Heróis de quatro patas

Cachorros ajudaram a desativar minas em mais de trezentas grandes cidades Foto: TASS

Cachorros ajudaram a desativar minas em mais de trezentas grandes cidades Foto: TASS

Na última sexta-feira (24) começaram as celebrações dos 70 anos da vitória soviética na Segunda Guerra Mundial. Após um desfile com várias unidades e equipamentos militares, chegou a vez dos... cães.

Durante a Grande Guerra Patriótica, como é conhecida a Segunda Guerra Mundial na Rússia, não foram só as pessoas que deram provas de bravura. Cerca de 60 mil cachorros de diferentes raças, inclusive vira-latas, integravam o Exército soviético.

Os cães auxiliavam os homens em todas as frentes – farejavam minas, retiravam feridos dos escombros ou do campo de batalha. Às vezes, eram também usados em ações camicases – cães com explosivos lançavam-se debaixo de tanques. Nos anos da guerra, mais de 300 tanques alemães, ou seja, duas divisões, foram explodidos por cães.

Um dos episódios mais marcantes aconteceu no outono de 1941. Durante combates na região de Moscou, um grupo de tanques fascistas em ataque à fronteira soviética bateu em retirada ao ver que uma matilha de cães corria em sua direção.

Também com a ajuda de cachorros foram desativadas minas em mais de trezentas grandes cidades. No currículo do collie apelidado de Dik, por exemplo, consta: “Recrutado em Leningrado e destinado ao trabalho de desativação de minas. Durante a guerra, descobriu mais de 12 mil minas, participou da desativação de minas em Stalingrado, Lissitchansk, Praga etc.”

Mas a principal façanha de Dik aconteceu em Pávlovsk, onde ele descobriu, uma hora antes do momento programado para detonação, um caixote de pólvora de duas toneladas e meia, com um cronômetro, escondido no alicerce de um palácio. Depois da vitória, apesar do vários ferimentos, Dik mais de uma vez participou de exposições de cães. O cão veterano chegou à velhice e foi enterrado com honras militares. 

Enfermeiros de plantão

No inverno, em macas sobre trenós, e no verão, em pequenas carroças, os cachorros transportavam pessoas para a linha de frente e traziam feridos de lá. Cada dupla de cães substituía de três a quatro enfermeiros, retirando mais de 600 mil homens do campo de batalha.

Quando os enfermeiros não conseguiam chegar até um ferido, por causa do intenso fogo cruzado, os cães arrastavam-se de barriga até ele, levando a caixa de primeiros socorros. Esperavam até que o combatente fizesse o curativo e só depois passavam ao seguinte. Caso o ferido estivesse desacordado, o cachorro lambia o seu rosto até que ele voltasse a si.

Além disso, durante a guerra, cães mensageiros entregaram mais de vinte mil informes e estenderam mais de 8 mil quilômetros de fios telefônicos por locais onde os soldados não tinham acesso.

Pastor dos pastores

Embora muitos cachorros tenham realizado verdadeiras façanhas em épocas de guerra, o único que recebeu uma medalha “Pelos serviços prestados” foi um pastor chamado Djulbars. No último ano da Segunda Guerra, esse cão localizou 7.468 minas e 150 obuses, assim como participou da desativação de bombas em palácios da região do rio Dunai, castelos de Praga e catedrais de Viena.

O dono de Djulbars era Dina Volkats, que posteriormente se tornou esposa do comandante Aleksandr Mazover, grande especialista em cães. Ainda antes da guerra, Dina atuava como adestradora de cães oficiais na cidade natal de Kharkov.

Em 1941, a jovem de 18 anos foi mandada à Escola Central de Adestramentos de Cães Militares. Depois de receber o título militar de aspirante a oficial, Volkats começou a trabalhar. Escolheu um cão e mostrou-o ao chefe de seção. Djulbars era tão sem graça, que o chefe apenas ironizou: “Não conseguiu achar nada pior? Permita-me saber em que critério se baseou a sua escolha?”. “No olho”, respondeu Dina seriamente.

No final da guerra, Djulbars foi ferido e não pôde participar da Parada da Vitória. O marechal Konstantin Rokossovski informou isso a Stalin, que ordenou levarem o cachorro à Praça Vermelha enrolado em sua própria túnica militar. Aleksandr Mazover levou o pastor no colo e recebeu permissão para não marchar a passo firme nem prestar continência, afinal, ele estava cuidando de um combatente muito valioso.

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