havia fortificações na fronteira com a URSS e até dicionários.

Em 22 de junho de 1941, Hitler invade a União Soviética na chamada “Operação Barbarossa”, quebrando o pacto de não agressão tratado com Stálin. Desde então, historiadores de todo o mundo debatem a questão sobre o conhecimento do ataque pelo líder soviético.

“Apesar de existir um mito popular de que Stálin sabia a data exata do ataque, ele não é verdadeiro: entre as datas possíveis, citavam-se os mais diversos números. O 22 de junho estava entre eles, mas ninguém declarou o dia como definitivo”, disse à Gazeta Russa o historiador Aleksandr Verchínin, pesquisador-sênior do Centro de Análise de Problemas.

Segundo documentos de arquivos, Stálin já tinha sido informado pelos órgãos de segurança de que Hitler havia aprovado a Operação Barbarossa e ordenado a preparação imediata para a guerra. Mas era impossível antecipar uma data.

“É natural que, após o quinto ou sexto relatórios seguidos sobre possíveis datas para o início da guerra, Stálin tenha deixado de confiar nessas informações”, diz o pesquisador Oleg Mozôkhin, especializado nos órgãos secretos do país.

Segundo ele, Stálin imaginava que a Alemanha fosse iniciar uma guerra com a URSS somente após obter a vitória sobre a Inglaterra.

O que o bigodudo sabia? 

Além das disputadas datas do ataque, comunicados emitidos pelos serviços de inteligência ao líder soviético estavam diretamente ligados aos preparativos da Alemanha para a guerra contra a URSS.

“Lavrénti Beria, comissário do povo para assuntos internos [equivalente ao cargo de ministro do Interior] da URSS, repassou-lhe, ainda em 1° de agosto de 1940, informações da inteligência de que os alemães estavam construindo fortificações de campanha e permanentes na fronteira com a União Soviética”, diz Mozôkhin. 

Até 1942, outras notificações dão conta da aproximação de tropas alemãs da Finlândia, além da organização de um grupo de ataque em território romeno, em colaboração com a Itália, contra o flanco esquerdo da URSS. 

Se a investida do Führer ainda não parecia verossímil, em novembro de 1940 dicionários alemão-russo começaram a ser distribuídos em unidades militares na fronteira germano-soviética.

“Eles tinham o mesmo conjunto de frases que os dicionários alemão-tcheco fornecidos às unidades alemãs na véspera da ocupação da Tchecoslováquia”, diz Mozôkhin.

Promessa de Führer

O livro “What Stalin knew: The Enigma of Barbarossa” (do inglês, “O que Stálin sabia: O enigma de Barbarossa”), do ex-chefe da CIA em Berlim, David Murphy, traz duas cartas secretas entre o líder soviético e o alemão que poderiam esclarecer por que o líder soviético ignorou todos os sinais de um ataque alemão. 

De acordo com as missivas, o Führer tranquilizava Stálin com a promessa de que as tropas alemãs enviadas ao Leste Europeu tinham por objetivo protegê-los contra bombardeamentos britânicos e ocultar os preparativos para a invasão do Reino Unido, e afirmava que a Alemanha não atacaria a URSS.

Sem se apoiar nas cartas, cuja autenticidade não é comprovada, Mozôkhin segue a linha de que Stálin depositava confiança em Hitler. 

“Stálin entendia que, para conduzir a guerra contra a Inglaterra, Hitler precisava do pão e do petróleo que Alemanha recebia da União Soviética. A normalização das relações com o Japão, aliado da Alemanha, em 1941, também era um fator tranquilizador.” 

Enquanto novos documentos classificados como secretos não forem abertos aos pesquisadores, porém, o mistério continua. 

“A base dos documentos sobre o início da guerra continua a mesma: são materiais publicados ainda durante os anos soviéticos. Outras publicações foram feitas após 1991, mas os novos trabalhos e documentos de arquivo sobre a relação de Stálin com a perspectiva de uma guerra iminente não dizem quase nada de novo”, afirma Verchínin.

 

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