"Algumas obras minhas ficam em museus, outras vão para o lixo"

Conceitualista Irina Nakhova representará Rússia na Bienal de Veneza deste ano. Foto: Press Photo

Conceitualista Irina Nakhova representará Rússia na Bienal de Veneza deste ano. Foto: Press Photo

Primeira soviética a montar "instalações totais" (obras dispostas em grandes dimensões que não podem ser compreendidas sem serem adentradas) em seu apartamento moscovita, Irina Nakhova representará Rússia na Bienal de Veneza.

Quando a 56° edição da Bienal de Veneza abrir as portas ao público, em 9 de maio, o pavilhão da Rússia terá sido, pela primeira vez na história, totalmente elaborado por uma equipe feminina.

Com a mecenas Stella Kessaeva na chefia do pavilhão e a norte-americana de origem russa Margarita Tupitsyn na curadoria, as obras do país na exposição deste ano ficarão por conta da artista conceitual Irina Nakhova.

Primeira artista soviética a criar "instalações totais" (obras dispostas em grandes dimensões que não podem ser compreendidas sem serem adentradas) em seu apartamento moscovita, Nakhova falou com exclusividade à Gazeta Russa sobre a Bienal, seu trabalho e a carreira internacional:

Conte um pouco sobre o projeto para Veneza...

A ideia do nome, "Pavilhão Verde", foi da [curadora] Margarita Tupitsyn. E eu concordei. Ele é tão neutro que não revela nada. Mantém todo o suspense e fica na cabeça. Isso será a primeira coisa que o visitante irá ver.

Nos últimos anos, o pavilhão teve cor de areia. Lembro-me da primeira vez que o vi, há um ano. Saltava à vista que tinha algo de errado com ele. Depois de pensar um pouco, entendi que era a cor. Mudar aquela cor se tornou uma obsessão. Então comecei a falar com historiadores e descobri que, originalmente, ele era verde. Foi dessa cor que o concebeu o arquiteto Aleksêi Chussev [1873-1849].

O que está dentro dele ainda é segredo. Só posso dizer que será uma "instalação total" em "colaboração" com Chussev. Eu dialogo com ele.

Você fez suas primeiras "instalações totais" em seu apartamento. Para quê?

Na prática, fiz justamente pela necessidade extrema de fazê-la, para criar a mim mesma outro espaço, mudar a terrível situação daquele tempo.

Como tudo começou?

Tudo começou quando eu tinha 13 anos e conheci o conceitualista Víktor Pivovarov e a sua família. É engraçado pensar que eu andei com o minúsculo filho dele no colo, o Pável Pepperstein, e trinta anos depois eu e ele viríamos a participar juntos de uma exposição em Londres.

Na altura, eu fiquei impressionada com o trabalho do Víktor, tão fresco e incomum. Ele me introduziu a seu círculo, apresentou-me muitos pintores e escritores. Foi justamente o encontro com ele que determinou meu destino como artista.

A história das instalações começou no meu apartamento no início dos anos 1980. Eu vivo até hoje no mesmo apartamento. Faz muitos anos que sei de cor as medidas do quarto: 3,95 x 3,95 metros.

Estudei pintura, mas sempre me interessei pelo espaço. E pela inclusão de algumas marcas arquitetônicas na pintura. Eu adoro Mark Rothko: ele nem marcas tem, apenas espaço na tela, que, verdade seja dita, só dá para captar ao vivo.

Eram terríveis os tempos de estagnação da era Brejnev. Parecia-me que não acontecia absolutamente nada, tudo girava dentro de um círculo fechado: o mesmo grupo de pessoas, a mesma arte.

Muitos artistas entraram em depressão. A única coisa que eu podia fazer era mudar radicalmente o ambiente ao meu redor, tornar-me arquiteta da minha "viagem". E a primeira instalação fiz para mim mesma, com papel e tintas. Por meio de pinturas feitas em enormes folhas de desenho coladas umas às outras, consegui ampliar o espaço ao meu redor.

Sua primeira exposição individual aconteceu em Nova York. Como sua arte foi parar lá?

Em 1988, Moscou sediou o primeiro leilão Sotheby’s. Nesse leilão tinha arte russa de vanguarda e autores contemporâneos. Uma combinação eclética. Eu era uma das participantes mais jovens.

Então, eu duvidava muito que aquela exposição tivesse alguma coisa a ver com arte, via aquilo como um gesto político. Vivíamos em um país fechado e veio um monte de colecionadores ocidentais, gente de museus...

Você fez muitas "instalações totais" de grandes dimensões na Europa e nos Estados Unidos. Qual o destino delas depois das exposições?

Algumas ficam nos museus, outras foram desmontadas e seu destino é desconhecido. Depois da exposição "Momentum Mortis", por exemplo, Norton Dodge ficou com a minha instalação de 16 relevos imensos que compunham uma Pompeia moderna. Eles ficaram guardados em seu depósito em Maryland. Depois da morte de Norton, eu recebi uma carta dizendo: "Sua instalação está conosco, o que fazer? Venha buscá-la, por favor". Eu respondi: "Lamento, mas não posso!" Talvez ela já não exista mais. Ou talvez esteja por aí em alguma lixeira...

 

 

Pavilhão da Rússia do ano passado Foto: Press Photo

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