"O Braço de Diamante": fonte de expressões para os russos

Há 45 anos, a excêntrica comédia dirigida por Leonid Gaidai "O Braço de Diamante" aparecia nas telas. Muitas frases desse filme entraram na fala de vida cotidiana e tornaram-se parte integrante da língua russa moderna.

“‘O Braço de Diamante’ – é um filme de James Bond virado ao avesso”. Até o nome refere-se a um dos mais famosos filmes de James Bond, “Goldfinger”. Mas se no caso de Bond estamos lidando com um super-homem profissional, aqui estamos diante de um cidadão soviético comum, ingênuo e crédulo, Semion Gorbunkov, equivocadamente envolvido em uma história criminosa de contrabando de jóias. O sucesso do filme explica-se sobretudo pelo fato de que nele, ironicamente, foram apresentadas marcas ideológicas da época soviética.

"Turista russo - óblico morale!"

Fonte: YouTube

No longa, Semion Gorbunkov chega a uma cidade ocidental juntamente com um grupo de turistas. Uma prostituta faz uma tentativa de atrair-lhe na rua. Um companheiro de viagem, o contrabandista Guecha Kozodoev, diz com orgulho em pseudo-italiano: "Rousso turista - óblico morale". O sexo na URSS era um tabu e a resistência de "caráter moral" do homem soviético nunca foi posta em dúvida. A frase passou a ser usada em situações onde é preciso ironicamente recusar uma proposta interessante mas inadmissível.

Outra expressão nascida nessa cena era algo absurdo e incompreensível  pronunciado por uma prostituta para atrair clientes: "Tsigel-tsigel-ay-lulu", que entrou na linguagem cotidiana e significa "Venha depressa! Depressa!".

"Sorvete para crianças e flores para a avó"

Fonte: YouTube

Depois de voltar para a Rússia, o vilão charmoso Guecha Kozodoev foi conhecer a família de Semion Gorbunkov (com diamantes contrabandeados escondidos no braço enfaixado). Liolik, um parceiro de Geschin, dá um conselho sobre presentes simbólicos: "Sorvete para crianças, flores para a avó, e não se confunda!". Mas é claro que Guecha confunde tudo e entrega sorvete para a esposa e flores para as crianças. A frase é usada como incentivo para uma pessoa insegura que terá responsabilidades em alguma situação oficial protocolar.

"Semion Semiónich ..."

Fonte: YouTube

Um oficial de inteligência, Mikhail Ivanovitch, começa a trabalhar com Semion. Ele lhe dá instruções, uma grande quantidade de dinheiro, um maço de dinheiro trocado (impensável para o cidadão soviético médio) e, em caso de necessidade, uma arma falsa, que ele, ingenuamente, tenta esconder encima de sua cabeça, embaixo do chapéu de verão. "Semion Semionovich ...", diz Mikhail Ivanovitch com tom decepcionado,  querendo dizer "Como pode, você é igual a uma criança ...". Desde então, justamente com esse tom, "Semion Semionovich ..." significa reprovação por uma expressão ou comportamento não muito adequado,  ingênuo.

"Caso vocês passem por Kolima, sejam bem-vindos"

Fonte: YouTube

Os criminosos convidam Semion para um restaurante com o objetivo de remover os diamantes de seu braço no momento em que ele ficar bêbado. No restaurante, um dos visitantes (com a aparência de um criminoso reincidente) confunde Semion com seu velho amigo. Quando o mal-entendido se esclarece, o "criminoso" convida seus novos amigos para visitá-lo: "caso vocês passem por Kolima, sejam bem-vindos."

Engasgado e assustado, Guecha diz: "É melhor vocês virem para cá. Kolima é um lugar onde muitos criminosos cumprem pena, não é apenas um lugar geográfico, é também um símbolo sinistro.”

A frase é usada em situações em que, de acordo com a etiqueta, é preciso convidar alguém mas todos entendem que o convite tem um caráter ritual e é pouco provável que a visita aconteça.

"Nosso povo não vai de táxi para a padaria"

Fonte: YouTube

O oficial de Inteligência Mikhail Ivanovitch, disfarçado de motorista de táxi, encontra-se com Semion, que diz estar indo para a padaria para comprar pão para a zeladora do prédio, que controla o comportamento dos todos os moradores (personagem tradicional e facilmente reconhecível da época de Stálin). Após a reunião, Mikhail Ivanovitch leva-o para casa de carro. A zeladora do prédio diz: "Nosso povo não vai de táxi para a padaria".

A frase é usada ironicamente quando alguém vive além de seus meios financeiros, tem gastos excessivos e joga dinheiro fora. Na época pós-soviética, quando esse tipo de comportamento tornou-se bastante comum, a frase perdeu seu sentido.

"Deveria ter sido eu em seu lugar”

Fonte: YouTube

Semion, que tem medo de assaltos, vê um homem deitado na rua à noite. Ele diz ao policial que acaba de chegar: "deveria ter sido eu em seu lugar."

"Quando você ficar bêbado, estará em seu lugar", responde o policial, carregando um bêbado barulhento para o carro de patrulha (na era soviética, os bêbados de rua eram levados para uma instituição especial –o centro de desintoxicação, onde os mantinham até a manhã).

"Só aristocratas ou imbecis bebem champanhe de manhã"

Fonte: YouTube

Essa frase, dita por Liolik a Guecha na manhã após a festa no restaurante, agora pode ser aplicada na situação da ressaca de manhã; a ironia é que, em geral, bebe-se cerveja ou vodka.

 

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