Muita pompa para guerra

Foto: RIA Nóvosti

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As inúmeras mudanças nos uniformes militares russos na época do último tsar.

O último tsar russo, Nikolai II, tinha uma paixão talvez maior do que os seus antecessores por atributos militares externos: manobras, desfiles e uniformes. O seu pai, Aleksandr III, um homem que não gostava de grandes públicos e que apreciava coisas singelas, havia simplificado o uniforme dos soldados russos. Os bordados de renda, o uniforme de gala e os exuberantes enfeites de crina de cavalo foram abolidos.

Já Nikolai II acreditava que os elementos cerimoniais dos uniformes eram parte necessária da vida militar de soldados e oficiais. Mal subiu ao trono, em 1894, e reformulou a roupa da cavalaria. O novo uniforme mais lembrava a vestimenta de seus antecessores distantes que marcharam sobre Paris em 1814: jaquetas de abotoamento duplo afuniladas na cintura com bainha colorida na lapela e punhos. Em vez do simples cinturão de couro com a bainha para a espada, introduzido no reinado anterior, os oficiais voltaram a usar a faixa de gala bordada.

O uniforme simples do Exército introduzido por Aleksandr III se manteve em uso até a guerra russo-japonesa. Os soldados russos foram para essa batalha vestindo túnicas brancas e quepes que variavam de cor, dependendo da unidade militar, mas que eram cobertos por uma capa também branca. Quanto aos oficiais, usavam túnicas brancas.

Por saltar à vista e se distinguir tão bem ao longe, aquele uniforme transformava os soldados russos em alvos fáceis para os artilheiros inimigos. A situação ficou tão grave que os combatentes começaram a pintar a vestimenta por iniciativa própria. Em 1904, teve início a confecção de guimnastiôrkas (tipo de camisa longa e larga)  dos soldados e túnicas dos oficiais em tecido cáqui.


Quepe e chapéu das tropas de Elizavetogradsk, entre 1908 e 1914 Foto: V.M.Glinka

A derrota da Rússia na guerra russo-japonesa levou a novas alterações no uniforme. Por um lado, as batalhas demonstraram que a roupa do Exército precisava ser adaptada às novas condições de combate. Por mais que as camisas brancas como a neve fossem do agrado dos soldados, e as brilhantes dragonas ao sol, dos oficiais, não dava para virar mira fácil de um franco-atirador ou de uma metralhadora inimiga.

Em 1907, o exército foi inteiramente vestido com uniformes cáqui. O quepe com pala se impôs definitivamente como principal atributo da chapelaria militar, enquanto as calças largas, enfiadas dentro das botas, substituíram por completo as calças justas, tendo apenas os cavaleiros mantido as reithose (calças justas de equitação) cinzas com elementos coloridos. As túnicas e camisas brancas viraram para sempre “coisa do passado”. Os novos uniformes dos oficiais eram cáqui com bolsos no peito e botões metálicos. As guimnastiôrkas dos soldados também receberam bolsos, mas os seus botões eram feitos de couro pressionado.

Psicologia da moda

Para elevar a moral do Exército derrotado, surgiu um novo uniforme cerimonial  ou de gala. Todos os soldados receberam jaqueta de abotoamento duplo com debrum (acabamento feito entre duas costuras) de cor viva. Os oficiais dos regimentos ganharam bordados de ouro sobre a jaqueta, e os generais, um ornamento especial com a forma de folhas de carvalho.

Em algumas unidades foram retomadas as já esquecidas barretinas, confeccionadas  no mesmo modelo daquelas usadas pelos soldados russos em 1812. No regimento Grenadier foi ordenado que se voltasse a colocar sobre o ombro direito os alamares, tal como no século 18, com o monograma de Ekaterina II. As faixas de cintura de prata se assemelhavam àquelas usadas no tempo de ​ Suvorov. Os elementos do uniforme militar do glorioso passado da Rússia deveriam levantar a moral dos combatentes.

Capitão do Estado-Maior General, em 1906 Foto: V.M.Glinka

Triunfo do espírito

A Primeira Guerra Mundial, que eclodiu em 1914, não permitiu aos soldados russos apreciar plenamente a beleza do novo uniforme cerimonial. Não restou outra opção, senão colocá-lo de lado, uma vez que na frente de batalha ele não tinha qualquer utilidade. Os oficiais tiveram que vestir um uniforme do mesmo tipo do dos soldados.

Todos os elementos chamativos e brilhantes dos uniformes, botões e insígnias das platinas, foram pintados com cores escuras para os tornar invisíveis aos artilheiros inimigos. As correias entrelaçadas do cinto da espada foram substituídas por correias de couro que se cruzavam nas costas e que mantinham o cinturão com um coldre para o revólver e uma bainha para a arma branca. Junto com a túnica militar e a guimnastiôrka começou a ser usada a jaqueta, cuja moda foi introduzida pelas fileiras dos aliados do exército britânico.

A falta de material também levou a alterações no estilo da vestimenta militar. As tropas do front do Cáucaso receberam autorização para confeccionar as suas tcherkéskas com tecido cinzento caseiro. A falta de couro levou à substituição maciça das botas com caneleira enrolada.

Tenente das tropas da infantaria de Novotcherkassk, em 1904 Foto: V.M.Glinka

Supunha-se que o uniforme cerimonial do Exército russo seria mais uma vez trajado nas capitais dos estados inimigos derrotados – Berlim e Viena. Chegou mesmo a ser feita um traje especial para a futura parada da vitória. O chapéu de feltro em forma de capacete, imitando o antigo capacete russo, foi criado na véspera da guerra para as celebrações por ocasião do jubileu da dinastia reinante. Longos capotes com martingales costurados na região do peito, um sobre outro, faziam lembrar o caftã dos arqueiros russos.

Tudo isso deveria simbolizar o triunfo do espírito eslavo sobre o seu eterno inimigo – a Alemanha. No entanto, a guerra se arrastou e levou a uma revolução. O novo uniforme acabou sendo herdado pelo Exército Vermelho, cujos soldados o tornaram visível e reconhecido no mundo inteiro.

 

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