O mito do Canhão do Tsar: arma implacável ou mero ornamento?

Canhão do Tsar é uma das principais atrações do Kremlin de Moscou Foto: TASS

Canhão do Tsar é uma das principais atrações do Kremlin de Moscou Foto: TASS

O enorme canhão aos pés do jardins do Kremlin é um dos símbolos mais conhecidos da fortaleza. Além de ser um dos maiores canhões do mundo, é também uma obra-prima da produção medieval. Mas reza a lenda que o canhão nunca fez um disparo sequer – ou o fez?

Posicionado em um lugar central no interior das muralhas do Kremlin, este canhão gigante simboliza a capital russa há muito tempo; seu tamanho e presença fascinam visitantes do mundo todo. Poucas armas podem se comparar a ela em peso e não há maior orifício de morteiro no mundo. Com quase um metro de diâmetro, as bolas de canhão encontradas debaixo do cano testemunham a força inimaginável desta arma antiga que ainda guarda seus segredos.

O gigante de 40 toneladas, chamado Canhão do Tsar, é também um exemplar notável da produção medieval e incorpora seis séculos de tecnologia de artilharia russa. Os primeiros canhões apareceram na Rússia antes do que na maior parte da Europa. Isso aconteceu graças ao conhecimento adquirido dos tártaros, que, por sua vez, dominavam a arte dos armeiros chineses do século 13.

Aliás, acredita-se que o primeiro produtor de armas na Rússia foi um tártaro chamado As, que foi capturado durante a batalha de Kulikovo, em 1380. Dois anos mais tarde, as forças de ataque do khan tártaro Tokhtamysh foram rechaçadas por armas sofisticadas montadas sobre das muralhas do Kremlin.

Naquela época, Rússia não ficava muito para trás de seus vizinhos europeus no desenvolvimento de artilharia. Até o final do século 15, as forças de artilharia russas eram compostas por várias centenas de armas, sendo 55 delas situadas nas muralhas da fortaleza de Novgorod.

Explosão de armas

Caracterizado por números cada vez maiores e impressionante qualidade, este boom de artilharia ocorreu durante o reinado de Ivan, o Terrível. Em 1552, um Exército russo ao redor de Kazan sitiada disparou sozinho 150 armas, e canhões russos estilhaçaram muralhas em cidades lituanas, polonesas, alemãs e suecas.

 
Quadro retratando Ivan, o Terrível, e Shah Ali antes da tomada de Kazan, em 1552 Fonte: Divulgação

Até o final do século 16, os mestres dos canhões russos tinham consolidado a sua reputação entre os melhores do mundo. Eles não só construíram e mantiveram um dos maiores arsenais de artilharia da Europa, mas conceberam modelos de armas sem análogos no Ocidente.

Foi sob Ivan, o Terrível, que armeiros acrescentaram pela primeira vez ranhuras nas paredes interiores dos canos – o primeiro passo em direção às estrias em espiral que apareceram no século 19. Munições longitudinais, visores dianteiros e traseiros fixos, e sistemas de carregamento pela culatra são todas inovações desenvolvidas por mestres dos canhões russos que estavam à frente do seu tempo.

Início do mito

As crônicas medievais russas documentam uma série de produtores de armas prolíficas, sendo o mais famoso deles Andrêi Tchokhov, que desenvolveu o Canhão do Tsar em 1586. Concebido como a maior ameaça de seu tempo, o monstro de cinco metros de comprimento foi projetado para lançar balas de canhão de pedra - com 89 centímetros de diâmetro e quase uma tonelada – a uma distância superior a um quilômetro.

 
Imagem de canhão russo do século 16 Fonte: divulgação

O canhão deveria ser posicionado na muralha do Kremlin para defender Moscou, mas revelou-se demasiadamente grande para fixá-lo firmemente. Por mais de um século, a criação de Tchokhov ficou na Praça Vermelha, próxima à Catedral de São Basílio, e só foi transferida para o Kremlin no século 18.

No início do século 19, o Canhão do Tsar atraiu a atenção de historiadores, devido ao seu tamanho e cano imensos, além dos relevos equestres do tsar Fiódor, com sua coroa e cetro à mão. Sendo um dos dois retratos sobreviventes do filho de Ivan, o Terrível, em vida, o ornamento também inspirou o nome da arma.

Cenário perfeito

Os arquitetos do Kremlin colocaram a peça sobre uma carreta de canhão e, para potencializar o seu efeito, espalharam várias balas de canhão grandes sob seu focinho. Isso tudo foi pura invenção, no entanto, já que disparar bolas de metal teriam destruído uma arma medieval desse calibre.

Também por causa de seu tamanho acreditou-se por muito tempo que o Canhão do Tsar nunca teria feito um disparo sequer. Mas, no final do século 20, a análise de especialistas revelou que a arma havia trovejado pelo menos uma vez.

Alguns historiadores acreditam que o canhão foi utilizado em 27 de maio de 1606, para disparar e dispersar as cinzas do ‘Falso Dmítri’, um usurpador que tomou o trono fingindo ser filho de Ivan, o Terrível.

Verdade ou não, o Canhão do Tsar é um dos poucos exemplos remanescentes da tradicional produção de canhões russos. Se o seu imenso tamanho o tornou inviável como arma, essas dimensões também levaram Piotr, o Grande a poupá-lo quando fundiram todo o arsenal de artilharia do Kremlin para reconstruí-lo nos moldes europeus.

Dois morteiros também sobreviveram a essa ‘purga tecnológica’ e agora estão expostos em São Petersburgo. Coincidência ou não, ambos também foram desenvolvidos por Andrêi Tchokhov.

 

Aleksandr Verchínin é doutor em Ciências Históricas e pesquisador sênior do Centro de Análise de Problemas.

 

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