Os segredos do chá de Krasnodar

Árvores plantadas por Kochman são as mais antigas do território russo, de modo que o chá feito de suas folhas é o melhor de todo o país Foto:  Mikhail Mordasov / RIA Nóvosti

Árvores plantadas por Kochman são as mais antigas do território russo, de modo que o chá feito de suas folhas é o melhor de todo o país Foto: Mikhail Mordasov / RIA Nóvosti

História de produto famoso por suas propriedades únicas é desconhecida até pelos verdadeiros apreciadores.

Os visitantes presentes nos Jogos Olímpicos de Sôtchi, em fevereiro passado, puderam provar o famoso chá de Krasnodar e apreciar não só o seu aroma refinado, como apreciar o seu forte efeito tônico. Porém ,a história do chá de Krasnodar remonta a 150 anos atrás, quando os impérios russo e britânico disputavam a liderança no mercado.

Naquela época, a matéria-prima era cultivada apenas na China e transportada para o território europeu a partir do porto chinês de Nanquim (dominado pelos ingleses) ou pela passagem que atravessava a fronteira entre a Rússia e a China, próxima à cidade russa de Kiakhta. Apesar da forte presença dos ingleses no mercado mundial, os comerciantes russos não os consideravam grandes concorrentes, pois o transporte marítimo usado pelos britânicos não evitava o calor e a umidade prejudiciais às folhas.

Mais tarde, seguindo o exemplo dos ingleses que começaram a cultivar o chá no território da Índia e do Ceilão, os produtores russos decidiram a expandir os locais de produção. A aclimatização das árvores de chá foi iniciada no século 19 na região sul do Império Russo, hoje ocupada pela Geórgia e Azerbaijão. A partir do início do século 20, as plantações dos agricultores russos começaram a dar safras regulares, porém, a qualidade das folhas locais deixava a desejar devido à má qualidade do solo.

Logo depois do começo da produção e comercialização do chá russo, o setor recebeu apoio inesperado do Iúda Kochman, uma figura misteriosa e pouco conhecida pelos historiadores. Dizem que ele nasceu em uma pequena cidade da Ucrânia povoada por judeus e chegou às plantações de chá georgianas em busca de emprego.

Iúda Kochman (centro) com sua família Foto: Museu Histórico de Sôtchi

No início do século 20, Iúda Kochman, já com 60 anos, morava na região serrana da cidade de Sôtchi, onde comprou um terreno com o capital acumulado ao longo dos anos de trabalho pesado nas plantações de chá. Nessas terras, Kochman e sua família começaram o processo de aclimatização das árvores de chá trazidas da Geórgia.

Em apenas quatro anos, as árvores de Kochman se adaptaram às condições climáticas de tal forma que não necessitavam de mais nenhuma cobertura ao longo do inverno, quando a temperatura poderia baixar para até -12°C. Em 1913, a família do agricultor colheu a sua primeira safra e demonstrou as características únicas do solo local que atribuía ao chá de Krasnodar o sabor doce, a cor amarela-escuro e o cheiro de flores capazes de competir com os dos melhores chás chineses. Além disso, as baixas temperaturas diminuíram a quantidade de brotos nas árvores de chá, deixando-os com maior concentração de substâncias tônicas.


Embalagens do chá de Krasnodar Foto: Vladímir Perventsev / RIA Nóvosti

Apesar do sucesso incontestável, o produtor enfrentou muitos obstáculos antes que o seu grande trabalho fosse reconhecido pelas autoridades. O museu aberto em sua antiga residência guarda as múltiplas respostas negativas recebidas da Academia de Ciências da Rússia. Os cientistas não acreditavam nos relatórios apresentados pelo agricultor, e o monopólio de chá da Geórgia conseguiu até abrir um processo criminal contra ele, condenando-o à prisão. A esposa do selecionador foi obrigada a pagar uma fiança para libertar o marido.

Foi apenas aos 70 anos, já na época da União Soviética, que o agricultor recebeu a medalha de ouro por seu trabalho durante uma exposição agrícola. Kochman morreu quase aos cem anos e foi enterrado junto com a esposa entre as árvores de chá, que até hoje continuam dando frutos.

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