O homem que sobreviveu ao Exército

Tchernichov: "Eram 13 a 14 horas de voo desde a América e, na época, não havia nenhum acompanhamento via rádio" Foto: Kommersant

Tchernichov: "Eram 13 a 14 horas de voo desde a América e, na época, não havia nenhum acompanhamento via rádio" Foto: Kommersant

No final da Segunda Guerra Mundial, Mikhail Tchernichov, entre outros pilotos civis, recebeu uma missão exclusiva: trazer bombardeiros dos EUA para a URSS, no âmbito programa norte-americano Lend-Lease. O que ninguém esperava é que, durante o voo, o esquadrão inteiro morreria devido à configuração incorreta dos aparelhos – exceto Tchernichov.

Mikhail Tchernichov tem hoje 87 anos. Tinha 16 quando foi para a guerra como voluntário. A partir de então, fez duas escolas de voo – uma pelo programa de bombardeiros noturnos, e a outra, em Novosibirsk, no terceiro regimento de bombardeiros de alta velocidade, que trazia os aviões dos EUA para a União Soviética.

“Eles vinham incompletos”, conta Tchernichov, “e os pilotos caiam muitas vezes. Afinal de contas, eram 13 a 14 horas de voo desde a América e, na época, não havia nenhum acompanhamento via rádio. E aí me levaram como o mais novo do esquadrão. A gente operava na aviação de longo alcance, por isso, todos os comandantes eram pilotos civis. Os pilotos militares não tinham preparação para voos desse tipo.”

O aeródromo nos EUA ficava a cerca de 270 quilômetros da costa. Em caso de mau tempo, um pouso técnico era feito em Khabarovsk. Com tempo bom, as aeronaves eram levadas diretamente até Krasnoiarsk, o que completava quase cinco mil quilômetros de voo direto, sem pousar. Só era possível fazer todo aquele percurso graças ao tanque de combustível suplementar que ficava preso debaixo da asa da aeronave.

A partir de Khabarovsk e Krasnoiarsk já era depois outro destacamento de pilotos que ficava encarregado de levar os aviões para a zona da linha de combate. “Tínhamos conosco no avião chocolate, álcool e conhaque da melhor qualidade, tudo o que necessitávamos para sobreviver em caso de acidente”, lembra o piloto.

E foi justamente isso que aconteceu certa vez – o avião de Tchernichov caiu. Mais tarde, uma comissão militar determinaria que os altímetros tinham dado indicação errada: os instrumentos de voo norte-americanos traziam embutidos na memória dados incorretos sobre a altura da montanha contra a qual colidiu quase todo o esquadrão.

O avião de Tchernichov teve sorte, contudo. Depois de bater com o lado direito no topo da montanha, se desfez em pedaços. De todos os pilotos daquela missão, só Mikhail Tchernichov sobreviveu.

Sem mudar de rota

Depois do final da guerra, Tchernichov continuou servindo no Exército: a sua zona de responsabilidade começava na Tchukotka e terminava na zona da cadeia das ilhas Curilas. Em todos os lugares, ao longo da fronteira oriental da União Soviética, existiam aeródromos secretos.

Os pilotos nunca ficavam muito tempo no mesmo local. As pistas de pouso e decolagem eram desmontáveis: eram compostas por placas de metal que os próprios pilotos desmontavam e voltavam depois a juntar em um novo local. Quanto aos terrenos dos aeródromos, os pilotos os cobriam com tocos de árvores ao irem embora para um novo lugar.

“Para nós, a guerra no Oriente não terminava nunca. Mas a gente não podia destruir os aviões e navios militares norte-americanos. A nossa tarefa era apenas assustá-los”, explica Tchernichov. “Fiquei oito anos no Exército. Só em Kamtchatka fiquei mais de seis anos. A gente dormia nas placas metálicas dos aeródromos e usávamos duas capas de avião para tal – uma que estendíamos em cima da placa e a outra com a qual nos cobríamos. Além de feijão preto chinês e ensopado de porco dos EUA, a gente não comia mais nada.”

O período prolongado no Exército se deu simplesmente porque não tinha ninguém para substitui-lo. “Afinal, nós tínhamos aprendido a voar nos EUA. Éramos os últimos pilotos treinados. Eu fui o único que restou daquele grupo que trazia os aviões”, diz.

O último voo de Tchernichov foi em 1952, quando os pilotos de longa distância foram reintegrados à aviação civil. Mas Mikhail não passou nos testes médicos da comissão, já que os resultados acusaram daltonismo. Por isso, teve que se afastar do céu. Atualmente aposentado, o ex-piloto está construindo em sua datcha (casa de campo) um veículo utilitário para andar em solos pantanosos.

 

Publicado originalmente pelo jornal Kommersant

 

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