"Guardar energias em Moscou é um desafio"

"Este ano foi marcado pela ausência de grandes nomes, no contexto das sanções à Rússia, destacadas na abertura e no encerramento pelo diretor do festival, o cineasta Nikita Mikhalkov" Foto: Getty Images/Fotobank

"Este ano foi marcado pela ausência de grandes nomes, no contexto das sanções à Rússia, destacadas na abertura e no encerramento pelo diretor do festival, o cineasta Nikita Mikhalkov" Foto: Getty Images/Fotobank

Criador do festival 'É Tudo Verdade', Amir Labaki participou do júri do Festival Internacional de Cinema de Moscou e destaca alguns dos principais acontecimentos do evento.

Aconteceu em junho a 36ª. edição de um dos mais antigos e prestigiados eventos do cinema mundial, o Festival Internacional de Cinema de Moscou. Desde a primeira edição, em 1935, quando teve o júri presidido por Serguêi Eisenstein, o festival já premiou Kurosawa, Fellini e Zanussi, entre outros diretores.

Neste ano filme “My Man” ("Meu homem"), do japonês Kazuyoshi Kumakiri, recebeu o prêmio principal.

O crítico, cineasta e jornalista brasileiro Amir Labaki, criador e diretor do festival de documentários “É Tudo Verdade”, participou do júri da categoria não ficção neste ano.

Labaki falou à Gazeta Russa sobre sua participação:

Gazeta Russa: Que importância tem para o público brasileiro esse festival?

Amir Labaki: Grandes festivais internacionais espelham a força específica da cultura cinematográfica do país que os abrigam. E a tradição russa é fortíssima, de Bauer e Eisenstein a Tarkóvski e Sokurov.

GR: O festival acabou prejudicado pelo conflito na Crimeia?

AL: Sem dúvida. Este ano foi marcado pela ausência de grandes nomes, no contexto das sanções à Rússia, destacadas na abertura e no encerramento pelo diretor do festival, o cineasta Nikita Mikhalkov.

Não sei quanto ao acesso a filmes específicos, pois mesmo grandes blockbusters hollywoodianos tiveram pré-estreia no festival. Mas, certamente, [houve prejuízo] quanto à presença de grandes estrelas internacionais.

GR: Que boas expectativas se confirmaram?

AL: Os principais documentaristas selecionados estiveram em Moscou, como o francês Thomas Balmès e os americanos Godfrey Reggio e Alex Gibney. As sessões de documentários a que assisti estavam sempre cheias, o que sinaliza o sucesso na formação de público.

GR: Por que a América Latina (Brasil inclusive) esteve ausente da mostra competitiva?

AL: Não sei. Mas há uma mostra paralela específica, Anima Latina.

GR: A aliança dos Brics não deveria proporcionar maior intercâmbio?

AL: Existe muito trabalho a ser feito. Acho que [a aliança dos Brics] facilita, mas não é automática a extensão de uma maior integração econômica para o campo cultural.

GR: Poderia comentar a participação brasileira?

AL: O cinema brasileiro marcou presença em seções especiais [fora de competição]. O policial “O Lobo Atrás da Porta”, de Fernando Coimbra, esteve no ciclo paralelo Anima Latina.

Entre as sessões especiais estava “O Sal da Terra”, um perfil do fotógrafo Sebastião Salgado co-dirigido por Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado, premiado recentemente em Cannes.

Já a mostra informativa de documentários “Free Thought” apresentou “Borsch - Uma Receita Russa”, de Mariana Quintanilha, vencedor entre curtas-metragens brasileiros do “É Tudo Verdade” deste ano.

GR: Além de jurado, você teve alguma outra participação?

AL: Sim, na 6ª. edição do Moscow Business Square [plataforma de negócios do Festival], que contou com dois convidados brasileiros nos seminários, o assessor internacional da Ancine, Eduardo Valente, e eu.

GR: O festival abriu portas para novas realizações?

AL: Sim, 3 projetos em busca de parceiros de co-produção foram selecionados para pitchings [captação de investidores e realizadores]. Um é o documentário “Maria Prestes”, sobre a viúva de Luiz Carlos Prestes, a ser dirigido por Ludmila Curi.

Tem também “Defeat”, a ser dirigido por Davi de Oliveira Pinheiro, sobre a invasão da Rússia por Napoleão, e “Oranya”, também ficção, sobre a parceria entre um russo e um brasileiro para facilitar a imigração para São Paulo no entreguerras, a ser realizado por Christiano Sensi.

GR: Festivais também são oportunidades para redescobertas. Você teve alguma?

AL: Sim, uma reflexão sobre o totalitarismo, “Fascismo Comum” (1965), de Mikhail Romm, às vésperas de celebrar-se o cinquentenário de sua produção. É dos menos conhecidos clássicos do chamado documentário de arquivo e uma obra de grande impacto na então URSS.

GR: E entre os documentários?

AL: Destaco o vencedor, o polonês “Amor Profundo”, de Jan P. Matuszynski. O filme acompanha a recuperação de um mergulhador sexagenário, que sofre um acidente vascular cerebral.

É desses documentários tornados possíveis pela revolução digital, essencial tanto para a intimidade conquistada junto aos protagonistas, quanto para a longa curva temporal da gravação.

GR: Algum destaque russo nessa área chamou a atenção?

AL: Achei muito interessante o único documentário russo em competição, “Cardiopolitika”, de Svetlana Strelinikova. Nele, acompanhamos o renomado cirurgião cardíaco Serguêi Sukharov, empenhado na construção de um hospital público na região de Perm.

Sukharov mergulhou na campanha eleitoral que em 2012 reconduziu Vladímir Pútin à presidência. É curioso ver também na Rússia atual o toma-lá-dá-cá que tanto castiga a política brasileira.

Fora de concurso, o mais novo documentário de Vitáli Mânski, “O Livro”. É uma investigação ampla da identidade armênia hoje.

GR: Qual sua maior dificuldade neste Festival?

AL: Foi conter-me, fora da agenda oficial, para não esgotar as energias diante do fascínio de Moscou para um visitante em primeira viagem.

 

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