A Rússia entre os aliados

O Exército russo conseguiu causar impacto nos dois primeiros anos da guerra Foto: RIA Nóvosti

O Exército russo conseguiu causar impacto nos dois primeiros anos da guerra Foto: RIA Nóvosti

Antes de assinar um tratado de paz em 1917, país fez importantes contribuições com o seu Exército Imperial Russo no reforço à guerra dos aliados.

Ao pensar sobre a Rússia e a Primeira Guerra Mundial, os historiadores geralmente se concentram no Tratado de Brest-Litovsk, que pôs fim à guerra para a Rússia, o mau desempenho do Exército russo e o papel que a guerra desempenhou no desencadeamento da Revolução de Outubro.
Mas, em vez disso, as pesquisas do historiador Sergue Andolenko analisam o papel desempenhado pela Rússia no esforço de guerra dos aliados. Nascido na Rússia, Andolenko foi general e historiador militar. Ele emigrou para a França após a Revolução de Outubro, onde estudou na Escola Militar Especial de Saint-Cyr.

Pável Andolenko, filho de Sergue e ex-oficial da Marinha Francesa, falou à Gazeta Russa sobre os estudos conduzidos pelo pai.

1914: O Marne

 O Exército russo foi um dos melhores de seu tempo, segundo Adolenko, mas tinha dois grandes problemas: as dimensões do território da Rússia e sua economia subdesenvolvida.
O império era tão grande que, logisticamente, era difícil manter o fornecimento de armas para o fronte. A economia da Rússia, que estava apenas começando a ser impactada pela modernização, não era forte o suficiente para resistir a um conflito global prolongado.


Foto: Corbis / All Over Press

No entanto, apesar dessas desvantagens, o Exército russo ainda conseguiu causar impacto nos dois primeiros anos da guerra. Em 17 de agosto de 1914, lançou uma ofensiva contra a Prússia Oriental, região da província alemã na costa sul-oriental do Báltico. A Rússia concordou em realizar a ofensiva a pedido dos franceses, para que o Exército francês pudesse se concentrar em defender o ataque alemão no Marne, no nordeste da França.

Essa ofensiva, que, segundo o historiador de São Petersburgo Víktor Pravdiuk, foi realizada “em prol dos aliados”, custou ao país nada menos que 100 mil homens e terminou com uma derrota na Batalha de Tannenberg.

Porém, as primeiras vitórias russas provocaram pânico no Alto Comando alemão – e tanto, que a Alemanha tirou dois corpos do exército e uma divisão de cavalaria do Fronte Ocidental para lutar contra a Rússia. Esta foi uma das razões para o “milagre” no Marne.

1915: Verdun
Andolenko descreve 1915 como “Verdun antes de Verdun”. E foi em 1915 que o Exército russo teve que enfrentar tudo o que a indústria alemã era capaz de produzir.

Em 1915, o número de perdas humanas superou até mesmo o de 1914, e a indústria russa se mostrou incapaz de acompanhar as exigências da guerra. Soldados russos foram forçados a pegar as armas de seus companheiros mortos no campo de batalha apenas para ter algo com o que lutar.

No entanto, a guerra continuou, com soldados russos usando baionetas, facas e até mesmo os próprios punhos. Mais de 1,4 milhão de soldados russos foram mortos ou ficaram feridos naquele ano.
Percebendo, porém, que não poderiam ganhar em ambas as frentes, os alemães ofereceram um acordo de paz com um bônus: os estreitos turcos e Constantinopla.
Do ponto de vista militar, os próprios russos deveriam ter pedido uma trégua, já que sua inferioridade em termos de armas e equipamentos estava resultando em enormes perdas. Mesmo assim, o tsar Nikolai II decidiu rejeitar a oferta alemã.

1916: Recuperação russa

 Em 1916, a Alemanha voltou sua atenção para a Frente Ocidental. Os russos usaram o breve período de alívio para abastecer e reequipar suas forças, lançando mais tarde pelo menos duas grandes campanhas, que se revelariam decisivas para o resultado final da guerra.

A primeira delas foi uma ofensiva em junho, liderada pelo general Aleksêi Brusilov, na Bessarábia – região que atualmente faz parte da Moldávia e da Ucrânia. A iniciativa incapacitou dois milhões de combatentes inimigos.

A segunda foi liderada pelo general Nikolai Iudenitch, que derrotou os turcos nas montanhas do Cáucaso, na fronteira sul da Rússia, e conseguiu chegar ao rio Eufrates, na Turquia.

Ilustração: Natália Mikhaylenko

A recuperação do Exército russo trouxe novo otimismo aos aliados. Winston Churchill, ministro das Armas da Grã-Bretanha, observou que “alguns episódios da Grande Guerra são mais surpreendentes do que a restauração, a reconstituição e o esforço gigantesco da Rússia em 1916”.

No início de 1917, muitos participantes e observadores do conflito de ambos os lados estavam convencidos de que o Exército russo já havia vencido a guerra, pelo menos de acordo com o general Adolenko.“O Exército russo não foi derrotado; muito pelo contrário”, diz seu filho, Pável Andolenko.

1917: Abdicação do Tsar

 Em janeiro de 1917, os austríacos começaram a negociar com os franceses, ingleses e italianos para dar um fim à guerra – fato que o tsar Nikolai II desconhecia. Se o imperador soubesse, ele provavelmente não teria abdicado em março – uma ação que teve um profundo efeito sobre o moral dos soldados do Exército russo.

Sem imperador, eles não sabiam por quem estavam lutando. Afinal, o lema do Exército Imperial era “Fé, tsar e pátria”.

Estima-se que 2 milhões de soldados russos tenham morrido na Primeira Guerra Mundial. As perdas russas superaram até as francesas, que totalizaram cerca de 1,4 milhão. “Os exércitos francês e russo foram os que mais se sacrificaram pela vitória, e devemos ter em mente que ambos lutaram em estreita cooperação durante a guerra, cada um se esforçando para aliviar o outro e suportando os principais ataques do inimigo”, afirma Pável Andolenko.

No final da guerra, apesar do Tratado de Brest-Litovsk, o marechal francês Ferdinand Foch escreveu: “A França não foi apagada do mapa da Europa sobretudo devido à coragem dos soldados russos”.

 

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