Jornais da URSS não noticiaram acontecimento

Jornais soviéticos não cobriram um dos acontecimentos mais importantes do século 20 Foto: Slava Petrákina/Gazeta Russa

Jornais soviéticos não cobriram um dos acontecimentos mais importantes do século 20 Foto: Slava Petrákina/Gazeta Russa

No dia 10 de novembro de 1989, as bancas soviéticas não receberam vários dos principais jornais da época. Foi o caso do Moskóvski Komsomolets, do Soviétskaia Rossia, do Komsomólskaia Pravda e do Trud. Nesse dia, chegaram às bancas apenas o Pravda e o Izvêstia. Mas, mesmo nesses, os leitores não encontraram uma única linha sobre a queda do Muro de Berlim, apesar de conterem algumas notas sobre a vida política da RDA (República Democrática Alemã).

A coluna daquele dia assinada pelo correspondente do Pravda em Berlim, Mai Podkliutchnikov, foi intitulada “Mudanças na RDA”, e dava conta da renúncia do governo da Alemanha Oriental. 

“Apelamos a todos os cidadãos com intenção de deixar nosso país que repensem sua decisão”, lia-se na coluna a transcrição do apelo feito pelo Conselho de Ministros da RDA.

Por essas palavras, o leitor mais atento poderia inferir que surgira a possibilidade de os cidadãos da RDA deixarem o país - o que significava que o Muro de Berlim já não existia. 

Uma indireta do gênero também pôde ser encontrada no Pravda de 11 de novembro. No artigo “Visita interrompida”, informava-se que o chanceler alemão Helmut Kohl encurtara em um dia sua visita à Polônia e voltara mais cedo para Bona “devido à situação dramática que surgiu na fronteira entre os dois Estados alemães”. 

“A República Federal da Alemanha pretende receber todos os alemães que a partir de agora desejarem se mudar para a RFA [República Federal da Alemanha]”, disse então o ministro do Interior da Alemanha, Wolfgang Schaeuble. Ele, porém, pediu aos cidadãos da RDA que “considerassem seriamente a decisão de sair, porque poderiam ter que viver muito tempo em condições habitacionais limitadas”. 

Até 20 de novembro, o Pravda continuou a cobrir os acontecimentos políticos da Alemanha Oriental e Ocidental sem tocar no assunto do muro. 

Porém, na edição de 12 de novembro, surgiu de novo uma menção à migração em massa e à devolução das carteirinhas do Partido da Unidade Socialista Alemã pelos habitantes da Alemanha Oriental em uma reportagem de Podkliutchnikov.

Por fim, no dia 14, o Moskóvski Komsomolets publicou uma nota sobre a ordem emitida para as tropas fronteiriças da RDA. Nela, lia-se: “Eles devem fazer tudo o que for necessário para ajudar na implementação ordenada e ininterrupta das novas regras reguladoras do regime de passagem pela fronteira da RDA com a RFA e Berlim Ocidental”. 

Já nas edições de novembro do Komsomólskaia Pravda, do Trud, do Soviétskaia Rossia e do Moskóvski Nôvosti, nenhuma dica sobre o ocorrido.

Com as celebrações do Dia da Polícia em 10 de novembro na União Soviética, todos os jornais se encheram de matérias sobre o valor da corporação e ninguém tocou no tema do Muro de Berlim. 

Adeus, Lênin

E o que, naqueles dias, era transmitido pela televisão e rádio? Em entrevista recente ao canal France 2, o correspondente da agência russa de notícias Tass, Aleksêi Goliaiev, disse que “no dia 9 de novembro, a rádio e a televisão soviética transmitiram apenas uma pequena mensagem composta por três linhas”. 

De acordo com Nikolai Kojanov, um dos jornalistas veteranos do Pravda, que funciona até hoje, quase não restaram repórteres daquela época para falar sobre uma possível proibição do assunto pelo governo. 

Nikolai Kojanov, um dos jornalistas veteranos do Pravda Foto: Slava Petrákina/Gazeta Russa

“Os jornalistas do Pravda sempre se destacaram por seu instinto político. E, claro, quando souberam da queda do Muro de Berlim, não tiveram nenhuma pressa em colocá-la no papel. Na essência, aquele acontecimento significava o colapso do socialismo, e escrever sobre ele significava reconhecer o colapso. Penso que nossa equipe achou que, de alguma forma, as coisas ficariam melhores e tudo voltaria ao lugar sozinho”, diz Kojanov. 

O Pravda tinha muito cuidado em não publicar eventos que pudessem lesar a reputação do regime. 

“Em 1953, por exemplo, após a morte de Stálin, aconteceram greves maciças de trabalhadores na RDA. A situação chegou a tal ponto que foram colocadas tropas na rua para dispersar os manifestantes. Mas, no Pravda, escrevia-se que as pessoas estavam apenas matando o dia de trabalho em Berlim”, conta Kojanov. 

“Não pense que o correspondente do Pravda em Berlim não sabia o que estava acontecendo. Em situações como essas, ele era obrigado a escrever uma ‘carta secreta’ e enviá-la não para a redação, mas diretamente para o Comitê Central do Partido. Nessa carta, ele relatava em detalhes a situação real. E, depois, os dirigentes do partido decidiam como o Pravda publicaria aquilo, explica.

 

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