Proibição de alguns tipos de calcinhas gera polêmica na Rússia

Apesar das notórias declarações de blogueiros, a nova legislação não proíbe as calcinhas de renda por completo Foto: Andrêi Iglov/RIA Nóvosti

Apesar das notórias declarações de blogueiros, a nova legislação não proíbe as calcinhas de renda por completo Foto: Andrêi Iglov/RIA Nóvosti

A Gazeta Russa recorda os problemas dos cidadãos da União Soviética relacionados a uma importante peça de vestuário e explica os danos que as calcinhas proibidas por nova lei são capazes de causar à saúde feminina.

A entrada em vigor de uma nova lei que proíbe a fabricação e venda de alguns tipos de calcinhas femininas na Rússia não agradou produtores, vendedores e consumidores. No entanto, há poucos anos, a roupa íntima de qualidade foi uma verdadeira raridade nas prateleiras das lojas russas.  

Apesar das notórias declarações de blogueiros, a nova legislação não proíbe as calcinhas de renda por completo, mas estabelece apenas certas exigências para a sua segurança, tais como a capacidade de absorção de no mínimo 6%, descartando os tecidos sintéticos, cujo valor não supera 3%.

"A roupa íntima feita dos materiais sintéticos compromete a respiração cutânea, portanto, o seu efeito é igual ao de uma sacola plástica", explicou Elena Uvarova, professora do Departamento de Ginecologia, Obstetrícia, Perinatalogia e Ciência da Reprodução de uma das maiores faculdades médicas da Rússia, nas páginas de discussão da revista russa “Snob”.

Na sua opinião, o governo deveria ter adotado medidas educativas em vez de proibitivas, que não respeitam os direitos dos cidadãos.

"Eu considero a nova lei uma invasão inadmissível na vida pessoal de qualquer ser humano", ressaltou dermatologista Daria Baskakova nas páginas do site.

Feiura e qualidade soviéticas

A nova lei de calcinhas virou um motivo de preocupação para todos que ainda recordam a época de déficit comercial na União Soviética, que chegou ao fim apenas em 1991 junto com a derrubada da Cortina de Ferro. A partir de então, a população feminina finalmente ganhou a oportunidade de substituir as calcinhas confortáveis, porém sem graça, pelas lingeries importadas feitas de tecidos sintéticos e renda.

A famosa atriz russa Renata Litvinova lamenta no seu documentário "Beleza Escondida": “A história da roupa íntima na Rússia é uma história de humilhação e sacrifício ao quais os cidadãos comuns foram submetidos pelos seus dirigentes."

Segundo as então autoridades do país, a população precisava dedicar todo o seu tempo e esforços à construção e manutenção do regime comunista sem se preocupar com detalhes como a beleza das roupas íntimas. No seu trabalho de pesquisa "Calcinhas e Cuecas  na Cultura Soviética: as Peculiaridades das Peças Íntimas", a socióloga Olga Gurova ressalta a aparência "decente" como a principal exigência apresentada a este elemento de vestuário. De acordo com o senso comum da época, uma peça de roupa era considerada "decente" se o seu tamanho e cor serviam para o seu proprietário. Sem mais nem menos, pois as características como a qualidade e a segurança foram julgadas mais importantes do que todas as outras.

Além disso, de acordo com os padrões soviéticos de beleza, uma mulher atraente teria um corpo proporcional e musculoso com cintura fina e quadril largo, sem mencionar os seios volumosos capazes de alimentar muitos futuros comunistas. Como a sensualidade não entrava nesta lista de exigências, a roupa íntima que despertasse desejo não foi incluída na lista de prioridades nem de mulheres, nem de homens soviéticos.

Numa festa organizada em 1921 em São Petersburgo, Herbert George Wells foi abordado por um escritor que disse: "Nenhum dos convidados presentes no evento teria coragem de tirar o seu colete na frente do senhor, pois debaixo dele escondem-se os farrapos sujos que um dia poderiam ser chamados, se não me engano, de roupa íntima."

As calcinhas e cuecas soviéticas viraram um exemplo de feiura e mau gosto para os turistas estrangeiros.

"Em 1958, os amigos franceses Yves Montand e Simone Signoret aproveitaram a viagem de negócios ao país para comprar as amostras das roupas íntimas soviéticas, como  pantalonas, meias marrons de algodão e sutiãs, cujo visual lembrava um paraquedas, para uma futura exposição que chocou as francesas", conta Renata Litvinova.

Apenas o começo

Apesar da falta de interesse por parte dos dirigentes soviéticos, as tentativas tímidas de apresentar às cidadãs do país lingeries de qualidade e estilo aconteciam de vez em quando. Em 1954, a declaração da Ekaterina Furtseva, a única funcionária pública de alto escalão do governo, que dizia que "cada mulher soviética tenha direito de adquirir um sutiã de qualidade", resultou no aparecimento de sutiãs nacionais resistentes, porém de pouco estilo.

A partir do final da década de 60, a oferta das peças íntimas nas lojas soviéticas foi ampliada pelas roupas de renda e combinações de tecido sintético usadas como vestidos para sair por muitas mulheres não acostumados com este tipo de luxo.

A queda da União Soviética apresentou à população feminina do país uma ampla variedade de roupas e acessórios sensuais. Vinte anos mais tarde, as russas não imaginam a sua vida sem as múltiplas opções oferecidas pelo mercado das peças íntimas. Portanto, temem a repetição da situação vivida pelas mulheres soviéticas independentemente das boas intenções por parte dos legisladores do país. Isso é apenas um começo, acreditam elas.

Qualquer proibição limita a liberdade e uma grande parte da população ainda lembra a época de total controle. Mesmo se a proibição refere-se a um objeto tão pequeno como uma calcinha.

 

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