Uma tradução simples, concisa e profunda para Tchekhov

Foto: arquivo pessoal

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Denise Sales, colunista da Gazeta Russa e tradutora do gênio russo, conta quais os desafios para trazê-lo aos leitores brasileiros.

Novela inédita no país de Anton Tchekhov (1860-1904), “Três anos” chega aos leitores brasileiros pela Editora 34. A história de matriz autobiográfica do jovem casal Aleksei Laptiev e Iúlia Belavina, vivendo numa Rússia onde a servidão chega ao fim, tem tradução, notas e posfácio de Denise Sales.

Trazer o gênio russo para a língua portuguesa, tarefa a que se lançaram mestres da tradução como Boris Schnaiderman e Tatiana Belinky, é prazer e desafio para a doutora em Literatura e Cultura Russa pela Universidade de São Paulo (USP), há dois anos professora de Língua e Literatura Russa na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS), cuja trajetória coincide com a expansão desse campo de estudos no Brasil.

O interesse pela Rússia e pelo idioma surgiu por acaso -- ou talvez nem tanto, como ressalta. Retornava a São Paulo depois de uma temporada no interior mineiro, e, procurando um curso de inglês para aprimorar os conhecimentos do idioma, se assustou com os preços.

“Lembro-me nitidamente do dia em que, decidida a não empenhar uma fortuna no inglês, li no jornal sobre várias opções de cursos de idiomas: alemão, italiano, francês... e russo! Encantei-me com o idioma, com aquelas letras ‘viradas ao contrário’, como diz minha mãe.” Decidiria pouco depois fazer novo vestibular, apesar de já graduada em jornalismo pela UFMG. Iniciaria em 1994 o curso de letras da USP.

Em mais dois anos ocorreria outro desses acasos. Uma professora visitante contou-lhe de uma vaga no departamento português da Rádio Voz da Rússia. Assim foi que embarcou dois meses depois para Moscou.  “Consegui unir duas paixões num pacote só”, relembra.

De 1996 a 1998, viveu o que considera “a experiência que ajudou muito a compreender melhor o povo russo e a sua cultura.” De volta, construiu carreira na universidade. No mestrado, sob orientação de Noé Silva, estudou os contos de Mikhail Zóschenko (1894-1958). No doutorado, orientado por Arlete Cavaliere, dedicou-se à História de uma cidade”, de Mikhail Evgráfovitch Saltikov-Schedrin (1826-1889).

Como tradutora, define os últimos três anos como particularmente produtivos. Contribuiu com dois grandes projetos da Editora 34: a “Nova antologia de contos russos” e a “Antologia do Pensamento Crítico Russo”, este recém-lançado. Concluiu também antigo projeto, que havia sido planejado em conjunto com Noé Silva, de trazer para o nosso idioma Nikolai Leskov. “A fraude e outras histórias” saiu com sua organização e tradução.  De Tchekhov, foram duas novelas publicadas, “Três anos” e “Minha vida”.

“Tchekhov foi ocupando cada vez mais espaço na minha vida de tradutora e professora”, conta. Recorda-se que a primeira tradução do autor foi “O urso”, um dos textos de “Os males do tabaco e outras peças em um ato”, que teve organização de Homero Freitas de Andrade.

Foi então que iniciou a frutífera parceria com Elena Vasilevich, doutoranda de origem russa do programa de Literatura e Cultura Russa da USP. Juntas fizeram a leitura preliminar para tradução de “Ilha Sacalina”, obra de Tchekhov que, apesar da importância, é bem menos conhecida. Os dois livros que viriam a seguir, “Minha vida” e “Três anos”, são projetos a quatro mãos.

O trabalho conjunto funciona desde 2010, como explica Denise. “Elena lê o original russo em voz alta. Antes nos reuníamos na minha casa; agora virtualmente pelo Skype. Vamos discutindo dúvidas, problemas de tradução, particularidades culturais, literárias etc. Depois eu sento sozinha e traduzo o texto para o português. Nos trechos que tenho dificuldade em encontrar o correspondente em português, paro e discuto de novo com ela.”

