Filha de tsar russo pode ter escapado de execução em 1918

Filha do último imperador russo teria sobrevivido ao massacre da família Foto: Biblioteca do Congresso

Filha do último imperador russo teria sobrevivido ao massacre da família Foto: Biblioteca do Congresso

Obra de acadêmico russo contesta versão clássica do assassinato da última família imperial.

A filha mais nova do imperador russo Nikolai II, a Grã-Duquesa Anastassia Nikolaevna, pode ter escapado da execução em 1918, vivido até os 83 anos e falecido nos Estados Unidos sob o sobrenome de Manahan, sendo anteriormente conhecida como Anastassia Tchaikovskaia and Anna Anderson. Essa versão foi apresentada por um dos principais historiadores russos, o acadêmico Veniamin Alekseiev, em seu livro “Who are you, Ms. Tchaikovskaia?” (“Quem é você, Sra. Tchaikovskaia?”, em tradução livre).

O estudo, que vem acompanhado de cartas, citações, fotos e evidências testemunhais, está sendo impresso pela editora Basco, em Iekaterinburgo. “O lançamento da obra está programado para o próximo mês de março”, disse Alekseiev à agência Itar-Tass nesta terça-feira (25).

A obra baseada em documentos do Arquivo Estatal da Rússia é a primeira publicação de evidências de pessoas próximas da família imperial, além de opiniões de médicos e membros da Casa Romanov, que trataram a mulher e chegaram à conclusão de que a “identidade da paciente como a grã-duquesa não só é possível, como também provável”.

Foto: Getty Images/Fotobank

“Eu não assumo que ela foi executada pelos bolcheviques nem que ela tenha permanecido viva. Essas conclusões ficam a critério dos leitores”, diz o historiador. “Com base nos documentos de arquivos descobertos, e nas novas evidências russas e estrangeiras as quais pude ter acesso desde 1991 como cientista, tenho motivos para acreditar que o destino da família real não é tão certo quando acredita-se há quase cem anos.”

De acordo com Alekseiev, a versão predominante na Rússia sobre a morte da família real é primariamente baseada em testes de DNA dos restos mortais encontrados na propriedade de Porosionkov, nos arredores de Iekaterinburgo. No entanto, ele alega que os documentos que suscitam dúvidas em relação a essa versão foram praticamente ignorados.

“Os interesses tanto dos bolcheviques como de Koltchak [comandante da Marinha Imperial Russa, um dos líderes do Movimento Guarda Branca], por quem a tragédia de Iekaterinburgo foi investigada logo após as consequências de 1918, coincidiam nesse caso. Enquanto os bolcheviques precisavam expor a imagem de um governo novo e intransigente disposto a varrer todo e qualquer vestígio do passado, Koltchak apresentava a Grande Rússia sem imperador”, argumenta Alekseiev.

O historiador admite tocar em uma questão delicada ao abordar de quem seriam os restos mortais sepultados na Catedral de São Pedro e São Paulo, em São Petersburgo.  Mas o acadêmico tem esperança de que sejam colocados “os pingos nos i’s” em 2018, quando o termo de sigilo das relações internacionais entre a Rússia soviética e a Alemanha expirar. De acordo com o estudioso francês Marc Ferro, que trabalhou com o arquivo no Vaticano, os documentos ali presentes confirmam que a mulher e a filha de Nikolai II foram salvas.

“Por que tal misericórdia por parte dos bolcheviques? Depois de os socialistas-revolucionários de esquerda terem assassinado o embaixador alemão Mirbach, Wilhelm II poderia violar o Tratado de Brest-Litovsk, o que arruinaria o regime soviético. Portanto, eles tiveram que negociar”, explicou Alekseiev.

“No mundo inteiro, essa questão tem sido degradada ao longo de décadas por produções despretensiosas, literaturas e filmes pobres. Precisamos de clareza científica em torno dessa complicada questão. Eu só estou publicando os documentos. Onde está a verdade, aí é com os leitores”, finaliza Alekseiev.

 

Publicado originalmente pela agência Itar-Tass

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