Um dos balés mais exibidos no mundo, ‘O Lago dos Cisnes’ celebra 120 anos

Uliana Lopátkina no papel de Odette-Odile Foto: Teatro Estatal Acadêmico Mariínski

Uliana Lopátkina no papel de Odette-Odile Foto: Teatro Estatal Acadêmico Mariínski

Embora concebido no século 19, espetáculo se adaptou às mudanças do tempo ao som Tchaikovsky.

Em janeiro de 1895, o Teatro Mariinski, em São Petersburgo, exibiu pela primeira vez o lendário balé ao som de Tchaikovsky. A versão de Marius Petipa e Lev Ivanov não foi a primeira deste balé, mas foi justamente ela que mudou a atitude do mundo em relação à obra do grande compositor.

Ao longo de 120 anos, o “O Lago dos Cisnes” se consagrou como um dos balés mais encenados em todo o mundo. Existem apresentações com final feliz, final trágico e com diferentes leituras dos personagens. No espetáculo do britânico Matthew Bourne, por exemplo, os cisnes são todos homens. Mas a versão do Mariinski continua sendo vista como um “clássico do gênero”.

Símbolo do golpe de 1991

Para os moradores do espaço pós-soviético, o balé “O Lago dos Cisnes” se tornou um dos símbolos do golpe de 1991. No dia 19 de agosto daquele ano, tocou apenas música clássica na rádio, enquanto a televisão exibiu o dia todo diversas gravações do principal balé da União Soviética. Até então, isso acontecia apenas quando morria o governante do país, mas naquele dia o motivo era outro: um golpe de Estado. As tentativas de tirar Mikhail Gorbatchov à força do cargo de presidente da URSS e o descumprimento do “Acordo sobre a União de Estados Soberanos” foram ocultados dos cidadãos soviéticos ao som de Tchaikovsky.

O famoso coreógrafo George Balanchine se referiu ao espetáculo como o “cartão de visita do balé russo”. Segundo ele, “todos os balés deveriam se chamar Lago dos Cisnes – isso garantiria uma venda animada de ingressos e sucesso entre o público”.

Primeiros passos

O primeiro “O Lago dos Cisnes”, coreografado por Wenzel, foi apresentado ao público em março de 1877, no Teatro Bolshoi. O espetáculo foi bem recebido pelos espectadores e acabou sendo retirado do repertório.

“Tinha muitas cenas de pantomima. Odette contava detalhadamente o seu destino, falava da madrasta malvada que era uma bruxa. Pessoas que assistiram ao espetáculo falavam da pobreza da sua dança. Nas críticas era possível perceber que o musical prevalecia claramente sobre a coreografia”, conta a editora do departamento editorial do Teatro Mariinski, Olga Makarova.

No início de década de 1890, o Maître de Ballet Marius Petipa reescreveu o libreto para o Mariinski juntamente com Tchaikovsky, e a partitura, em colaboração com o compositor Riccardo Drigo. A encenação foi feita em parceria com Lev Ivanov.


Cenário do balé "O Lago dos Cisnes" em 1895 Foto: Teatro Estatal Acadêmico Mariínski

A estreia, cinco anos depois, aconteceu no dia do jantar de gala beneficente promovido pela bailarina Pierina Legnani. Na ocasião, o seu par foi Pável Gerdt, que durante anos dançaria o personagem de Siegfried no palco do Mariinski.

O espetáculo moderno difere da primeira produção. No final do século 19 os homens na dança clássica não realizavam saltos complexos – os dançarinos se limitavam principalmente a caminhar pelo palco, criando poses elegantes e, quando necessário, amparando a bailarina. As bailarinas também eram diferentes: tinham o corpo mais coberto e não podiam levantar muito a perna quando estavam no palco, pois era considerado indecente.

Final feliz

Nos anos 1930, a bailarina e pedagoga russa Agrippina Vaganova decidiu produzir “O Lago dos Cisnes” com um tom social, mudando completamente o libreto. Em sua versão, Rothbart não era um malvado feiticeiro, mas um barão arruinado à procura de um bom partido a filha. No final, Odette morre com um tiro disparado por Rothbart, e Siegfried se suicida.


Galina Ulánova no papel de Odette Foto: Teatro Estatal Acadêmico Mariínski

Em 1950 foi lançada uma nova versão pelo coreógrafo Konstantin Sergueiev – e, pela primeira vez, com final feliz. Se até então as ondas agitadas do lago engoliam Odette e Siegfried na última cena, o novo Siegfried vencia o mago em um duelo, dando fim ao mal.

Sergueiev manteve quase inalterada a coreografia de Petipa e Ivanov, mas mesmo assim conseguiu refletir as conquistas do balé moderno. É esta a produção que continua sendo apresentada no Mariinski ainda hoje – e já foi exibida 1.757 vezes no teatro de São Petersburgo.

 

Publicado originalmente pela agência Tass

 

Confira outros destaques da Gazeta Russa na nossa página no Facebook

Todos os direitos reservados por Rossiyskaya Gazeta.