Negócio pré-guerra: o tanque de Christie na URSS

Projeto mais importante desenvolvido com base no modelo de Christie foi o famoso T-34 Foto: TASS

Projeto mais importante desenvolvido com base no modelo de Christie foi o famoso T-34 Foto: TASS

Construtores soviéticos de tanques e o engenheiro norte-americano John Walter Christie pareciam destinados a trabalhar juntos.

Em 1929, a delegação soviética que visitou as fábricas norte-americanas e europeias em busca de novos projetos para fabricação de blindados se deparou com John Walter Christie. Na época, o norte-americano trabalhava na melhoria do chassi do seu tanque. A sua ideia era usar grandes molas para a suspensão, mas a instalação delas exigia espaço adicional, o que contrariava a concepção de um taque ligeiro pequeno e rápido. Ao resolver este problema, Christie mostrou seu potencial de inovar: ele introduziu uma alavanca especial que transformava a orientação da mola de vertical para horizontal. Graças a isso, ela podia ter o tamanho que fosse necessário.

O projeto de Christie interessou à delegação soviética, que decidiu agir rapidamente, uma vez que os concorrentes – os poloneses – rondavam ali, e a Polônia era vista como um dos potenciais adversário da União Soviética na guerra que estaria por vir. Decidiram então comprar não o tanque em si, mas apenas o seu chassi – o que de mais valor havia no modelo de Christie. Outro aspecto que tornava aquele negócio muito importante ero o fato de o americano concordar em transferir para a parte soviética toda a documentação técnica, envolvendo-se pessoalmente na organização da produção dos tanques na URSS e permitindo o acesso de engenheiros soviéticos à produção dos veículos.

Os motores Liberty utilizados no modelo de Christie já eram produzidos em fábricas soviéticas sob uma marca diferente. No total, US$ 60 mil foram pagos por dois tanques – um valor bem alto para a época. Pelas peças de reposição foram outros US$ 4.000. Mas a maior parte do custo – US$ 100 mil – correspondia aos direitos técnicos e patentes.

A dificuldade estava no fato de não existirem relações diplomáticas entre a União Soviética e os Estados Unidos em 1930 e, por isso, o negócio foi oficialmente efetuado pela empresa Amtorg, criada pelo governo soviético para a aquisição de tecnologia no exterior. Além disso, um "acordo verba entre cavalheiros" foi feito por Christie e pelo chefe da delegação soviética, Khalepski. No final da década de 30, dois exemplares do tanque sem torres foram enviados por mar para a URSS.

Bom, mas não ótimo

Já em Moscou, os veículos foram estudados nos mínimos detalhes. Na época, os engenheiros soviéticos tinham adquirido grande experiência em trabalhar com blindados estrangeiros. O modelo de Christie recebeu uma avaliação geral positiva, mas os testes principais seriam feitos no campo de treinamento militar.


Tanque era bom para realizar percursos, mas pecava em termos técnicos Foto: TASS

Em dez dias, o tanque de Christie (ainda sem torre) percorreu uma distância de 150 km. Ao se livrar das lagartas quando passava para a estrada, o tanque alcançava a velocidade sem precedentes de 70 km/h. Equipado com rodas, superava facilmente as trincheiras e fileiras de arame farpado.

Mas também era evidente que havia deficiências: a suspensão do tanque não era suficientemente estável, o assento do condutor era muito apertado e a unidade de controle, pouco prática: ao fim de 5 horas de marcha, o tanquista ficava exausto. O motor superaquecia e na velocidade máxima era fácil perder o controle da viatura. Em outras palavras, ainda havia muito a ser feito. Mesmo assim, de um modo geral, essa máquina tinha um potencial grande.

"Considerando a forma com que foi apresentado nos testes, o tanque de Christie é uma máquina de deslocamento universal. Como máquina de combate, ainda requer muito trabalho e uma série de melhorias e alterações no projeto", concluiu a comissão responsável por avaliar o modelo. 

O tanque de Christie foi aceito para produção sob o código BT (de “tanque rápido”, em russo). Paralelamente, foi decidido descontinuar a produção dos modelos T-18. Foi a fábrica de Kharkov – uma das maiores do país e especializada na fabricação de veículos lagarta – que ficou incumbida de fabricar o tanque segundo o projeto de Christie. Um ano depois se deu o lançamento dos primeiros BT. Até o início da 2ª Guerra Mundial, esse era um dos tanques mais populares no Exército Vermelho. No entanto, o projeto mais importante desenvolvido com base no modelo de Christie foi o famoso T-34.

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