O golpe de Stálin que libertou a Crimeia

Pontes com mais de 1,5 quilômetros de comprimento foram construídas para a travessia através da baía Foto: Evguêni Khaldei/TASS

Pontes com mais de 1,5 quilômetros de comprimento foram construídas para a travessia através da baía Foto: Evguêni Khaldei/TASS

Em abril de 1944 começou a operação ofensiva para libertar a Crimeia dos exércitos da Alemanha e de seus aliados. A singularidade dessa operação consistia na garantia de saída do Exército Vermelho para a região dos Balcãs.

A operação que durou de abril a maio de 1944 é um dos chamados 10 golpes de Stálin – ofensivas vitoriosas do Exército Vermelho realizadas naquele ano. O agrupamento romeno-alemão ficou completamente destruído, e a URSS retomou o controle da região estrategicamente importante.

Trabalhotitânico

Durante uma mesa-redonda recente, o historiador militar Boris Bojedomov relatou os esforços realizados pelos integrantes do Exército Vermelho para tomar Sivash, uma baía rasa que separa o norte da Crimeia da parte continental onde se encontravam as tropas soviéticas. Pontes com mais de 1,5 quilômetros de comprimento foram construídas para a travessia através da baía.

“Vento, neve, chuva, lama. Imersos até a cintura na água gelada, soldados construíam pontes. Depois, tinham que reformá-las, pois elas eram danificadas pelas tempestades. Isso tudo acontecia sob disparos e bombardeios que partiam do inimigo. Um trabalho titânico”, descreveu Bojedomov, que é colaborador do Instituto de Pesquisa Científica da Academia Militar.

Segundo os historiadores presentes no encontro, os alemães se agarravam desesperadamente à Crimeia. Apesar de o agrupamento de tropas alemão ter sido bloqueado por terra em 1943, Hitler se recusou a evacuar seus soldados e membros dos exércitos aliados.

Mikhail Miagkov, diretor científico da Sociedade Histórico-Militar da Rússia, ressalta que os dirigentes soviéticos também tinham consciência da indiscutível importância estratégica dessa operação.

Concentração secreta

Na véspera da operação, o Exército Vermelho apresentava vantagem em termos de recursos humanos e equipamentos. O agrupamento soviético consistia de cerca de 470 mil homens contra 200 mil soldados alemães e romenos.

Mas, para tirar proveito dessa vantagem, era necessário concentrar as tropas secretamente em duas direções de ataque – pelo lado do istmo de Perekop, que liga o norte da Crimeia ao continente, e da cidade portuária de Kertch, no sudeste da península, utilizando as posições provisórias previamente tomadas do inimigo.

No entanto, como salienta Bojedomov, “o inimigo estava ciente de que na impossibilidade de efetuar um desembarque de tropas em grande escala”.

Duplo ataque

O ataque principal foi dado pelo lado de Perekop. O segundo, na direção da cidade de Kertch, que foi tomada dias depois. Pouco a pouco, as forças soviéticas romperam as defesas alemãs em ambas as frentes, e o inimigo começou a recuar. Em meados de abril, as forças soviéticas se aproximaram de Sevastopol. Duas tentativas de romper de imediato as defesas do inimigo falharam e, então, tiveram início os preparativos para um ataque em grande escala – que começou em 5 de maio e durou quatro dias.

As tropas romeno-alemãs perderam 140 mil homens na operação, cerca de metade deles foram feitos prisioneiros. As baixas das tropas soviéticas totalizaram 17 mil homens.

“A operação da Crimeia tornou-se a quinta-essência da experiência de combate que o Exército Vermelho havia acumulado naquela época. Foi uma ‘operação limite’ seguida por uma sucessão ininterrupta de vitórias”, diz Serguêi Tchennik, editor-chefe da revista “Crimeia Militar”.

A própria geografia da península torna a operação para libertar a Crimeia única: comparável a uma inacessível fortaleza medieval, rodeada por fossos com água de todos os lados. Além de operação ter aberto acesso do Exército Vermelho aos Balcãs, as baixas entre as tropas romenas incentivaram mais tarde o país a abandonar a aliança com a Alemanha e juntar-se à coalizão anti-Hitler.

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