Quanto ao desafio de verter o gênio russo, conta que a preocupação geral é manter seu estilo. “Simplicidade, profundidade e concisão. Considero essas três características como a base do texto tchekhoviano”, ressalta.

Existem, conforme a obra, desafios específicos. Em “Minha vida”, por exemplo, as frases e os períodos são mais longos do que se espera de autor consagrado justamente pelo conto curto.

O conhecimento do conjunto da obra do escritor permite soluções que honram seu estilo. “É consenso que, em Tchekhov, os detalhes são essenciais. Um único objeto, aparentemente ocasional, adquire importância especial e aponta a riqueza de significados dos detalhes de acordo com a singularidade de cada texto”, explica.

Entre os exemplos, cita o guarda-chuva em “Minha vida” e a sombrinha em “Três Anos”. “Para quem lê no original, 'zonti' aparece nas duas novelas com sentidos diferentes.” Parte de suas reflexões sobre como traduzir Tchekhov podem ser lida no blog sobre literatura que mantém na Gazeta Russa.

Rumos do idioma no Brasil

O campo de estudos russos cresceu desde que entrou no curso, há duas décadas. “Foi um fenômeno surpreendente. Em 1994, estávamos na última turma noturna do curso de russo da USP; seria mantido apenas o curso matutino, com dois professores. Falavam em excluir os cursos ‘menores’ do departamento de Orientais."

A partir daí, segundo ela, houve uma reação dos professores e alunos, em um grande esforço para revalorizar os estudos russos no Brasil. "Hoje o curso de russo da USP conta com sete professores. A equipe de docentes de russo da UFRJ também cresceu e na UFRGS estamos trabalhando para a abertura do bacharelado com habilitação em russo.”

No mercado editorial, a mudança é ainda mais visível. “Basta dar uma olhada nas prateleiras das livrarias. Após o sucesso das publicações da Editora 34, outras editoras resolveram apostar na tradução de autores russos e o campo de trabalho para tradutores, preparadores e revisores que conhecem o idioma aumentou significativamente.”

A tradutora lembra também o incremento das relações comerciais entre Brasil e Rússia. “Com frequência surgem ofertas de trabalho de tradução de documentos, contratos, sites de empresas e também de interpretação de conferências e reuniões de negócios. Em geral, quando se fala em língua russa, quem não é da área costuma pensar apenas na própria Rússia, mas esse é o idioma internacional do Leste Europeu, das ex-repúblicas soviéticas. Em russo, são feitos muitos dos contatos comerciais com países como Ucrânia, Geórgia, Azerbaidjão, Bielorrússia etc.”

No Rio Grande do Sul, segundo relata, o Instituto de Letras tem enfatizado cada vez mais o multilinguismo. "Isso significa que as perspectivas do russo são muito boas.”

Ela destaca o pioneirismo de Tanira Castro, fundadora do curso em Porto Alegre. “O idioma tem sido ensinado tanto na graduação quanto na extensão, aberto à comunidade. Na graduação, além da língua russa e do russo instrumental, são oferecidas as disciplinas de cultura e literatura russa em tradução.”

No ano passado, Denise criou ainda o Grupo de Estudos Russos (GER), para reunir pesquisadores interessados em temas da Rússia, em todas as áreas.

Caminho para a tradução

“A formação do tradutor se dá lentamente. É preciso coragem para começar. É importante estar atento, ser curioso, querer aprender cada dia mais”, recomenda.

“No caso da tradução literária, ler é fundamental. Ler as traduções dos mestres, dos colegas, de tradutores de outros idiomas. Ler a literatura nacional, dos clássicos aos contemporâneos. E eleger o que se pode chamar de autores-guia.”

Por exemplo, quando está traduzindo Tchekhov e Mikhail Zóschenko, Denise sempre lê muito Luiz Vilela. “Sim, é um autor brasileiro contemporâneo, enquanto os outros dois são russos do século 19 e da primeira metade do século 20, respectivamente. Entretanto, no estilo dos três há muitas semelhanças e Tchekhov é uma influência declarada na obra de Luiz Vilela.”

 

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