Tragédias inéditas de Púchkin ao som de rock em São Paulo

Escritor mais amado pelos russos é ainda é pouco conhecido no Brasil, e novidade nos teatros locais.

Estreou, na última quinta-feira (20), na Caixa Cultural São Paulo, a peça “Pequenas Tragédias”, com texto de Aleksandr Púchkin (1799-1837). As apresentações são gratuitas e seguem em temporada somente até o dia 30 de março. No dia 29, às 16h, um debate aberto ao público contará com a presença do diretor, dos atores e do tradutor Sean McIntyre.

A montagem é a reunião de quatro peças curtas de Púchkin, escritas entre 1824 e 1830. Ana Carbatti e Renato Carrera dividem um pequeno espaço cênico dirigidos por Fabiano de Freitas.  

O espetáculo é aberto por “Conversa entre o Livreiro e o Poeta”, um duelo verbal entre um escritor que só tem olhos para a literatura e seus processos criativos e um livreiro que vê a poesia como mercadoria e para quem “versinhos são mera diversão”.

Seguem-se “Cena do Fausto”, baseada na tragédia clássica de Goethe, em que um homem faz um pacto com o demônio, e “Mozart e Salieri”, sobre a inveja que um músico de talento sente de um gênio pouco convencional.

Encerrando a apresentação vem “O Convidado de Pedra”, inspirada no mito de Don Juan, um sedutor que se apaixona por uma viúva, cujo marido ele próprio matou. Todos os textos tratam da inevitabilidade do destino trágico e, com exceção de “Mozart e Salieri”, são inéditos nos palcos brasileiros.

Jogo de cena

O diretor explica que as peças são apresentadas nessa ordem para mergulhar o espectador na trama. “Começar com o livreiro é como instalar o assunto, o drama que Púchkin vivia na transição do romantismo para a modernidade, que passava pela comercialização da arte”, diz o diretor, Fabiano Freitas.

A montagem marca o espaço cênico com um corredor atapetado, delimitado por lâmpadas de led, tendo em cada uma das extremidades um pequeno palco.

Dois microfones, rabeca, guitarra, cadeiras e um pequeno portal encortinado completam o cenário. O público fica nas laterais desse ambiente que não remete a uma época determinada nem a um lugar definido, no qual temas clássicos como a morte, a inveja, o desejo e a ambição são encenados.

A peça mistura o gênero dos personagens com o dos atores. “O texto de Púchkin passa pela questão do ser humano, permitindo essa brincadeira leviana de passear entre o masculino e o feminino. Don Juan, por exemplo, é uma energia sexual sem gênero”, diz Ana Corbatti.

A linguagem coloquial se mistura com músicas que vão do clássico ao rock, variações acompanhadas pelo humor dos personagens, que vivem extremos como a euforia e a melancolia, às vezes dentro da mesma cena. O lúdico é o grande motor entre os atores da montagem.

“Para o espetáculo, eu e a Ana fizemos uma oficina de 'clown', a fim de poder utilizar o jogo, que parte do princípio do palhaço de se desconstruir, deixar o outro dominar, ser o oposto, como [os personagens de] O Gordo e o Magro”, afirma o ator Renato Carrera.

Aristocrata universal e popular

Nobre de nascimento, mas com uma obra que incorporou muito do espírito e da linguagem coloquial do povo russo, Púchkin moldou sua literatura como uma reação ao atraso da Rússia da primeira metade do século 19, dividida entre o europeísmo e o eslavismo.

Morto ao duelar com o suposto amante de sua mulher, ele é o mais aclamado dos mestres da literatura russa por seus conterrâneos. Escreveu poesias, contos, peças teatrais, romances e ambicionou criar uma obra que reverberasse além das fronteiras do país.

Autor do primeiro grande romance russo, “Evguêni Onéguin”, compôs com o personagem-título um aristocrata ocidentalizado, algo inútil, com ar superior e indiferente, cujas características influenciaram personagens de Turguêniev, Gontcharov, Tolstói, Dostoiévski e Tchekhov.

O crítico e ensaísta austríaco Otto Maria Carpeaux, tão rigoroso quanto erudito, escreveu que “Púchkin significa para os russos uma literatura inteira” ou “a literatura universal em língua russa”.

 

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