A profecia de Soljenítsin

Soljenítsin em sua primeira coletiva no Ocidente desde que fora expulso da URSS, em 1974 Foto: AP

Soljenítsin em sua primeira coletiva no Ocidente desde que fora expulso da URSS, em 1974 Foto: AP

Aleksandr Soljenítsin, escritor e dissidente soviético, conseguiu prever os recentes eventos no território ucraniano cerca de meio século atrás. No texto da sua famosa obra literária “Arquipélago Gulag”, o autor se refere ao futuro estrangulamento das relações russo-ucranianas provocado pela divisão dos países conforme o líder comunista Vladimir Lênin, que atribuiu à Ucrânia territórios que nunca a pertenceram.

Na época da União Soviética, quando ambos os países faziam parte de um Estado único, Soljenítsin não descartava a possibilidade de separação da Ucrânia. Porém, mostrava-se a favor da realização de referendos com a participação de população de todas as regiões.

No segundo capítulo de “Arquipélago Gulag” escrito em 1968 e publicado em 1974, o escritor escreve: 

“Me dói escrever sobre isso. Os meus lados ucraniano e russo unem-se no meu sangue, no meu coração e no meu pensamento. No entanto, uma vasta experiência de interação amigável com os ucranianos nos campos de prisioneiros me revelou toda a sua dor. Nossa geração não escapará do pagamento pelos erros dos nossos antepassados.

Bater o pé e colocar-se contra os forasteiros é a maneira mais simples de resolução do problema. Muito mais difícil é estabelecer um convívio pacífico entre os representantes de várias nacionalidades. Apesar de todas as previsões da Teoria Progressista, a época de energia atômica e cibernética facilitou a propagação do nacionalismo. Portanto, independentemente das nossas vontades, logo chegará a hora de pagar tanto pela autoidentificação, quanto pela independência. Somos obrigados a enfrentar essa cobrança para que seja possível evitar as consequências violentas de qualquer demora. Precisamos provar que a grandeza da nossa nação não consiste no nosso amplo território ou na quantidade de povos que o habitam, porém, na grandeza das nossas atitudes e na capacidade de aproveitar o que sobraria após a separação das regiões que não querem mais ser parte de nós.

O futuro das relações russo-ucranianas será sofrido. Precisamos encarar a realidade: se os problemas internos não haviam sido resolvidos ao longo de séculos, desta vez precisamos ser sábios. Somos obrigados a oferecer à população da Ucrânia o poder de tomar a própria decisão, deixar que os federalistas e separatistas resolvam a situação entre si. Caso contrário, a demência e a violência tomarão conta de tudo. A nossa paciência, delicadeza e vontade de ajudar permitirão a nossa futura união com o povo ucraniano.

Precisamos deixá-los experimentar essa nova liberdade. Eles logo entenderão que a separação não resolve todos os problemas. Certas complicações podem ser provocadas pela autoidentificação dos moradores de algumas partes da Ucrânia como pertencentes à nacionalidade russa, enquanto os outros se consideram ucranianos ou acreditam que não possuem ligação com nenhum desses povos. Talvez cada região precise organizar seu próprio referendo, enquanto a Rússia deverá demonstrar respeito e carinho a todos que ficarem do seu lado. Uma parte da Ucrânia moderna, cujo território foi formado pela decisão das autoridades soviéticas, não a pertence, tais como as regiões da margem esquerda que possuem forte ligação com a Rússia. Exemplo disso é a Crimeia, que foi atribuída ao território ucraniano por Nikita Khruschov, líder soviético, sem qualquer motivo aparente. Qual seria o futuro da Transcarpátia habitada pelos russos étnicos? Os ucranianos que clamam à justiça em relação a si mesmo terão uma atitude justa para com os habitantes dessa região?”

Em abril de 1981, o fragmento de uma carta escrita pelos participantes da Conferência de Relações Russo-Ucranianas, incluindo Soljenítsin , e endereçada ao Instituto Ucraniano de Pesquisa da Universidade de Harvard trazia observações semelhantes: 

“Concordo plenamente com as opiniões que colocam o assunto russo-ucraniano na lista dos principais problemas atuais, sendo ele da extrema importância pelo menos para esses dois povos. No entanto, acredito que todas as repercussões e debates relacionados a esta questão prejudicam o processo da sua resolução.

Já disse mais de uma vez e posso repetir novamente que não adianta segurar alguém a força, os lados do conflito não podem usar violência nem em relação aos seus opositores, nem a si mesmo, nem ao povo, nem à minoria que faz parte dele, pois cada minoria inclui outra como uma das suas integrantes. A opinião da população local deve ser identificada e usada na elaboração do plano de ação em todos os casos, sem qualquer exceção. Portanto, apenas os cidadãos em questão podem de fato resolver todos os conflitos, ao contrário das comunidades de imigrantes distantes com uma percepção deformada da realidade.

Eu sinto uma imensa dor de presenciar a intolerância que acompanha os debates referentes ao assunto russo-ucraniano, prejudicando ambas as nações e sendo proveitosa apenas para os seus inimigos. Sou uma mistura de sangue russo e ucraniano, fui criado sob a influência de ambas as culturas, nunca notei e continuo não notando a existência de conflito algum entre elas. Escrevi inúmeras obras e artigos, assim como realizei várias palestras em relação à Ucrânia e seu povo, falei sobre a tragédia provocada pela fome na história do país, tenho muitos velhos amigos ucranianos e sempre estive ciente do sofrimento das duas nações na época de comunismo. Não há lugar para o conflito russo-ucraniano no meu coração. Tenho uma grande esperança de que a situação não chegue ao ponto final, mas, caso isso aconteça, posso afirmar com toda a certeza de que não participarei nem deixarei que os meus filhos façam parte do confronto armado, apesar de toda a motivação por parte de dirigentes malucos.”

Em junho do mesmo ano, um artigo publicado na revista “Rússkaia Misl” trazia novamente à tona a questão da separação da Ucrânia. No entanto, a primeira publicação deste texto em território russo foi feita apenas em 1993 pela revista “Zvezda”.   

Hoje em dia, a separação da Ucrânia significa também a separação dos milhões de cidadãos e suas famílias devido à mistura étnica que existe dentro da população. Além de dominar regiões inteiras, ambas as nações incluem pessoas que não se identificam com qualquer uma delas, assim como muitas são de origem mista, frutos de casamentos entre russos e ucranianos, que até agora não foram considerados mestiços. Entre os cidadãos comuns pertencentes a ambas as etnias não há intolerância, mas, se o povo ucraniano desejasse se separar, ninguém teria coragem de impedi-lo. Devido à existência de uma grande variedade de opiniões em relação ao assunto, apenas a população local poderá escolher o destino da sua região específica. No entanto, toda minoria criada por qualquer decisão tem direito de escapar da violência em relação a si mesma.

 

Publicado originalmente pela Rossiyskaya Gazeta


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