A revolução que não se refletiu nos uniformes

Foto: RIA Nóvosti

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Após troca de uniformes, militares soviéticos resolveram retomar vários elementos da época imperial. Com o tempo, comando do Exército recuperou uma série de elementos distintivos de sua vestimenta, e algumas peças se mantiveram sem grandes alterações até o início do século 21.

O Exército Russo criado por Piotr I deixou de existir no início de 1918, depois de os bolcheviques, tendo tomado o poder com a Revolução de Outubro de 1917, anunciarem a criação do Exército Vermelho. Esta decisão foi, em muitos aspectos, uma simples constatação do inevitável: no final de 1917, o antigo Exército estava praticamente desintegrado.

A Primeira Guerra Mundial levara o país e seu Exército para um beco sem saída. Os soldados nas trincheiras se recusavam a lutar e muitos fugiam para a retaguarda. Entretanto, a Guerra Civil que rebentou entre vermelhos e brancos exigiu a criação de novas forças armadas organizadas, com um comando único, logística militar e uniforme padronizado.

Quatro anos antes da guerra mundial o governo tsarista armazenou imensos estoques de uniformes militares. Sobretudos, camisas e sapatos eram coisas que não faltavam. Se desejasse, o Exército Vermelho poderia vestir vários milhões de pessoas. O problema era outro: é que os homens do Exército branco usavam precisamente o mesmo uniforme.

Em 1918 não foram raros os casos em que soldados do Exército Vermelho, depois de cruzarem acidentalmente a linha do front, se davam conta de estar em meio a inimigos apenas depois de iniciar uma conversa. Para poder diferenciar uns dos outros, o Exército Vermelho introduziu um emblema especial no peito, em forma de ramos de louro entrelaçados com uma estrela vermelha, e no centro do qual havia o símbolo da foice e o martelo cruzados.

No entanto, o elemento que mais diferenciava o soldado do Exército Vermelho era a famosa “budiônovka”. O seu esboço havia sido traçado ainda antes da guerra, como um chapéu de gala para o desfile de aniversário da dinastia reinante. Durante a Guerra Civil, a “budiônovka” se popularizou. Era uma espécie de capacete de tecido grosso com pala na frente, aba na nuca e cujas pontas desciam a partir das têmporas. Nos dias quentes, essa aba era dobrada e presa em cima; já nos dias frios, era solta e amarrada debaixo do queixo.


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Diferente, mas igual

O Exército Vermelho se baseava em princípios diferentes do antigo modelo imperial. Por exemplo, nele não havia lugar para corpo de oficiais: os oficiais eram considerados uma relíquia do passado, um elemento do autoritarismo. Mas como nenhum Exército existe sem comando, também o Exército Vermelho manteve os postos altos – simplesmente com outros nomes.

O coronel virou “komot” (comandante do esquadrão) e o general virou “komdiv” comandante de divisão. O posto mais alto, correspondente ao antigo marechal era agora o “komandarm” (comandante do Exército). Junto com o corpo de oficiais, foram abolidos também os elementos especiais distintivos dos oficiais superiores do Exército, os alamares e as insígnias nos ombros.

Com o tempo, o uniforme militar soviético foi perdendo os seus elementos originais da época revolucionária e se aproximando mais de modelos existentes no tempo do Exército imperial. Em 1924, os capotes e sobretudos perderam todos os emblemas das mangas e lapelas de proteção dos bolsos. Apenas as insígnias no colarinho, para onde foram transferidos todos os quadrados, triângulos e losangos das mangas, permitiam agora determinar o posto do comandante.

Além disso, o tamanho das insígnias foi reduzido, e todas passaram todas a ser de metal. No lugar da “budiônovka” foi introduzida uma proteção para cabeça igual a todos os ramos e postos militares – o quepe com pala, com uma estrela vermelha. As unidades militares receberam capacetes de metal projetados para as tropas imperiais ainda em 1916.

Diante da Segunda Guerra

No lugar dos antigos sobretudos com lapela de proteção sobre os bolsos foram introduzidos “guimnastiôrkas” (tipo de camisa comprida e larga) iguais de cor cáqui. Esses modelos se mantiveram sem grandes alterações até o início do século 21: até recentemente o soldado do Exército russo se vestia no inverno do mesmo modo que o soldado da década de 1920.


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O comando do Exército recuperou uma série de elementos distintivos de sua vestimenta. Na véspera da Segunda Guerra Mundial, as denominações revolucionárias dos postos militares foram substituídas pelas tradicionais: o Exército Vermelho voltou a ter generais e marechais.

A peça principal da roupa exterior passou a ser a jaqueta, cuja divisa era costurada em tecido vermelho e faixa dourada. Os oficiais obtiveram o direito de usar uma arma pessoal, medida que não se autorizava desde o tempo da revolução.

No entanto, as platinas não regressaram logo ao Exército. Esse importante elemento dos uniformes oficiais só voltou a ser adotado durante a Segunda Guerra Mundial.

 

Aleksandr Verchínin é doutor em Ciências Históricas e pesquisador sênior do Centro de Análise de Problemas.

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